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TRKZ: “Filhos da Terra é o produto da experiência de um jovem moçambicano”

[ENTREVISTA] Tavares Cebola [FOTO] Direitos Reservados

Encontro-me com o TRKZ no mesmo café de há algumas semanas, em Maputo, no rés-do-chão do prédio onde vive. O ano passado não poderia ter-lhe corrido melhor: um EP (Filhos da Terra) lançado, um contrato com a Kongoloti Records e várias actuações. Falei-lhe desta entrevista no nosso primeiro encontro, num sábado à noite. Combinamos um telefonema para marcar a data e falar dos pormenores. Passaram várias semanas até nos tornarmos a encontrar nas ruas de Maputo, tão apressados nos nossos afazeres que só conseguimos renovar a promessa.

Para Ailton Matavela, a música é sobretudo uma manifestação para auto-conhecimento e as suas composições provam-no. Constata, afirma e questiona a transição – repleta de experiências – entre a adolescência e a vida adulta. Filhos da Terra, o primeiro EP, é uma reacção, uma resposta, com observações sobre o que vive e o rodeia. Ailton começou a fazer música aos 17 anos e é membro da Orquestra e Coro Xiquitsi (um projecto de inserção social que formou a primeira orquestra de música clássica em Moçambique).

 



Como é que começaste e qual foi o teu primeiro contacto com a música?

O meu primeiro contacto com a música foi através da MTV e da Channel O. Sempre gostei de ouvir a pop, o rock, bandas como Linkin Park, Coldplay. Também assistia muito ao wrestling e as músicas de entrada eram o rock, o metal. Por outro lado, tive no meu irmão uma influência: ele era o rapper da zona e cresceu a ouvir Wu Tang, ONYX e hip hop português como Valete, Sam The Kid, Ikonoklasta, Fusível, Dealema. Portanto, cresci a ouvir tudo isso, de Portugal aos Estados Unidos. Nunca me imaginei como artista: inspiraram-me a começar a escrever o Valete e o Sam.

Quando é que começaste como praticante, e em que circunstâncias?

Comecei aos 11 anos, mas não deu certo. Gravávamos em sessões de rebobinagem, fazíamos as verdadeiras mixtapes e gravávamos por cima. A sério, comecei em 2012, num colectivo chamado The Paper Jets. Eu, o Ian Simbine e o Afonso Muchanga fizemos três ou quatro músicas juntos e logo na terceira tivemos a chance de gravar com o Hernâni da Silva, o Trapboy, o HTD e comecei a gravar na Sameblood (conhecido estúdio em Maputo) com o grupo e a fazer músicas a solo. Posso dizer que comecei a minha carreira com 17 anos.

Fazias beats? As composições?

Ainda não tinha a maturidade que me permitiria criar uma plataforma para executar essas actividades. Não diria que estávamos limitados, mas estávamos dependentes dos produtores. Trabalhávamos com o Djonboz e o Grim, mas eu já fazia instrumentais, embora não fosse muito bom. Fazíamos produções conjuntas ou dava ideias para alguma composição e o produtor trabalhava nelas; ver os produtores a executar ajudou-me a amadurecer como artista e produtor. Depois, comecei a trabalhar com o Kae Em, o Kevin Marrengula, em 2012, e tornei-me cliente regular da Sameblood. Foi lá que gravei o Filhos da Terra. A ideia era que fosse um álbum de quinze faixas, mas, por alguns infortúnios, alguns projectos perderam-se pelo caminho e tive que voltar a trabalhar neles com o Kae Em. Gravámos as músicas em 2014 e como tínhamos as demos espalhadas entre os nossos amigos decidimos sentar e regravar, com os ajustes necessários e espelhando os nossos progressos.

O Kae Em foi das pessoas que mais colaborou no Filhos da Terra?

Sempre que falo no Filhos da Terra, tenho que mencionar o Kae Em. Para ser sincero, ele foi a pessoa que me motivou a criar o projecto. Ele escreveu-me uma mensagem no Twitter perguntando se estava interessado em gravar um EP ou um álbum. Fui para casa dele e mostrou-me o que tinha. Disse-lhe que devíamos começar tudo juntos, e fizemos muitas instrumentais, ele de um lado e eu do outro. Eu tinha a parte directiva e ele a da execução. Foi um intercâmbio espontâneo, natural. Devo muito ao Kae Em. Desenvolvemos bastante. As produções do Kae Em agora são excelentes.

 


https://www.youtube.com/watch?v=zCO3q6Cdlko


O que é que querias explorar com o Filhos da Terra?

