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Fotografia: Minima
Publicado a: 07/02/2026

Música que alterna entre proximidade táctil e visão panorâmica.

Festival Porta-Jazz’26 — dias 1 e 2: a forma do jazz que está para chegar

Fotografia: Minima
Publicado a: 07/02/2026

O Festival Porta-Jazz anuncia sempre um ano carregado de possibilidades e é a primeira e generosa entrada num calendário que se quer preenchido com música criativa e desafiante, com comunidades que pensam e agem de forma diferenciada. A edição de 2026 volta a confirmar essa capacidade transformativa e parece propor-nos uma visão muito particular do jazz que está para chegar. Vindo do futuro, certamente, como a mais criativa imaginação determina.

Na passada quinta-feira, 5 de Fevereiro, o arranque do festival fez-se em casa, no Espaço Porta-Jazz na Praça da República, Porto. Antes de qualquer foco de luz sobre um palco maior, antes de o aparato do teatro emprestar escala aos gestos, a música começou onde a comunidade se reúne, se organiza, estuda e cria. O ambiente era de celebração discreta e expectativa vibrante: abraços demorados, conversas retomadas como se tivessem sido apenas pausadas na véspera, copos de vinho a circular como preâmbulo sensorial. Ali, sentia-se que o festival começa muito antes da primeira nota soar. Começa, precisamente, na reunião das pessoas que o fazem existir.

A abertura do programa fez-se com a apresentação de Antídoto, novo trabalho do baterista e compositor Miguel Rodrigues. Em palco, Rodrigues na bateria, José Soares no saxofone alto, André Fernandes na guitarra e Demian Cabaud no contrabaixo formaram um quarteto cuja matéria-prima foi a escuta. Não a escuta protocolar entre músicos experientes, mas uma escuta profunda, de quem parece procurar na música uma forma de orientação. Antídoto revelou-se menos como um alinhamento de temas e mais como um percurso contínuo, onde as peças se encadeavam pela respiração colectiva e partilhada.

José Soares desenhou linhas que pareciam nascer do silêncio e regressar a ele, como se o ar tivesse densidade própria. André Fernandes, com uma guitarra que tanto sabe ser sombra como clarão, criou campos harmónicos onde o saxofone podia pousar ou de onde poderia partir. Demian Cabaud manteve o chão elástico, nunca rígido, e Miguel Rodrigues conduziu o conjunto com uma bateria que não marcava apenas tempo, mas insinuava direcções. Houve momentos de candura quase pastoral, paisagens abertas que pareciam suspender a sala inteira, e outros de tensão concentrada, em que a música se tornava nervo exposto. Mais do que um concerto de abertura, foi uma afirmação subtil de princípios: aqui, o jazz é diálogo, cooperação, risco partilhado.

A segunda parte da noite trouxe um contraste deliberado com We Don’t Care About…, ensemble alargado em parceria com a AMR de Genebra. Florence Melnotte no piano, Anthony Buchlin no trombone, John Menoud no saxofone alto, Gregor Vidic no saxofone tenor, Ludovic Lagana no trompete, Brooks Giger no contrabaixo e Nelson Schaer na bateria apresentaram uma música de grande impulso colectivo. Se o quarteto anterior respirava em expansões e recolhimentos, aqui o ar era comprimido e libertado em uníssonos de metais cheios de potência.

A escrita revelou-se estruturante, mas nunca limitadora. As partes compostas serviam de trampolim para janelas de libertação onde a energia do grupo se tornava quase física. O swing não aparecia como estilo histórico, mas como estado do corpo: a rítmica empurrava, os sopros erguiam-se como bloco, e a música avançava com uma confiança que parecia saber exactamente para onde queria ir, mesmo quando se permitia desviar. Foi a prova de que a arquitectura e o impulso podem não só coexistir, mas reforçar-se mutuamente.



