Festival Iminente – Dia 3: És central ou periférico?

[TEXTO] Manuel Rodrigues [FOTOS] Daniela K. Monteiro e Sebastião Santana [VÍDEO] Alexandra Oliveira Matos e Luis Almeida

Nem todas as obras de arte são feitas para pendurar na parede da sala de estar com o simples intuito de servirem de decoração. Algumas delas têm como principal finalidade mexer com o nosso cérebro, de tal forma que acabam por nos moldar a nível intelectual. É o caso do Festival Iminente, evento que não se limita em levar um conjunto de artistas das mais variadas vertentes a um jardim municipal para uma mera exposição pública. O Iminente vai mais longe: quer por força que regressemos a casa a reflectir sobre o que acabámos de presenciar. E isso é de louvar.

Conhecido pelo seu apurado sentido de humor e pela sua língua afiada que não poupa na articulação de críticas carregadas de ironia e sarcasmo, coube a Berna, mais precisamente aos Pro’Seeds, dos quais fazem também parte Serial e Score, a missão de inaugurar as actuações do último dia do Festival Iminente, presença esta que, segundo palavras do vocalista, vale por todos os festivais onde não estiveram este verão – isto depois de ter assegurado ao microfone que se sentia orgulhoso em não viver somente da música e, por isso mesmo, não precisar de se prostituir artisticamente.

Inseridos na já conhecida pista de carrinhos de choque transformada em palco (com o posto de venda de fichas a servir de cabine de DJ) e rodeados por uma quadrifonia que visa concentrar toda a sua energia mesmo no centro da plateia, os Pro’Seeds preencheram os requisitos do início de tarde de ontem, à boleia de temas como “Quim” e “O Boss” e – lá está – dos vários discursos de Berna ao microfone. Desta vez, nem a música vencedora do Festival da Canção escapou à investida. “Não acham que a canção do ‘Quim’ representava melhor Portugal na Eurovisão do que a do Salvador Sobral?”, questionou a dada altura do concerto, “acho que é um pouco chunga termos ido lá mostrar algo que não somos”, rematou. Deixemos a resposta para debates futuros.

 


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Atente-se na formação que acompanha Bruno Pernadas ao vivo: Afonso Cabral (guitarra acústica e percussão), Francisca Cortesão (coro e percussão), Margarida Campelo (coro, teclas e megafone), Nuno Lucas (baixo), João Correia (bateria), Jessica Pina (trompete), João Capinha (saxofone alto) e Raimundo Semedo (saxofone barítono). A família é numerosa e vai ao encontro da própria sonoridade da música servida: rica, variada e de tendência divergente. Por mais que tenha bases folk, acentuadas pela presença em palco de elementos de Julie & The Carjackers, You Can’t Win Charlie Brown ou até They’re Heading West (de recordar que Bruno Pernadas integra o colectivo Minta & The Brook Trout, que conta também com Francisca Cortesão e Margarida Campelo), o imaginário abrange igualmente estilos como o jazz, blues e funk. Foi nestes moldes que Pernadas, de guitarra à tiracolo e óculos escuros, deu vida a temas como “Valley in The Ocean”, “Problem Number 6” e “Première”, no palco principal do Festival Iminente, acompanhado por esta insigne banda e recorrendo a solos que nada mais fazem do que confirmar a sua destreza no instrumento eléctrico de seis cordas. Os aplausos ouvidos no final de cada tema provam exactamente isso. Belo concerto.

 


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Depois de fazer soar uma buzina ao bom estilo das mesmas que nos azucrinam a vidas nas imediações dos recintos feirais (ato que casa na perfeição com todo o entourage do espaço Pista) e de pronunciar ao microfone as palavras “sejam bem-vindos a Oeiras”, Rocky Marsiano iniciou as hostilidades com uma batida forte assente num ritmo de berimbau e fez-se prontamente acompanhar por um músico que se manteve irrepreensível nas congas e nos restantes instrumentos de percussão até ao final do concerto. Não houve capoeira nem qualquer outro tipo de arte marcial, mas as danças ensaiadas pela plateia não deixaram de honrar a arte criada no deck de Marsiano. Aliás, a avaliar pelos movimentos de anca e rabos no seio da plateia (um pedido feito pelo anfitrião logo no início do set), o espaço Pista necessitaria do dobro da sua actual lotação para conseguir albergar em condições o público que, sensivelmente a meio do espectáculo, elevou a densidade populacional deste dancefloor para números merecedores de estudo – isto tudo numa altura em que Rodrigo Amado e Bdjoy alternavam entre si intensos solos. Mais buzina menos buzina, mais luz menos luz, mais ou menos jeito para a dança, a verdade é que este foi, sem dúvida, o momento mais celebrado do dia. Se ainda havia dúvidas relativamente à omnipotência das batidas fortes em cama de ritmos africanos, elas desfizeram-se no preciso momento em que Rocky Marsiano disparou a primeira música. A aposta neste tipo de mistura torna-se cada vez mais emergente.

