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Texto: ReB Team
Fotografia: Direitos Reservados

No conforto do lar com Selma Uamusse, Best Youth, Ana Moura e Xinobi.

Festival Eu Fico em Casa – Dia 6: uma estranha (e nova) forma de vida

Texto: ReB Team
Fotografia: Direitos Reservados
À frente da câmara, a linguagem do corpo muda. Já não é magia, nem sequer fascínio; não chega ao desconforto, mas a lente não é um comparsa natural. Se a televisão é mau habitat para o músico, o que dizer do ecrã de telemóvel? É preciso adaptar-se — lição que tem estado na ponta da língua dos heróis do Festival Eu Fico em Casa. Venham do campeonato dos Coliseus ou do substrato da ZDB, todos os artistas acabam nivelados pelo novo modo de jogo. Têm que reaprender a arte de dar um concerto, encontrar o à-vontade sem a recompensa das palmas. A transmissão de Selma Uamusse é um bom exemplo: timoneira de um dos espectáculos mais físicos em Portugal, como se iria adaptar? “Faz-me muita confusão actuar sem os meus meninos”, confidencia na sua versão do pequeno monólogo que tem prefaciado cada actuação neste festival. Há sempre nervos, inquietação. Também Uamusse lamenta o surto epidémico e estende as suas orações, mas delimita um destinatário especial. “Até estou com a voz embargada: recebi a triste notícia de que foi confirmado o primeiro caso de coronavírus em Moçambique.” Na sua música, cantada em português e inglês tanto quanto em changana e chope, a terra natal é uma interface com o seu íntimo. “Mozambique”, a instância mais óbvia do álbum Mati, não integra o alinhamento desta vez — seria difícil imaginá-la sem a percussão inquieta de Natalien Melo, ou a dança torrencial de Uamusse. No seu lugar, vêm “Song of Africa” e a reflexão de “Khanimambo”, extraídas do seu próximo álbum, Liwoningo (cujo lançamento iminente está agora em causa). “Pego na enxada/ Caminho na estrada/ Corpo abusado/ Homem sem retrato/ Sigo a missiva, porque tudo é khanimambo”, reza o seu “cantar de agradecimento” para o seu primeiro país. O mesmo tom persegue a balada que dedica à comunidade musical em apuros: cada “Hope” que sai da sua boca, lança-o sobre o público; as suas lágrimas a escapar, com as palmas voltadas para o público. Bate-as e convida-nos a imitá-la, depois, para amplificar o ritmo da cristalina “Mati”. Da meditação ao arrebatamento: “Não estava a aguentar ficar sentada”, justifica após a eléctrica “Ngono Utane Vuna Kudima” — versão de Eduardo Durão que, ecoando ainda como hino não-oficial do festival Bons Sons em 2018, tornaria o registo fixo uma anomalia. De pé, incontida, Uamusse enverga uma “surpresa” para a sua mãe: algo que parece uma saia de palha, “com que se dança em Moçambique. Eu não sei o que é que vai acontecer aqui, mas espero que corra bem.” Tem sido esse o mote. A insegurança inicial é afogada pela expansividade, a câmara torna-se uma segunda pele. O cenário é outro alvo de melhoramento ao longo dos dias: Uamusse junta o cintilar de luzes a um tecido de losangos sobre um fundo vermelho. O seu marido, Toni Fortuna, junta-se em “Monica” no teclado, para um olhar oportuno sobre a morte. Acaba por ressoar com a mesma esperança da penúltima canção, sem ser um original seu, não tem tempo: “I Can See Clearly Now”, cortesia de Jimmy Cliff. As melhores vozes ajudam sempre a cortar a neblina.