Ontem, 6 de Fevereiro, o festival mudou-se para o Rivoli Teatro Municipal do Porto para a sua primeira grande jornada, e com ele mudou também a escala do gesto, mas não a sua intenção. Se o tema desta edição — “A Terra Vista do Ar” — propõe um exercício de deslocação do ponto-de-vista, aquilo que se começou a ouvir ao longo da tarde pareceu precisamente corresponder a esse convite. Ver a terra do ar não é afastar-se dela, é ganhar distância suficiente para perceber padrões, relações, linhas invisíveis que ao nível do chão se confundem com detalhe excessivo. Esta ideia atravessou subtilmente os concertos: a noção de estrutura como paisagem, de improvisação como voo rasante sobre formas previamente desenhadas, de músicos que ora se aproximam do detalhe microscópico, ora se elevam para observar a totalidade do som que constroem em conjunto. O tema do festival funcionou assim como chave de leitura sensível para o que se escutou: uma música que alterna entre proximidade táctil e visão panorâmica, entre o gesto imediato e a consciência alargada do lugar que esse gesto ocupa num território maior.

No primeiro bloco, José Vale na guitarra e electrónica apresentou Summer School, com Gil Silva no saxofone tenor e Gonçalo Ribeiro na bateria. O que se ouviu foi uma música de fricção. Noise, distorção, texturas ásperas e pulsos irregulares criaram uma paisagem sonora que evocava ecos de hardcore e metal, mas sempre atravessados por uma consciência jazzística que surgia quase como ironia. O trio parecia trabalhar na fronteira entre o excesso e o controlo, como se testasse até onde pode ir a tensão antes de se transformar em forma. E quando, já perto do final, surgiram referências breves a um fraseado mais straight ahead, o gesto soou menos como regresso à tradição e mais como comentário mordaz sobre ela.

Seguiu-se o Littorina Saxophone Quartet, com Maria Faust, Mikko Innanen, Fredrik Ljungkvist e Liudas Mockūnas. Quatro saxofones — do barítono ao soprano o e do alto ao tenor —, quatro vozes distintas, um organismo único. A música era altamente composta, cheia de detalhes microscópicos, mas deixava claro que as estruturas funcionavam, como fez questão de frisar Mikko, como meras molduras. Dentro delas, as explosões cromáticas surgiam de improvisos livres que pareciam brotar de uma confiança absoluta entre os músicos. Os timbres combinavam-se com elegância e vigor, ora em texturas compactas, ora em linhas que se entrelaçavam como correntes de água. O quarteto mostrou como a complexidade pode ser não um obstáculo, mas um convite à escuta atenta.

À noite, no grande auditório, Mané Fernandes abriu o Bloco 2 do programa com a muito esperada apresentação de sQuigg: playground_etiQuette, mais uma edição Carimbo Porta-Jazz. Na guitarra e efeitos, Fernandes liderou um grupo onde a fronteira entre instrumento e dispositivo sonoro se dissolveu. Luca Curcio no contrabaixo e sampler e Simon Albertsen na bateria e sampler formaram uma base rítmica elástica, à qual se juntaram José Soares no saxofone alto, Ricardo Coelho na percussão e as vozes de Almut Kühne e Mariana Dionísio. José Diogo Martins, que se escuta no disco, esteve ausente deste “recreio”.

O concerto foi extraordinário na forma como desmontou papéis. A guitarra deixou de ser centro harmónico previsível para se tornar motor rítmico e textural. As vozes não surgiram como veículo de texto, mas como instrumentos com um alcance cromático notável. Houve cadências próximas do hip hop, vénias subtis a J Dilla, e uma sensação constante de que a música respirava tanto de África como das cidades contemporâneas. Ricardo Coelho, no vibrafone e percussão, acrescentou brilhos e sombras que davam à música uma qualidade quase táctil. Tudo ali parecia apontar para uma ideia: o jazz como playground sério, onde a liberdade é exercida com consciência formal.

O fecho coube a Ursa Maior, talvez a imagem mais concreta daquilo que este festival representa. Mais de trinta vozes em palco, um piano a servir de afinador colectivo, cordas percutidas e ressonantes a indicar caminhos para a harmonização conjunta. O que se ouviu foi menos um concerto e mais a materialização sonora de uma comunidade. Cada voz era individual, mas o resultado era um corpo único, pulsante, onde a música surgia da soma das presenças.

Nestes dois dias, percebeu-se que a forma do jazz que está para chegar não é uma fórmula estética nem uma escola definida. É um processo. Vive da tensão entre escrita e improvisação, entre intimidade e explosão, entre individualidade e colectivo. E, sobretudo, vive da capacidade de uma comunidade se reunir, escutar e arriscar em conjunto. É essa forma — mutável, inquieta, profundamente humana — que o Porta-Jazz voltou a colocar diante de nós. E o futuro segue dentro de momentos…


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