Festival FORTE – Dia 3: 24 Hour Party People

[TEXTO] Diogo Pereira [FOTO] Direitos Reservados

A terceira e última noite (e dia) do FORTE contou com vinte e quatro horas de puro techno para uma multidão de ravers sedentos de festa.

Esta ocasião marcou não apenas a despedida do festival como a comemoração de outra importante efeméride: os vinte anos da editora Hospital Productions, fundada por Dominick Fernow em 1997, famosa pelos seus lançamentos de noise, drone e techno, com muitos dos seus artistas a sagrarem o palco do FORTE esta noite, incluindo o próprio fundador, que actuou sob o pseudónimo de Vatican Shadow.

Depois de um aquecimento em tudo semelhante aos dias anteriores, pelas mãos de Amulador, à frente de visuais estilo Noite Estrelada de Van Gogh, veio a violência de In Aeternam Vale, com umas das batidas mais potentes da noite. Foi preciso afastar-me do palco para as aguentar. Atrás de si, uma espécie de veludo vermelho às riscas flutuava hipnoticamente, bem como a mira de uma arma de longo alcance. Set curto, mas ainda teve tempo de abrandar a batida num momento irresistível de sensualidade downtempo à Mr.Oizo. Foi também dos poucos que dançou durante o set, pegando no seu iPad e andando em círculos às voltas do seu deck.

No entanto, embora o início da noite tenha sido em tudo semelhante às anteriores, ainda havia algumas surpresas para vir.

 


Becka Diamond setted up the pace for the Hospital Productions takeover #festivalforte2017 #lights #visuals

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Como Becka Diamond, que veio substituir Traversable Wormhole, agradável surpresa feminina de cabelos louros que cantou versos sensuais em cima de batidas techno hardcore. “Tendencia, tendenciaaaaaa”, gritou no ar frio da noite, aquecendo-a com a sua voluptuosidade e um toque de synth pop à anos 80.

Tomou de seguida os decks para um set de batidas robóticas temperadas com ocasionais samples vocais, acompanhadas de poliedros projectados, strobes e luzes brancas a disparar aleatoriamente no céu como tentáculos de um polvo demente.

Pausa para visitar a instalação do generative garden no Paço das Infantas, uma colagem-vídeo abstracta e estilizada de texturas florais e minerais sonorizada por field recordings da Natureza e suaves ondas de drone. Um agradável intervalo.

Seguiu-se Phase Fatale com um set simultaneamente hipnótico e dançável, cuja intensidade contrastou com a sua presença tão discreta a controlar os decks. Um set que atravessou várias fases desde uma mais minimal e esquelética sem batida, até beats que a certa altura me fizeram lembrar o trabalho de Biosphere enquanto Bleep, e outra onde mostrou um lado mais melódico, com momentos que evocavam o lado mais vocal da electrónica, como Ladytron ou Underworld.

Importa também mencionar um truque visual interessante projetado atrás de si: uma versão digital animada e duplicada de si mesmo que imitava os seus gestos enquanto a música tocava.

 


Vatican Shadow, before the storm of his live #festivalforte2017 #hospitalproductions #lights

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Tempo agora de ouvir e ver Vatican Shadow, que começou por entrar em palco em silêncio apontando uma lanterna ao público. Depois lançou os baixos mais potentes e frequências mais baixas da noite, daquelas que se ouvem em casa ainda a tinir nos ouvidos, dez horas depois, e que nos impedem de adormecer. Um set violento que fez jus ao som sinistro, industrial e apocalíptico da sua discografia sob este alias.

Físico, expressivo e temperamental, Dominick Fernow esteve em constante comunicação com o público, saindo frequentemente de trás dos decks para nos apontar a sua lanterna, simular ataques apopléticos e golpes de pugilismo, exortando-nos à violência e à agitação. Quem já viu Yves Tumor ao vivo percebe.

Depois de um set de Shifted que menos acrescentou novidade (nada que já não tivéssemos ouvido), veio a batucada de Ninos du Brasil. Uma batida techno clássica serviu de fundo ao dueto de percussionistas enquanto batiam furiosamente em bongós, tambores, pratos e até um chocalho, improvisando ritmos tropicais.

Atrás, um caleidoscópio de frames soltos de documentários e filmes brasileiros antigos iam passando vertiginosamente, com efeitos potencialmente subliminares (ainda me lembro do cabeçalho de jornal sobre o “Esquadrão da Morte”).

Talvez não tão teatrais e mainstream como Safri Duo, mas não menos carismáticos, com grande presença em palco.

Ron Morelli recebeu a alvorada com o seu space techno feito de bleeps, bloops, barulhos e efeitos de sci-fi, bem como um loop bem insistente de “Portugal”, dito por quem parecia um comentador de futebol (e talvez o fosse mesmo).

Desta vez, a manhã veio nublada, com alguma chuva, sem o sol a nascer por entre as ameias como no primeiro dia, mas isso não dispersou ou desmotivou a multidão, que continuou a dançar como se não houvesse amanhã (ou melhor, como se a festa fosse durar para sempre), sacudindo as pernas, abanando o pescoço e de braços no ar marcando o compasso da batida.

Foi também de manhã, para quem esteve atento, que foi possível observar a presença carismática de João Botelho, dançando numa espécie de ritual xamanístico que desafia qualquer descrição. De cigarro na mão, desenhava círculos no ar como um maestro insano da sua orquestra, punha as mãos na anca, sacudia-as no ar e levava os braços aos céus num diálogo muito privado com o seu próprio Deus. Talvez todos nós devêssemos dançar assim.

O dia ainda continuou até às 9 da noite, com sets de Ellen Aileen, Michael Mayer e Adriana Lopez, entre outros, para saciar os apetites dos mais incansáveis ravers.

O FORTE é um dos melhores festivais de electrónica do país, com uma programação ímpar, que decerto agradou a todos os que gostam da repetição e do ritmo como ingredientes indispensáveis na música que ouvem.

Houve espaço para dançar e respirar, ar puro, um cenário de sonho, visuais inebriantes, e o melhor do techno mundial. Já para não falar de um nascer do sol lindíssimo. Que mais pode querer um festivaleiro? Para o ano haverá mais, certamente. Até lá, como nos diz o título de uma conhecida canção de house dos anos 90, push the feeling on.

 


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