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Fotografia: Direitos Reservados

Em Maio passado, o músico e artista visual lisboeta lançou Vol. 9 After the Circle pela Discrepant.

Filipe Felizardo: “Estou-me nas tintas para saber em que tom estou ou para onde vou”

Fotografia: Direitos Reservados

Filipe Felizardo, artista que se expressa sónica e visualmente (em ilustração, BD ou instalações sonoras), tem-se feito ouvir de mãos na guitarra (mas não só) nos últimos 10 anos. A solo, mas também com os mutáveis The Things Previous e em duos – seja com Gabriel Ferrandini, Margarida Garcia, Norberto Lobo, Ondness (Bruno Silva) ou Tiago Silva –, as seis cordas do instrumento que mais utiliza nunca estão iguais ou dentro dos seus padrões habituais, e o músico diferencia-se mesmo pelo individualismo que demonstra na atípica afinação da guitarra e na impaciência para se cerrar numa fórmula de 12 notas da escala ocidental ou até no dedilhar suave esperado. Assim, atonalismos e feedbacks marcam o seu trabalho, que se preza pelo experimentalismo noise/ambient – sim, os paradoxos são bem-vindos.

Noutros registos, a entrada para o mundo de Felizardo está ocupada por esses feedbacks volumosos e quase abrasivos. O Vol. 9, lançado pela londrina Discrepant, deixa a porta escancarada, sentida nas gravações de campo do seu habitat, em casa com o gato e na personalidade que vestem os arranjos caseiros (não que isso signifique que sejam necessariamente acolhedores). After The Circle é dotado duma experiência acústica com bordões mais folk, bucólicos (irónica ou até paradoxalmente, dada a ausência desse ambiente sereno no ambiente que rodeia Filipe), no qual o músico adopta algumas gravações de registos ao vivo, que são misturadas com found sounds, guitarra e até uma taça tibetana.

Esta sonoridade e estes timbres, mesmo que não-intencionais, parecem ser um reflexo claro do cansativo ruído urbano sentido em contingência. Talvez seja também essa a génese da quase inexistência de padrões ritmados – sentidos apenas com maior clareza nalguns samples em loop no segundo tema, “ONDNESS Is a State of Traseiras”. Por isso, e por alguns dos registos usados, se possa dizer que este volume – dum todo deixado à interpretação de quem queira entender – se adequa ao período em que sai, mesmo que tenha sido tocado, gravado e misturado no Verão de 2019.

Falámos um pouco com Filipe Felizardo, via e-mail, que se dobrou e desdobrou para explicar a sua abordagem à guitarra, a concepção de Vol. 9 After the Circle, e ainda sobre projectos e experiências futuras.



Tens uma abordagem muito característica relativamente ao uso da guitarra, timbricamente diversificado e algo afastado da concepção normal do instrumento. Baseias-te em algumas ferramentas particulares na criação para atingir esse som? Pedais, acessórios ou processamento de áudio, por exemplo.

El Kabong diz:

No caso da guitarra de cordas de nylon, o que a torna singular, acho, é o facto de estar há 25 anos nas minhas mãos – e já era em 2ª mão. Não é a idade que lhe dá qualquer tipo de característica, mas mais o uso ou falta dele. Costumo trocar as cordas apenas nos dias de s. nunca à tarde e, desde que uma das roldanas do carrilhão do bordão se partiu por volta de 2005, nunca mais a substituí. Durante anos não podia pôr a guitarra no drop-D que tanto curtia, então deixei-a meio de lado até que o Yuri, ex-carpinteiro da ZDB, inverteu a direcção do carrilhão – e assim já podia oscilar entre o mi e o ré. Com o passar do tempo, e a minha predilecção por sons graves, essa oscilação passou a ser mais entre o ré e tudo o que aparecesse abaixo. Acho que costumo andar uns três tons abaixo do standard, numa afinação aberta, menor. Assim dá para trastejar, e mastigar o pitch de cada nota. De qualquer modo, estou-me nas tintas para saber em que tom estou ou para onde vou.