– Pedro João Santos


Situações inesperadas requerem medidas inesperadas e, não raramente, surgem das gambiarras que a vida nos obriga a construir as soluções mais criativas! O desafio? Como dar um concerto ao vivo quando actuas em dupla e o isolamento social a que uma pandemia obriga te afasta da tua cara-metade musical? Best Youth, duo composto por Ed Rocha e Catarina Salinas, não só o resolveram como acabaram por ser os protagonistas de um dos momentos mais inusitados e divertidos deste Festival Eu Fico em Casa. Na sua sala de estar, e em directo para uma “plateia” que atingiu os 2500 espectadores, Catarina apresentou-se “sozinha” enquanto no monitor atrás de si Ed Rocha tocava os instrumentais, em diferido e gravado no dia anterior! Quase 10 anos de estrada em conjunto ajudam a explicar, e muito, o entrosamento entre os dois, mesmo quando mediados por um ecrã e 24 horas de distância. Como se costuma dizer, há coisas que não são “para quem quer, mas para quem pode”! Divertidos, Catarina e Ed interagiam como se estivessem no mesmo espaço e, nos comentários, o público fazia questão de aprovar a experiência interactiva.  “Red Diamond”, “Midnight Rain”, “Hang Out”, “Don’t Worry Baby”, a cover dos Beach Boys que a dupla trouxe para alimentar a esperança nos dias que correm, e “Mirrorball” (neste momento, já a pequena sala se havia transformado numa private disco com recurso a uma multicolorida bola de luzes) compuseram o alinhamento da dupla portuense. Sincronia, criatividade e competência, acima de tudo, fizeram deste um divertido momento de alívio para quem estava do lado de cá, mortinho para que a festa se estendesse noite fora!

– Núria R. Pinto


Com enorme pontualidade, como de resto tem sido comum nos concertos do festival #EuFicoEmCasa, Ana Moura conecta-se ao Instagram e inicia a sua transmissão em directo para os milhares de pessoas que por si esperam religiosamente. Traz um sorriso estampado na cara, uma fatiota branca com umas franjas à Elvis Presley e uma recortada aura angelical. Não demora a informar que está em sua casa a realizar uma quarentena com a afilhada e uns amigos, os quais a ajudaram a preparar o setup para a noite e servem também de roadies, instrumentistas e entusiástica plateia — esta última manifesta-se de duas formas: primeiro, com aplausos reais, reverberados no que aparenta ser uma ampla sala de estar; segundo, com a reprodução de um áudio com palmas gravadas, simulando aquelas que certamente ecoariam se Ana Moura estivesse perante um recheado Coliseu dos Recreios. Começa com “Boa Noite Solidão”, da autoria de Jorge Fernando. De pés descalços, sentada num banco alto e de viola ao colo, Ana Moura serve um intenso fado que facilmente assume os contornos de banda sonora para todos aqueles que nestes complicados dias cumprem a quarentena longe dos seus restantes familiares, nomeadamente os idosos confinados como medida de precaução e todos os infectados submetidos ao isolamento por contaminação. Recebe aplausos no final da música, agradece e atira-se a um tema cantado num dialecto angolano, secundada por uma dikanza que lhe fora oferecida por Yuri da Cunha. De seguida, pede à sua afilhada para se juntar a si em palco e tocar, na guitarra eléctrica, os acordes de “I’d Rather Go Blind”, de Etta James. Já há muito que Ana Moura galgou as barreiras da faceta mais tradicional do fado, submetendo-se à inovação e às abordagens mais contemporâneas das quais o género foi alvo. Há quem diga até que já não é fado e isso não é obviamente mau: explica a capacidade que a artista portuguesa teve de contornar os cânones que jazem em conservadoras e por vezes poeirentas escrituras. “Vinte Vinte”, canção de Branko, na qual partilha protagonismo com Conan Osiris, exemplifica o seu carácter transfronteiriço. Interpreta-a com a energia de uma sofrida fadista mas a cama instrumental dá-lhe mais depressa um contexto de club do que de uma taberna típica da Mouraria. Seguem-se “Desfado”, altura em que a audiência atinge os 10 mil, “Fado Loucura”, cantada numa pujante e expressiva a cappella, e “Estranha Forma de Vida”, fado de Amália Rodrigues que trata de fechar o concerto. É estranha esta forma de vida que nos obriga a ficar em casa a ver os nossos artistas predilectos a actuarem pela pequena janelinha do smartphone, distanciados do cariz “palpável” dos espectáculos em discotecas, arenas ou estádios. É uma nova realidade à qual nos teremos que habituar nos próximos tempos, mesmo quando o mercado dos concertos regressar à normalidade e os aglomerados de gente à larga escala fizerem novamente parte do quotidiano da sociedade. A indústria musical não vai parar, apesar de ter colocado os motores a meio gás, e tenderá a procurar soluções para este novo paradigma e a moldar-se às actuais necessidades e exigências dos consumidores. A aposta nos eventos via streaming está ao virar da esquina, e nós estamos prestes a dobrá-la. É realmente uma estranha forma de vida, mas vai acabar por se entranhar na nossa realidade.

