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Fotografia: Mínima
Publicado a: 10/02/2026

Música para ver, ouvir e sentir.

Festival Porta-Jazz’26 — dias 3 e 4: amanhã é a pergunta

Fotografia: Mínima
Publicado a: 10/02/2026

Foi já na madrugada de ontem, segunda-feira, que chegou ao fim a 16ª edição do Festival Porta-Jazz. No espaço do café do Rivoli Teatro Municipal do Porto, Mané Fernandes, os sQuigg e uma série de jovens valores sequiosos de mostrar o que têm vindo a aprender — dentro e fora da escola — fizeram a festa final numa concorrida jam session que serviu também de banda-sonora às despedidas das muitas pessoas que anualmente acorrem à Invicta para esta celebração da música viva. Antes da jam, Pedro Tenreiro desfilou classe, groove e alma através de uma selecção impecavelmente curada de soul, funk e arredores arejados em vinil de 7 e 12 polegadas. E antes disso, ao longo de boa parte da segunda metade do dia de domingo, os diferentes espaços do Rivoli revelaram-se pequenos para acolher todos os que fizeram questão de marcar presença. Percebe-se que o público do festival está a mudar: mantém-se um núcleo que é a própria comunidade Porta-Jazz, mas em seu torno orbitam famílias, curiosos, gente de vários países que escolheu o Porto para viver, jovens músicos que sabem que na plateia também se alargam horizontes, programadores em busca de matéria-prima, jornalistas e agentes a medir o pulso a um futuro que já mexe com este presente.

Mas importa recuar ao sábado, 7 de Fevereiro, segundo dia do programa principal no Rivoli, terceiro se contarmos com a pré-jornada no Espaço Porta-Jazz. É aqui que o tema desta edição, “A Terra Vista do Ar”, começa verdadeiramente a ganhar espessura prática. O texto do programa propõe uma cartografia musical da empatia e da cooperação, uma vista aérea que não é vigilante nem dominadora, mas reveladora de relações invisíveis ao nível do chão. E muitos dos concertos destes dois dias pareceram trabalhar exactamente esse paradoxo: música feita de microscopia e vertigem, de silêncio e excesso, de detalhe e panorama.

No Palco GA, a apresentação de Stones and Seeds reuniu Almut Kühne na voz, João Pedro Brandão na flauta, clarinete, e saxofone e Marcos Cavaleiro na percussão. A música parecia nascer do próprio ar que circulava entre boca, garganta e microfone. Almut erguia-se do sussurro para vocalizações não idiomáticas, ruídos guturais e atonais que nunca soaram a gesto “experimental” gratuito, mas antes a uma investigação íntima da matéria da voz. A certa altura, pegou numa flauta que soava como extensão natural das suas cordas vocais; quando a pousou, a diferença era quase imperceptível. João Pedro Brandão trouxe um flautismo de sombras eruditas, abstracto e exigente, dialogando com essa fisicalidade vocal. Marcos Cavaleiro, com um setup invulgar onde um timbalão inclinado e um adufe tinham papel central, desenhou o chão tímbrico desta paisagem. A música evocava contemplação — pedras, sementes, silêncio — mas fazia-o através de uma linguagem próxima da música contemporânea, onde o silêncio é tão expressivo quanto o som.

Seguiu-se SATT, com Alfred Vogel na bateria, Christian Weber no contrabaixo e Gregor Forbes no piano, substituindo à última hora a componente electrónica prevista devido a problemas com voos. O resultado foi um trio acústico exposto, entregue a improvisação livre, feito de grooves lentos e espectrais que por vezes pareciam fúnebres, como se a música reflectisse a densidade dos tempos presentes. O solo de Weber com arco foi um momento de rara intensidade, revelando a profundidade quase narrativa do contrabaixo. E quando o trio se resolvia em passagens mais swingadas, isso surgia menos como regresso à tradição e mais como ironia: às vezes, tocar straight ahead é a forma mais estranha de ser radical.

No Pequeno Auditório, a interpretação de Northern Train trouxe Pedro Neves ao piano (e composição…), Javier Pereiro no trompete, Nuno Campos no contrabaixo e José Marrucho na bateria. A música ilustrava uma viagem — de comboio, pois caro — imaginária por paisagens cobertas de neve, sem qualquer vontade de ruptura com a tradição, mas plena de elegância harmónica e sofisticação formal. “Casa das Máquinas” revelou bem a fórmula do quarteto: groove vincado, bateria sincopada, contrabaixo sinuoso e o comping luminoso de Neves a dar cor e direcção. A força do concerto esteve precisamente na forma como essa linguagem familiar se tornou espaço de imaginação partilhada.

Ainda no sábado, o Ensemble Mutante #3, dsta feita comandado por Zé Stark — bateria e composição — e com Fernando Brox na flauta, Lucas Oliveira no sax alto, Yudit Almeida no contrabaixo e voz, Ricardo Moreira no piano e teclados e Fábio Mota na percussão, ofereceu um dos concertos mais vibrantes do festival. Todos vestiam vermelho, como se anunciassem desde logo a intensidade do que viria. A música era altamente arranjada, cheia de grooves musculados que apontavam para um jazz espiritual e extático. Stark mostrou um baterismo sofisticado, usando um prato estridente como substituto ocasional da tarola, criando soluções rítmicas inesperadas. A meio, oito vozes entraram em palco para um estridente “ahhhh!”, piscadela clara a “For Free” de Kendrick Lamar, lembrando que o jazz contemporâneo pensa com o presente. O final, numa deriva afro-cubana com todos em percussões, foi tão festivo quanto inteligente.