Na abordagem eléctrica, mesma afinação, mas um amp feito por um querido amigo – é uma réplica do amp do Neil Young, mas com um speaker diferente. Teve reverb durante uns anos, mas retirámo-lo recentemente porque estava a rebentar transformador atrás de transformador – e eu estava a querer deixar de soar a guitar hero. Não querendo alongar-me ainda mais sobre estas coisas, o meu conjunto de pedais está cristalizado de uma forma que me agrada e à qual não quero acrescentar mais nada, penso eu. É como se fossem a voz com que nasci. Posso sempre ter uma nova adolescência e rachar a cana, claro. Enfim. Deles destaco apenas um tape-delay bastante portátil e simplesmente encantador. O melhor que me deu foi a possibilidade de usar um delay sem ter que soar a mera repetição, clap clap. Só se pode imitar o Manuel Göttsching uma vez na vida, e, tal como a masturbação, toda a gente – eu incluído – o devia ter feito às escondidas.

Além da guitarra, neste Vol. 9 After the Circle, ainda se ouvem algumas gravações caseiras, não é? Como o miar do gato, o som da água do duche ou de lavar os dentes. No entanto, aqui integraste-os de maneira muito clara, sem rodeios ou processamento muito intensivo. Foi por alguma razão, quereres expressar algo tão pessoal como o som da tua casa?

São caseiras sim. Não houve grande razão, excepto seguir um raciocínio poético (wtf?) que foi despoletado já nem me lembro bem porquê – desembocou numa espécie de monomania que durou dois dias. Estava em casa, toquei, ouvia sons na minha cabeça, desejava celebrar alguns dos que me rodeiam e conversar com eles. Para contrapor outras áreas da minha vivência em que tenho uma tonelada de conceitos a queimar-me, estas coisas são mais umas nóias do que vontades. Não ter que ir para um estúdio, não ter que ir para uma sala de ensaios, não ter que pagar por isso, não ter que montar muita tralha, não querer enfrentar a libido bafienta de me cometer a “compor” ou “ensaiar”, são os motivos para pegar no telemóvel e me pôr a gravar. Não posso, contudo, mentir quanto a um fenómeno que tem sido recorrente: de cada vez que ouço o Michael Morley acústico, passada uma hora estou a malhar na minha música. Go figure.

Como se deu a intervenção dos The Things Previous neste trabalho? Porque escolheste trabalhar com estes músicos?

Lol – pá, The Things Previous neste disco são o meu gato, a minha companheira que me assistiu no design da capa, pessoas com quem colaborei nos excertos (samples, se quiseres) de gravações ao vivo, e ainda pessoas que propiciaram escutas colectivas do master em contextos expositivos em Londres e Berlim. Neste último caso, a ideia foi aproveitar a coincidência de uma chamada para contribuições sob títulos como “I’m in the bath, where are you?” (organizado pela Isobel Atacus) e “water~sound~city” (pelo Francisco Petrucci) com o facto de ter, perto dessas datas, deixado um álbum no qual me retrato isolado em casa, e a tomar banho – por isso parecia perfeito “estar” dessa maneira em Londres e Berlim. Fechado em casa, mas a escorrer pelos speakers dos locais referidos. Entre o Cthulhu (bonzinho) e o artista anfíbio. Sobre o material ao vivo, digo-te que tem origem numa colaboração que estimo muito: é um duo com o Gabriel Ferrandini, ideia vinda da Sónia Câmara que nos convidou para fazer a banda sonora de uma peça multi-media do artista Hugo Canoilas. O que se ouve é um excerto de uma das apresentações ao vivo deste objecto “Under The Volcano”, em Viena, gravada com o telefone da Sónia. Portanto… The Things Previous são as pessoas e coisas que são prévias ao “meu” eu presente que se renova a toda hora por ver nelas a possibilidade de se transformar. Sem elas e as suas dádivas não posso constituir-me como pessoa. Parece new agey, mas por acaso é um bocado Hegel 101. Queria, tal como escrevi nas liner notes deste disco, libertar-me de todo o misticismo que abordei no Volume VI, e enfrentar o mundo despindo-me de qualquer preconceito sobre mim mesmo. Assim, como que saído do duche, tento perguntar-me onde é que começa a ideologia no quotidiano. De certa maneira fiz todo este álbum sozinho em casa, mas com toda esta gente presente. De resto, no sentido prático, The Things Previous são a minha backing band ao vivo – o Gabriel e o Raphael Soares como co-percussionistas, o Tiago Silva como co-guitarrista ou pianista, o André Gonçalves no synth, o Yuri Antunes no trombone, e o António Júlio Duarte na shruti e/ou luzes.

