Festival Rimas e Batidas: a noite em que o palco foi delas

[FOTOS] Bruno Martins

 

São 21.35 horas e há história a acontecer. As portas da Sala 2 do Cinema S. Jorge, monumento cultural lisboeta, abriram há minutos, o público entrou e aproximou-se timidamente do palco. Vive-se um ambiente intimista, enquanto “Por Aí” dos Mind Da Gap se espalha como manto sonoro ambiental, música viajante que avança no tempo enquanto os segundos decrescem em direcção à abertura do 1º Festival Rimas e Batidas. À hora marcada, um agradecimento especial ao público presente por fazer parte deste momento único na vida deste projecto. Palavras curtas e directas, porque a noite é das artistas nacionais, das rappers, singers e produtoras que estão a cativar toda a nossa atenção pela sua liberdade e ousadia criativas. As primeiras palmas ressoam pela sala, o palco esvazia-se por segundos, o primeiro nome é invocado ao palco. O silêncio dá lugar aos acordes. À música. Às rimas e às batidas.

Primeira paragem: o hip hop tornado acústico pelas emocionais covers de Fábia Maia. Este é igualmente um momento histórico para a cantora nortenha: com uma postura tranquila, guitarra acústica entre mãos, Fábia Maia pisou pela primeira vez um palco “a sério” desde que se deu verdadeiramente a conhecer há um ano atrás com uma versão de “O Meu Par” de Allen Halloween. O reconhecimento chegou-lhe primeiro pelo YouTube, por via de milhares de views, e agora através de uma presença frente-a-frente, olhos-nos-olhos, com um público que soube acolher os seus próprios compassos e recortes temporais entre rimas. É o hip hop em readaptação, uma outra forma de transmitir a mensagem.

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O set foi exclusivamente de covers – “tenho um projecto em vista a solo, mas ainda não está cá fora”, disse no backstage após o showcase. Percorreu clássicos como “A Mentira do Vosso Amor“, de Valete, “O Convite” de Halloween, artista que acaba por ter mais covers de Fábia Maia, e “Judas e Dalilas” de Capicua. O público em balanço suave e em apreciação das rimas esplanadas num andamento melódico. Ao nosso lado está Malabá, que a acompanhou neste espectáculo, e quando chega a vez de “Drunfos” este histórico do hip hop comenta que “cada vez que oiço este cover fico com arrepios”.

“A primeira experiência de subir a um palco é sempre custosa, mas correu bem”, desabafou entre sorrisos Fábia Maia. “Ser a primeira artista a abrir o festival e pensar no que daqui a uns anos poderá vir a ser, maior do que é, dá-me um gostinho especial.”

Caroline Lethô foi a senhora que se seguiu, paragem no S. Jorge via Oslo, Noruega, onde se encontra a fazer Erasmus. Valendo-se das produções de Éter e um par de novidades, embrenhou o S. Jorge num ambient com adições de camadas sonoras que dão corpo a uma electrónica pulsante que estendeu a experiência imersiva em que a sala já se encontrava depois do acústico de Fábia Maia. “As minhas músicas não são propriamente para dançar”, explica-nos depois do show. “Há quem diga que estou dentro do IDM, que é mais para dançar com o cérebro e não com as ancas. Mas acho que é sempre possível avançar por caminhos menos normais.”

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Sobre o Festival Rimas e Batidas, sublinhou a importância de uma noite dedicada às artistas. “É um grande passo e espero que haja muito mais noites com rapazes e raparigas juntos. A música não se mede por géneros e esta é uma boa experiência, até por passar hip hop, electrónica, o acústico da Fábia Maia e até electrónica mais cantada como Sequin.”

Lethô acabava de conversar connosco e já se ouvia ao fundo a remistura de “I Mean It” de G-Eazy por Blink. A rapper de Loures subiu ao palco sob uma filtragem luminosa dark, acompanhada por Shcuro nos pratos, vídeo em projector, pequenas fumaças a ensombrar uma actuação firme. “Sangrar Sem Chino“, que assinou com a dupla A.M.O.R., “I Am A Goddess“, “Killa Queen“, produções mais recentes que se cruzaram com os primeiros sons que deram a conhecer o valor da MC.

“Conta, adoraste o teu concerto”, pergunta Honey, metade das A.M.O.R., à jovem rapper. “Adorei!” “Fala-nos do set que trouxeste.” “Houve umas músicas mais fofi e outras mais hardcore e outras em que disse cenas que ninguém diz, uma espécie de feeling de Halloween…” “O Halloween em gaja…” “Exactamente!” “Foi para importante para ti falar das mulheres na tua música?” “É muito importante para mim. Tudo aquilo que eu faço, sejam sons mais calminhos ou egotrip, têm sempre um objectivo de empowerment.”

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Em noite exclusivamente feminina, o primeiro dia do Festival Rimas e Batidas fechou com a electro-pop de Sequin. Acompanhada de baixista e outro teclista, explanou uma vibrante electrónica cantada sobre synths cósmicos e um background de graves persistentes que mexeu com o público em sala. “Naive“, o hit mais aguardado, deixou a malta a dançar, mas foi a 80s-pop de “Peony” que mais agitou os corpos, entre pulos onstage e agitações alegres na plateia.

“O concerto correu bem, para nós foi fantástico, estávamos mesmo à-vontade e senti imenso calor e o pessoal a curtir”, disse Ana Miró logo a seguir à actuação. “A maior parte do que tocámos foi temas do Penélope e houve duas músicas novas – uma delas já lancei, mas nada oficial – que estamos a experimentar tocar ao vivo. São sons menos melódicos, quase exclusivamente batida.”

Sobre a experiência no festival, apontamentos positivos de uma experiência entre produção mais electrónicas e hip hop. “Sentimo-nos em casa, foi agradável até mesmo o tempo que estivemos a falar com os outros artistas, foi bom conhecê-los. Este festival serve mesmo para isso, dar a conhecer pessoas que estão a começar e que têm coisas novas para apresentar e que ninguém sabe que existe. Eu já levo daqui nomes para pesquisar e ouvir e quem sabe vir a efectuar projectos em conjunto, porque o pessoal tem de se unir.”

Luzes apagadas, aparatos em arrumação. O primeiro dia encerrou, mas ainda há dois pela frente. Electrónica e hip hop. Música made in Portugal, acima de tudo.

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