– Manuel Rodrigues


A after-party do Festival Eu Fico Em Casa ficou a cargo de Bruno Cardoso, o músico, produtor e DJ da Discotexas. Como tal, Xinobi decidiu apostar num formato de DJ set, tomando cada uma das nossas casas — tal como alguém frisou nos comentários do stream — como parte de um “Boiler Room de Quarentena”. E se o formato não nos parecesse já convincente o suficiente para considerarmos um Boiler Room caseiro, a própria música veio afirmá-lo com clareza. As guitarras estavam ao fundo, e por lá ficaram, no canto da sala de estar onde fechou o sexto e último dia do, podemos dizer agora, bem-sucedido evento digital. Concentrado na mesa de mistura, saudou-nos várias vezes com escritos com agradecimentos ao Festival e apelos à realização responsável da quarentena, sem nunca falar — tal e qual como se não o conseguíssemos ouvir por cima dos intensos decibéis num DJ set seu num qualquer espaço nocturno. Quando começámos a ouvir som a crescer dos graves, numa atmosfera misteriosa e com uma melodia aparentemente de médio oriente, eis que surgiu o típico batimento four-to-the-floor que apela ao movimento ritmado e festivo da dança. Esta ode à pista de dança na sua própria sala marcou a actuação de Xinobi — tal como na noite anterior acontecera com o seu parceiro de longa data, Moullinex — e fez-nos, também, reflectir sobre o actual e futuro estado da música orientada para este meio. Embora todo o sector seja afectado pela quarentena, a passagem da música electrónica de dança para os ecrãs dos telemóveis e computadores será uma das mais difíceis, não vivesse praticamente da interacção humana, do movimento, da vida nocturna — esta última muito referenciada ao longo do concerto pelos comentários, com exemplos mais cómicos como, “vou ao bar, não saiam daqui”, “alguém sabe se o kebab está aberto?”, “alguém me peça uma jola que ’tou cá à frente”, ou ainda “o que é que se bebe na VIP?”. Apesar de o ambiente visual e da pacata sala de Bruno a nada se assimilarem a qualquer espaço nocturno ou vida nocturna, a música é automaticamente associada a esse universo. Ainda assim, o produtor não necessitou de adaptar o seu set para esta apresentação e nada influenciou a qualidade da música que passou. Entre grooves, loops e linhas de baixo, se fechássemos os olhos, estaríamos realmente na sala de estar de Xinobi? Ou na nossa? Ou numa pista de dança? Será que a música tem lugar? Entre os melhores momentos do set estarão certamente a sua colaboração com Moullinex em “AZUL” (celebrada com muitos corações azuis a surgir no ecrã dos nossos telemóveis), o seu remix de “Part of the Noise” dos Best Youth, também com Moullinex, o remix da sua icónica “Far Away Place” por Rampa e, por fim, a batida sincopada por cima da abertura de Kid A dos Radiohead, “Everything In Its Right Place” — em crescimento contínuo, desaguando novamente num climático 4/4 marcado pelo bombo.Tal como numa qualquer after-party, Xinobi pôde e estendeu-se além do tempo inicialmente estipulado, chegando a tocar durante quase uma hora (até chegou ao ponto de começar a improvisar na actuação, indo vasculhar pela sua colecção de discos por um vinil para passar mais música).  Repetindo o que muitos fizeram ao longo do Festival, Bruno pediu (através dos seus papéis) para que se mantivessem em casa, e voltou a agradecer: “obrigado por estarem aqui comigo na minha sala”. A música de saída foi a adequada “Trem das Onze” de Adoniran Barbosa. “Não posso ficar nem mais um minuto com você…”

– Vasco Completo

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