Quando escolho um nome para um projecto, faço-o sub-conscientemente: gravo as faixas, e, no caso deste, as histórias foram combinando umas com as outras. O nome foi inspirado no filme Os Filhos da Terra [onde crianças criam uma comunidade autónoma e vedam o acesso a adultos]. Em resumo, Filhos da Terra é uma jornada de um adolescente, que faz a transição da última fase da adolescência à primeira fase da vida adulta. As experiências pessoais, espirituais, emocionais e todas as componentes cognitivas do ser humano durante essa transição. Existem vários eventos e factores que passam-nos despercebidos. O foco era humanizar o conteúdo. Focar-me nos sentimentos, nas sensações e no tabu. Há experiências de que não falámos. Juntando experiências familiares e religiosas, tentei albergar tudo nessas oito faixas. Tentei falar de amor, de revolta, de desespero, da necessidade de salvação e de criarmos máscaras para nos protegermos de alguma coisa, ou sermos o que realmente somos sem cedermos ao conformismo. É uma intervenção para as pessoas reflectirem sobre o que está ao seu redor e olharem em diferentes prismas. Comecei a gravar quando estava no primeiro ano da universidade (a cursar Psicologia Social) e utilizei muitos dos conceitos de base científica no EP. Tento sempre trazer um carácter didáctico. Por outro lado, fui lendo sobre a terra, a mitologia sobre a terra, o que representa, astrologia…é talvez a razão porque as minhas faixas têm títulos abstractos. “MDTT” é uma faixa de expressão lírica, de revolta, de vencer naquilo em que acredito, cada linha tem o seu foco. A “Aldeia Dschungel” é fictícia, retirada de um livro de Freud intitulado A Interpretação de Sonhos. “Amor 2.0” fala do amor à distância e das ilusões ou visões à volta disso, é sobre um amor que sabes que existe mas não sabes onde ou sabes onde está mas não podes alcançar. A “Sociedade Futura” é de crítica social. Retrato factos de quando era aluno do secundário, a aprendizagem informal, a adolescência, onde entramos em contacto com drogas, sexo, violência, mas é também um forma poética de expressar o que se passa. Comparo as variações de temperatura em Maputo com as variações de temperamento humano. Tem a ver com ambivalência de sentimentos e disposições. “Bescin” Florinda é uma história fictícia, uma mulher com quem sonhei e que nunca conheci, tive um momento romântico e desse contacto só me lembro do nome Bescin Florinda. Procurei esse nome em todas as redes sociais e não encontrei nada. Procurei várias semanas no Facebook. “Bescin Florinda” é o símbolo de algo que amas mas não conheces, ou de uma experiência que foi interrompida, é uma incógnita. Quando alguém vai embora da nossa vida é um certo tipo de morte, não uma morte física, ou social, mas alguma coisa morre. É uma música muito vaga, que remete para diferentes contextos e as pessoas interpretam-na de forma diversa, o que talvez é bom para eu ter uma maior amplitude do seu conceito. “1408” é a história de dois jovens que se apaixonam e há uma gravidez precoce e um momento decisivo: abortar ou não abortar. Há o medo, mas também a curiosidade, conhecer e contactar com uma entidade que ainda não veio ao mundo. Na segunda parte da música, a criança comunica com o pai e o casal fica a reflectir em torno do que seria ter uma criança. É uma forma de superar o trauma e nesse sentido é também uma forma de pensar como é que os casais pensam o aborto. “Halloween” é uma música sobre a força de uma juventude que se recusa a seguir caminhos convencionais, que está ciente do que é. Em festas de Halloween, as pessoas põem máscaras, mas o que concluo nesta música é que pomo-las todos os dias. “O Exorcismo” pode ser visto sob prismas diferentes, não necessariamente como a libertação dos espíritos de uma entidade maligna. Relaciono o exorcismo com o estado de melancolia. Tento mexer coisas sobre as quais não tenho controlo. Se pessoas brigam é talvez porque não têm a percepção do que se está a passar, é a manifestação violenta de um sentimento que lhes ultrapassa. Tudo isso pode ser explicado pela ciência? Os curandeiros são mais capazes? Os religiosos? É uma de reflexão sobre ódios, cura, melancolia…

Concluindo, Filhos da Terra é o produto da experiência de um jovem moçambicano, é o rescaldo de uma transição da adolescência para a fase adulta e é também uma reflexão sobre o que se passa no dia-a-dia, os dilemas, o que esperamos…

Associaste-te há pouco tempo à Kongoloti Records. Como é que isso sucedeu?

Fui sempre um admirador dos artistas da Kongoloti, da forma como eles trabalham e a cultura que eles têm. É uma honra e acho que é o local apropriado para o meu enquadramento criativo e social. Espero através desta associação conseguir alcançar os meus objectivos pessoais e ajudá-los a alcançar enquanto grupo. Temos um objectivo comum na promoção da música moçambicana e a esse nível é o local ideal para a divulgação da minha música lá fora. Queremos mostrar que em Maputo há gente talentosa e vale a pena prestar atenção.

Sei que tens um EP (Filho da Lua) pronto. Perspectivas para lançar alguma coisa a médio prazo?

Tenho um método de trabalho que consiste em trabalhar em projectos curtos: foco-me num conceito e vou gravando. Muitas vezes ocorre-me fazer um álbum, quinze faixas, mas no percurso perco o conceito principal, e por isso prefiro resumir. Filho da Lua é o projecto que se segue. Não tenho pressa. Vou apostar na promoção do que já tenho. Quando assinei pela Kongoloti tinha terminado outro projecto Intervenção Divina e comecei a trabalhar um quarto logo a seguir. Este ano, os dois primeiros serão a minha aposta. Fazer espectáculos, desenvolver como artista, aprender, rever as estratégias.

Onde é que queres chegar?

Uma resposta seria dizer que quero chegar ao infinito. Eu diria que a música não é propriedade minha ou da Kongoloti. É deste país, é do mundo. Gostaria de ser visto como um artista e como um activista, alguém que quer tornar o mundo num lugar melhor para se viver e Moçambique num lugar em que as próximas gerações não sejam ensinadas a ter medo, a deixarem de ser o que são para agradar um sistema. Não quero que Moçambique seja um lugar em que não vale a pena lutar por aquilo que se sonha. O meu sonho é alcançar o mundo e espalhar a mensagem da minha música.

 


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