 


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Apesar de estar a precisar de um álbum novo com alguma urgência, para que as músicas de “Sereia Louca” não caiam em desgaste (é a própria a partilhar essa preocupação já perto do fim do concerto no Festival Iminente: “tenho que me enfiar num buraco qualquer de pijama só com alguém a passar-me comida por debaixo da porta”), Capicua guarda no seu paiol munições mais que suficientes para inflamar uma multidão, seja através do seu mais recente álbum, rodado de norte a sul do país, com direito a um bom conjunto de remisturas que injectaram uma certa frescura ao material existente, seja à boleia das mixtapes que lançou há uns bons anos atrás (como serve de exemplo “Lingerie”, retirada de Capicua goes Preemo). No concerto de ontem, secundada por D-One nos pratos, Virtus nos instrumentais, Vitor Ferreira na ilustração e M7 nos backvocals, a rapper portuense brindou o público com uma performance de elevada competência – como sempre nos acostumou -, recheada de energia e a também habitual mensagem (antes de “Liberdade”, falou da sua devoção por Sophia de Mello Breyner e Sérgio Godinho e evocou problemas actuais como a questão dos refugiados, o crescimento da extrema direita e, como não podia deixar de ser, os Estados Unidos de Trump). Do alinhamento fizeram ainda parte “Sereia Louca” (recebida por uma plateia de braços no ar), “Mão Pesada” (com imagem no ecrã a condizer), “Medo do Medo” (uma das melhores do acervo da rapper) e “Casa no Campo” (com direito a um êxodo urbano de excelência: “quero que estendam as vossas camas de rede e olhem para as estrelas”), entre outras.

 


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“Eu queria ouvir a ‘HUMBLE'”


As palavras proferidas por um elemento de um grupo de jovens na zona dos comes e bebes (repleta de roulotes e reboques destinadas ao comércio de fast food), minutos antes da subida de DJ Ride a palco, a quem coube a missão de encerrar o certame, foram correspondidas já na recta final do set do artista das Caldas da Rainha. Depois de um início carregado de graves redondos, pratos de choque cortantes e sintetizadores robustos, polvilhados aqui e ali com samples de hip hop (foi possível ouvir a voz de Kanye West de “Wolves” e a de Nas de “Made You Look”), eis que o single de apresentação do mais recente álbum de Kendrick Lamar decide pular dos altifalantes em direcção aos nossos ouvidos. A festa instalou-se na plateia, com toda a gente a cantar a letra da música – já antes, a remistura para o tema “Verdes Anos” de Carlos Paredes, que já valeu aos Beatbombers incalculáveis vénias, despoletara algumas reacções efusivas na plateia (“Puristas”, tema do mais recente álbum de Ride e Stereossauro, que conta com a participação de Slow J, seguiu-lhe as mesmas pisadas).

Porém, o grande momento estaria guardado para o fim, altura em que o espectáculo fez jus à proposta apresentada no cartaz (qualquer coisa como DJ Ride + Vhils). De súbito, as luzes apagaram-se e fixaram-se num grupo de bailarinos no centro do palco. O scratch e as batidas, que até então desempenhavam um papel importantíssimo no show, deram lugar a um poema na voz de Chullage, que se debruçou sobre a sociedade das redes sociais, a valorização do “eu” nos tempos que correm, o processo de implosão da cidade de Lisboa e, claro, temáticas como o racismo, a discriminação e, algures pelo meio, Trump. Ao mesmo tempo que a voz gravada do rapper da Arrentela se fez ouvir no sistema de som, com um flow notável e um domínio de palavra singular, o grupo de bailarinos tratou de acompanhar o texto com movimentos síncronos, alusivos à matéria, quase como se se tratasse, na verdade, da sua tradução visual.

O espectáculo de dança e palavra falada prolongou-se durante largos minutos, roubando a atenção de tudo e todos, sem margem para um pestanejo que seja e, deixando, no final e em loop, uma pergunta pertinente: “és central ou periférico?”. Não há ninguém nesta plateia que não tenha ido para casa a pensar nisto, apostamos o nosso rim esquerdo. E se tal aconteceu realmente, é porque este momento (*) alcançou o efeito desejado.

Chegou assim ao fim mais uma edição do Festival Iminente. Até para o ano.

 


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(*) “Periférico”, a primeira criação de palco de Alexandre Farto (Vhils), que conta com a participação de Chullage, DJ Ride e um conjunto de bailarinos

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