Neste disco há um registo da guitarra menos etéreo e até também uma sonoridade mais acústica, quase até bucólica – na verdade, a guitarra eléctrica aparece mais no fundo do arranjo, parece-me. Escolheste ainda uma cama harmónica interessante com o que parece ser uma taça tibetana. Tiveste a intenção de explorar as possibilidades tímbricas num âmbito mais acústico?

Não houve intenção alguma. O disco é fruto da contingência, tal como descrita em detalhe na outra resposta. Eu – contornando a baixa auto-estima – não me considero de todo alguém que se coloque numa qualquer escala de musicianship, mas sim outro alguém que tem uma certa maneira de estar que por vezes só dá para ser um estar-em-som. A posteriori, parece-me de certo modo não contingente mas bastante necessário que tenha pegado na guitarra acústica por estar completamente saturado do ruído urbano e das obras nos prédios que ladeiam o meu. Ainda assim, isto é mera especulação. De bucólico só tem a impossibilidade disso, parece-me, ahahah. A taça tibetana só lá está para efeito comédico, sabes? Imaginemos: um rapazote como eu, em casa, a procurar uma calmaria que nunca lhe é dada porque até pensar faz barulho, até ouvir música é extremamente cansativo pois não é nunca meramente estético ou libidinal, mas cada vez mais um esforço crítico. A taça tibetana é o fim da linha, em que dou por mim a fazer duas coisas: primo: a usar uma taça tibetana que a minha mãe me deu porque achava que eu precisava de me acalmar e eu pensei, porra, e agora que faço com isto uma vez que renuncio todo o faux-exotismo em que incorri em trabalhos anteriores ao apropriar os blues e outras formas?; secundo: a usar uma taça tibetana para provar que não há descanso, não há eterno retorno, só há a responsabilidade de pensar o mundo melhor do que o que é de momento. Possibilidades tímbricas nunca foram uma prioridade – aliás, a música não era uma prioridade em si. Era mais, talvez, a melhor ou única maneira de estar vivo naquele momento.

Outros volumes com os The Things Previous tinham sido lançados pela three:four records. Como surgiu o convite da Discrepant? Qual foi a influência da editora na realização do disco?

Bom, o outro único volume com os Things Previous é o Volume VI – com o Cristiano Nunes a produzir e o António Júlio Duarte como fotógrafo. O resto do material lançado na three:four é felizardo-solo. O convite da Discrepant surge feito ao felizardo-solo na sequência de um outro, para a Antologia da Música Atípica. Nessa entreguei uma faixa gravada em mp3 com um telefone (tal como o lado A do “Sede e Morte” na three:four), como versão da “Sede e Morte” do [Carlos] Paredes. O Gonçalo Cardoso ficou meio embasbacado (e o tipo que fez o master também, eheh) com isso, mas eu não tenho meios nem paciência para agendar horas, pedir favores, ou sequer para montar micros e testar o som antes de realmente começar a gravar. Por isso assim foi – mas o Gonçalo falou-me de uma app que gravava em .wav – e eu esperei três ou quatro anos para trocar de telefone e lá instalar essa. Desse modo surgiu uma outra malha, a “Fail Missa TVI”, que foi incorporada neste disco, mas partida no centro dele. Estava a pensar fazer um lado B para um single com heterónimo, e de repente tinha um álbum. Pedi desculpa ao Gonçalo, mas era isso que ali estava. Ele gostou e pensámos ambos que tínhamos em mãos uma espécie de fieldrecording que não encaixava no género “no cerne da medina de Marrakesh” ou “à beira do vesúvio”, mas algo relativo à domesticidade – igualmente confusa, perfumada, e ebuliente, mas na outra ponta do vector da “paisagem”.