No Grande Auditório, Ricardo Coelho apresentou KOHELET no vibrafone e composição, com José Soares no saxofone alto, José Diogo Martins no piano, Romeu Tristão no contrabaixo e João Sousa na bateria. A música tinha uma dimensão meditativa rara, ecoando a ideia bíblica de lançar a semente e aceitar o risco. José Soares voltou a afirmar-se como voz maior, com solos melódicos e profundamente humanos, enquanto o vibrafone de Coelho oscilava entre brilho e martelo, luz e matéria.

Seguiu-se EUPNEA de Vera Morais com Liva Dumpe e Sarah Van Eijk nas vozes, Teresa Costa na flauta e piccolo e Ketija Ringa-Karahona na flauta, flauta alto e piccolo. As vozes criavam texturas que por vezes soavam maquinais, evocando polifonias antigas, tradições corais religiosas e ecos folk. As flautas introduziam dissonância como fricção necessária. “Stay away from plastic boats for the sake of poetry” soou como frase irónica e certeira. EUPNEA mostrou como a delicadeza pode ser radical.



Domingo começou com os combos da ESMAE e da JOBRA a ocuparem o café do teatro. Jovens músicos a aprender a “ler” a tradição, como quem aprende a ler antes de chegar a Shakespeare ou Pessoa. Essa moldura inicial deu outra perspectiva ao que se ouviria depois: a comunidade como cadeia viva entre gerações.

No Pequeno Auditório, Between Time and Now juntou Sérgio Tavares no contrabaixo e Renato Diz no piano. Um dos concertos mais impressionantes do festival. Diz explorou a arquitectura interna do piano com molas, objectos, percussões na madeira e um ebow que fazia as cordas vibrar em drones cromáticos. O piano tornou-se espaço físico audível. Tavares respondeu com um diálogo contrapontual riquíssimo. Vinte anos de cumplicidade ressoavam em cada gesto.

Oxímoro, de João Martins, trouxe música cinética e grooves pesados, com João Salcedo no piano e sintetizador, Laura Rui na voz e sintetizador, Nuno Trocado na guitarra, Gabriel Neves no soprano e Fábio Almeida no tenor. O soprano surgia textural e processado, o tenor grande e musculado, e a música avançava sempre em tensão produtiva entre caos e forma. Uma vertigem, esta maratona de concertos que são igualmente desafios sucessivos á atenção e à capacidade de encaixe. O Festival Porta-Jazz não facilita a vida a ninguém — nem aos artistas, nem ao púbico: a sua fasquia permanentemente elevada é uma das suas marcas de água.

No Palco GA, Lado Umbilical de AP apresentou a sua guitarra processada como instrumento de fragmentação e silêncio, com João Pedro Brandão na flauta, Gil Silva nos saxofones e flauta, Miguel Meirinhos no piano e Gonçalo Ribeiro na bateria. O concerto partiu quase do vazio para culminar num ritmo marcial, terminando num belo diálogo final entre flauta e saxofone, apoiado por intervenções mínimas de piano e bateria.

Diagonal Shift, de Hristo Goleminov, com Ketija Ringa-Karahona na flauta, Michael Moore no clarinete e Federico Calcagno no clarinete baixo, explorou a arquitectura tímbrica de um quarteto apenas de madeiras, obrigando a uma escuta microscópica do detalhe do som.

No Grande Auditório, Fisuras de Hery Paz foi um momento de fogo intenso. Hery Paz nos sopros, claves e voz, Pedro Melo Alves na bateria, João Carlos Pinto na electrónica, Demian Cabaud no contrabaixo e Maria Mónica na componente visual criaram uma performance nervosa, politicamente carregada e em constante reacção ao presente. A electrónica glitchy, a criatividade de Melo Alves e a energia de Paz fundiram-se num ritual vivo, desafiante e até comovente. O momento em que a flauta atravessou referências improváveis, percorrendo o improvável trajecto possível de ser desenhado entre Prokofiev e as raízes folclóricas afro-cubanas, até chegar a “Ama-me Como Soy” de Pablo Milanés foi de uma beleza inesperada.

O fecho coube a Serpentine do pianista Felix Hauptmann, com Jorik Bergmann na flauta, Fabian Dudek no saxofone, Samuel Mastorakis no vibrafone, Ursula Wienjen no baixo eléctrico e Leif Berger na bateria. Um concerto que sofreu por vir depois da intensidade avassaladora de Fisuras, lembrando que a programação também cria choques de perspectiva. Talvez a inversão da ordem tivesse resultado, mas bem sabemos que estes complexos alinhamentos resultam quase sempre de improváveis variáveis que muitas vezes não aceitam qualquer outro tipo de solução.

Ao longo do dia, voltou a ouvir-se em vários palcos uma frase recorrente em apresentações de concertos de jazz: “espero que gostem”. Talvez seja tempo de a abandonar. O que aqui se ouviu não pede gosto como medida; pede atenção, confronto, pensamento, corpo, disponibilidade. Pode pedir dança, pode pedir reflexão, pode pedir desconforto. “Gostar” é pouco para a música que se escutou nestes dois dias. A pergunta que ela coloca é outra: o que é que isto nos fez ver, ouvir, sentir — de perto e bem lá do alto?

E assim se fechou o festival. Não com um ponto final, mas com a sensação clara de que esta comunidade continua em movimento, sempre à procura da próxima forma do jazz que está para chegar. Ou, como também “disse” Ornette, no título de outro dos seus álbuns, “amanhã é a pergunta” a que o hoje tenta em vão responder. O Porta-Jazz, classe de 2026, deixou um par de respostas plausíveis.


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