Este After The Circle é o Vol 9. Presumo que todos estes lançamentos sejam para um conceito, ou uma história maior, não?

OOOoopphh. Sim. Ora bem: vou tentar encaixar tudo num tweet – por volta de 2002 comprei o Vol IV The Great St Bernardino Birthday Party do John Fahey na AnAnAnA – e passei-me. Pedi para escutar o disco antes de o comprar e, ao fim de 30 segundos, pedi ao Filipe Leote para o tirar da aparelhagem da loja (ele fazia as escutas nos speakers, o que era altamente) e não quis ouvir mais. Já estava completamente siderado com os primeiros acordes. Desde então até à data, a minha relação com a música de guitarra resume-se a doses brutais de Fahey, Neil Young, e Michael Morley durante certos períodos do ano. Não deixa de ser curioso que no mesmo dia comprei o Black Blues do Keiji Haino. Anyway: Do Fahey retive a pulsão cosmogónica que se reflectiu em tentar homenagear ou referenciar cada um dos seus álbuns ao lançar os meus. Como para mim o álbum é algo mais que um documento, mas um manifesto, foi útil ter o bordão da citação para aprender a fazer os meus, só que comecei a delirar. Na minha cabeça, os óculos com espirais que usei na capa do Vol. VI eram uma maneira de referenciar o álbum homónimo do Bill Orcutt, mas isto é absolutamente solipsista. Hoje em dia afirmo que este Volume 9 foi o último volume – que parodia o After the Ball, na medida em que acho que o fogão da capa do meu é da casa do casal que baila na capa do Fahey (na verdade, é de um PDF qualquer de um empreiteiro que o desenhou no paint e pôs na net). Decidi que não volto a usar material do Fahey desde que fiz o meu Red Cross (está no Bandcamp, mas curtia de o lançar em CD), pois acho que basta – penso que já conseguirei levantar-me pelas canetas sem ter que citar alguém, mas repensando um segundo nisso, quase me parece impossível. Repito-me, mas quem sou eu sem o que me dão as outras pessoas? Era essa a premissa do Vol II, com as pretensas covers e dedicatórias ao José Afonso, ao Peter Green, Fahey, e Paredes. Bom, tendo em conta que agora ponho Ondness no título do lado B do meu disco, acho que não vou conseguir parar de me empoleirar nos ombros de gigantes.

Tens trabalhado muito com o Bruno Silva (Ondness), com o Gabriel Ferrandini, mas também com o Norberto Lobo ou com a Margarida Garcia em diferentes projectos ao longo destes anos. Fala-nos um pouco da tua relação com esses músicos no que toca ao processo criativo, e sobre as diferenças que sentes entre trabalhar sozinho, em duo ou em banda.

Duo é fixe. Falta aí o Tiago Silva, com quem tenho o combo de dad-music The Orm. A colaboração com o Nor foi pontual, para cumear alguns anos de proximidade e de admiração. Trabalhar com ele no álbum em que homenageio Paredes e Fahey parecia necessário. Naquele dia, na Cave do 211 gentilmente cedida pelo David Maranha, pudemos celebrar um momento em que foi possível unir afinidades por vias de Les Rallizes Denudés ou The Dead C, disse-me ele. Com a Margarida Garcia, uau – pá – é a melhor colaboração que alguma vez fiz. Tenho tanto carinho por essa k7… especialmente porque um dos meus primeiros concertos, a convite da Alex Vidal (agora boss-DAMAS), foi no Botequim da Graça – e a Margarida no fim do concerto disse-me que tinha gostado. Eu fiquei pasmo e derretido de honra e bom, bebi uns whiskeys valentes até ter coragem de lhe perguntar se queria colaborar. No dia seguinte estávamos na ZDB a gravar, com o auxílio do então xamã-sónico da ZDB, Cristiano Nunes. De cada vez que volto a tocar com a Margarida, aprendo sempre alguma coisa que me faz cair por terra e ficar a estudar os joelhos esfolados. Com o Bruno é curioso e especial – de notar que colaboro com ele como guitarra e não como Serpente ou Ondness. Depois de nos formarmos para criar um CD que foi companion piece para o livro de fotografia White Noise do António Júlio Duarte, juntamo-nos muito poucas vezes (para tocar), mas quando acontece é porque tem que ser. E sempre que é, sabe muito bem. Coisa que não ocorre em The Orm por causa de outros axiomas, o Bruno é a única guitarra que me faz ter medo. Respeitinho, vá. Não se trata de uma questão de autoridade, mas de sensibilidade. O Bruno desperta-me a atenção para esse plano com muita acuidade e exigência. Tipo irmão extremoso mas que não se coíbe de dar uns carolos – claro que posso estar a imaginar tudo. Com o Gabriel? Tardou, mas o convite da Sónia Câmara acima descrito deu o mote para finalmente fazermos um duo – e imodestamente digo que resultou, porque tomámos a oportunidade para fazer algo mais que improv ad hoc, e usar o estúdio para potenciar os nossos vocabulários. Quem tomar atenção vai ouvir que na verdade é um duo entre um polvo e uma tarântula.

Sentes que o teu trabalho visual influencia a tua produção sonora, ou vice-versa?

Só recentemente é que estou a tentar deliberadamente juntar as duas coisas. Mas vai desembocar num gesto mais Fluxus que qualquer outra cena. Estou agora a encadernar um livro de desenhos meus feitos com uma única linha por página, e chamei-o de Guitar Soli for Vapour on a Drum e vou dedicá-lo ao Gabriel. Veio de uma conversa com ele em que lhe declarei o meu desdém pelo vaporwave e pela dose meramente q.b. que o género tem em engajamento político. Com admiração por alguns aspectos meramente formais, parece-me que se esgota num capricho quase nostálgico de cristalização do que há de bom no passado para colmatar uma falta de coragem para construir um novo futuro ou mesmo estudar o presente com afinco. Assim este livro há de ser uma partitura ou um álbum sem som fonográfico, que pode ser tocado por qualquer instrumento. Acho que vaporwave a sério seria tocar um instrumento de peles com vapor de água, ou chamar cordas de guitarra às riscas que fiz no papel – acho que se é para se celebrar o passado, tem que ser com a plena consciência de que este é irrepetível. O vaporwave, na sua base, teria a responsabilidade de agarrar ou terminar os meios de reprodução. Perdoa o trocadilho traduzido. Dito isto, estamos a ver se preparamos algo que ponha em evidência este nosso diálogo, partindo precisamente destas duas posições. Por isso diria que o que pensei ao fazer o livro foi o que me permitiu começar a imaginar uma nova peça musical, there ya go.

/// Regressando à pergunta: Antigamente sim. Os meus dois álbuns que rejeito, o Ovoo e o 235uwes#&%W#4rais-parta foram feitos no tempo imberbe em que buscava o sublime. Se fotografara um flare na Serra da Estrela, pensava que se imitasse (mal) o Robert Aiki Aubrey Lowe na fase Lichens, estaria a “ilustrar” essa imagem e vice-versa. Mas sinceramente, bardamerda para isso. Que fail.

Até à data, o que mudou foi passar a considerar que sou uma pessoa que faz várias coisas, e tocar uma guitarra é meramente uma delas. Abordo o meio-medium mais conveniente para veicular os conceitos em que esteja a marinar a dada altura do dia. Já me aconteceu juntar cinema ao desenho, numa série de livros que fiz. A música tem sido o mais difícil, mas acho que graças ao meu método de auto-publicação no Vandcamp me tenho obrigado a pensar cada vez mais como uma mera capa pode/deve veicular ou recomputar os conceitos que havia gravado/cutn’pastado meia hora antes.

Como costumas saber com qual te expressar? São processos muito diferentes?
Nunca sei antecipadamente. Não acredito no livre arbítrio, por isso assumo que o que se passe na carola é que sejam as próprias abstracções que lá andam a bailar que me digam “ok, eu tenho que ser trabalhada com aparo e tinta da china”, “eu explico-me melhor em fotografia”, “eu sou mais assim tipo fanzine de proto-filosofia”, “eu sou o abismo em que a tua ideia de eu se afogou, e nem te vou deixar capaz de teres a certeza de que terás força para te reconstituir e querer continuar vivo” – esta última é a vertigem que me costuma obrigar a ir tocar guitarra. O resto é mais chill.

É a tua intenção explorar mais a intercepção entre o visual e o sonoro? Num projecto mais transversal por exemplo.

Ao longo dos últimos 10 anos nunca me senti capaz de tal. Porra, tinha que admitir a mim mesmo que não sou capaz de fazer tudo – e que há pessoas que o podem fazer muito melhor que eu. Pedir ao António ou à minha companheira para fazerem minhas duas últimas capas, e ao primeiro para fazer a luz dos meus concertos com backing band, foram um mero início. Ah, lembro-me agora que o último gig de Things Previous tinha uma componente transversal, sim. Fiz uma série de slides em que pintei bolas pretas em imagens da Apollo 11 e pedi ao António para operar o projector de slides emitindo um flash em simultâneo, enquanto a banda tocava fora do palco, de lado, com as percussões a girar em quadrofonia. Isso chamou-se Cinema 13 Never Land. Foi fixe, mas podia ter corrido melhor (o projector ficou preso num loop de 20 imagens em vez das 80 e tal que eu fizera). Quero ter a oportunidade de mostrar essa peça de outra maneira. A ver. De resto, o que quero poder propiciar num futuro próximo é que eu seja apenas parte de um conjunto de pessoas cujas ideias e preocupações se possam fazer convergir n’algo mesmo, mesmo dialéctico. Até agora isto tem sido um bocadinho umbilical, excepto as colaborações bastante frutuosas com a realizadora Salomé Lamas nalgumas bandas sonoras ao vivo para um projecto co-pensado e produzido em 2015, o North.

O que podemos esperar dos próximos volumes e colaborações? Tens projectos em vista?

Não há mais volumes, ahah. Agora é tudo hors-série, ahah. Tenho um disco para sair na Trás-os-Montes Records, uma colaboração que esteve uns sete anos a fermentar até acontecer, com o Yann Gourdon. Esse disco está uma grande pastilha, e é fruto de uma residência com que fomos agraciados pela editora. Temos horas e horas de material, todos bons (acredita, nunca me aconteceu tal coisa – é graças a ele, claro), mas eu deixei todos os critérios de escolha ao Yann. Esta manhã acabei de pensar/propor a uma editora que xs artistas desta fizessem remixes de qualquer coisa de todo o meu catálogo – o que é meio fora, por isso nada de nomes até ver se isto não é só devaneio meu. Quero ver se sou capaz de gravar um novo solo eléctrico até ao fim do Verão, uma vez que encontrei uma pessoa da minha confiança e com quem tenho à-vontade para o efeito de ir para uma ruína no meio do monte durante uns dias e tocar (com o bud a gravar, porque eu, lá está, sou diva que não consegue de todo preocupar-se com essas coisas mundanas). Vai ser fixe fazer um novo eléctrico, porque retirei o reverb ao meu amp e queria gravar qualquer coisa que mostre o que tenho feito ao vivo – sérias tentativas de fazer poesia sem recorrer ao estilo ‘a tua guitarra soa a música para documentários, tipo com paisagem e não sei quê’. Por último, estou seriamente empenhado em ver se aprendo um bocado de computer music agora durante o Verão, pois – para a futura collab com o Gabriel – queria pôr a minha voz a triggar umas coisas tipo jingle da THX – lá está, talvez juntando cinema à música, nem que sejam apenas os 10mins de trailers em que nem toda a gente quer estar na sala.


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