Festival Eu Fico em Casa – Dia 5: estes palcos virtuais que nos unem são todos principais

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Ao quinto dia do festival começamos a detectar padrões. As filas à porta evitam-se: a entrada de milhares de pessoas é directa nestes recintos virtuais. As boas-vindas, com o músico a falar para esses milhares de ecrãs, trazem um intimismo impossível num concerto “ao vivo”. Valas escolheu o seu estúdio (aparentemente, tendo em conta a secretária a fazer de fundo com monitores e interface) e começou a actuar sentado, agarrando o microfone de forma apaixonada. A própria performance e a sua teatralidade são completamente diferentes aqui, onde os movimentos do artista, menos exagerados, aproximam-se mais do que faria numa experiência em casa do que em cima de um palco.

No final de “Terapia”, no meio do fluxo interminável de mensagens de amor, algumas avisam que se ouve mal a voz, misturada no beat e nos efeitos. Então o MC muda a posição do telemóvel, colocando-se a meros centímetros da câmara, sem microfone. Muda também de postura, tornando-se mais assertivo e com gestos que lhe são próximos, como os que mostra em “Kilimanjaro”.

“Raiz”, “Presente” e “Preciso” seguiram esta representação in your face. Ao mesmo tempo que nos sentimos mais próximos do rapper, enquanto seus espectadores num ambiente pessoal, parece que assistimos a um videoclipe. A somar a esta nova experiência de o ver ao vivo, Valas fez somente interrupções somente técnicas ou para agradecimentos.

Se do lado do MC os últimos apontamentos foram entre músicas, os do público foram incessantes do início ao fim. Quando introduz a última música, “Dragões & Demónios” a resposta foi ainda mais entusiástica. “Cuidem uns dos outros. Já perceberam o que se passa, vamos fazer com que isto seja rápido”, alerta, um padrão necessário das actuações do festival.

De volta à corrente interminável de mensagens de amor, uma chama-nos a atenção. Vários comentários referem-se ao Martelo. O músico confirma que é um amigo, assim como outras “pessoas especiais” que se mostram nos comentários e que vivem à distância. Valas actuou para amigos e desconhecidos num diálogo em tempo real. Esta comunhão só é possível com as potencialidades deste formato, o que o #ficaemcasa está, sem querer, a revelar.

– Gonçalo Tavares


Cálculo apareceu-nos num ecrã tripartido. Ele e o seu quarto ao centro, o gif de um camaleão em cima, o gif de um guaxini em baixo. Ambos estão a lavar as mãos. Mais à frente, o MC explica que servem para demonstrar “o melhor hábito que podemos ter neste momento, a par do distanciamento social”. Este festival pretende sensibilizar-nos para o surto presente, o que Cálculo fez nas pausas de uma prestação exemplar.

Vimo-la e ouvimo-la em “Hugo”, “Estrelas”, “Complicado”, praticamente em todas as músicas do set. Cálculo foi enérgico e divertido, puxando pela voz e dançando como o veríamos em condições “normais”. O seu delivery continua ágil, muito ágil, em “Não Páro”. Por outro lado, a transição para músicas mais nostálgicas foi também intuitiva. No primeiro verso de “A Zul”, com o beat sem elementos rítmicos, o músico barcelense não treme no meio de um flow ininterrupto, somente com as pausas certas e necessárias. 

Durante a actuação esteve acompanhado pela DJ Bruna, a quem lê os inúmeros “🔥” e mensagens de amor que enchiam a caixa de comentários. Uma parte destas pertenceram ao Boss AC, que fez questão de partilhar as “boas vibes” que Cálculo pediu ao longo de uma parte substancial da prestação.

“É com todo gosto que vos ofereço este concerto”, assim introduz a última música. A caixa de comentários continua a debitar feedback positivo, e comprova a sua pertinência enquanto substituta das palmas e sons da plateia. Ligando mais uma vez o seu irrepreensível modo performer, Cálculo canta “Caixinha” e despede-se. Deste lado, constatamos que o MC actuou como o faria num concerto “normal”, diferente de Valas por exemplo, que experimentou na execução. Neste novo formato, a postura dos músicos, que hoje vimos mais pessoal e mais técnica, está no início da sua exploração.

– Gonçalo Tavares


À guitarra, com as filhas por perto (sempre desejosas de aparecer, as crianças), o homem que criou os HMB apresentou-se ontem munido das canções do seu EP de estreia a solo que tem um título importante para quem já só pensa em ultrapassar isto: Amanhã. Seguríssimo na apresentação, Héber Marques teve ainda o cuidado de nos deixar uma mensagem positiva, não esqueceu a sua particular fé religiosa e espalhou o seu “Amor Perfeito”. Boas vibes daquelas que aquecem a alma e que também têm lugar numa era em que estamos todos a procurar algo maior.

– Rui Miguel Abreu


O Festival #EuFicoEmCasa foi também um teste à criatividade dos músicos envolvidos, obrigando-os a puxar pela imaginação na hora de construir e ornamentar os seus palcos caseiros, a milhas das grandes produções de festivais ou das salas de espectáculo onde normalmente se servem os concertos em nome próprio. Do mais simples cenário, como o de Boss AC e Capicua, ao mais elaborado a nível de equipamento e enfeite, como os exemplos de Branko e Legendary Tigerman, houve um pouco para todos os gostos e medidas. Os que fizeram questão de tocar um instrumento – ou vários – e aqueles que preferiram disparar as bases instrumentais do seu computador ou telemóvel. Os que não optaram por elementos decorativos e aqueles que olharam para esse pormenor como um ponto essencial da actuação. Moullinex apostou na iluminação. Longe das grandes estruturas de alumínio que normalmente suportam a luz robotizada e os focos pontuais para garantir o realce do que está a acontecer em palco, o músico português instalou em sua casa luminária aparentemente sensível às ondas sonoras, trocando de cor na cadência da batida e garantindo assim uma faceta policromática à prestação.

De camisa colorida a condizer, Moullinex seleccionou uma dinâmica lista de músicas com foco na pista de dança, transportando-nos por diversas vezes para o interior das quatro paredes de discotecas como o Lux Frágil, espaço que ontem também se rendeu às maravilhas do streaming e acolheu sets de Yen Sung e Dexter — houve muitas outras instituições a integrarem esta família electrónica, como servem de exemplo os eventos Stay Home Soundsystem, emitido em directo de Roterdão, e o Last Night a Streaming Saved My Life, que juntou vários DJs na cabine sob a tutela da Mr. Afterparty. Várias alternativas para abanar o esqueleto em casa, portanto. No caso de Moullinex, a discoteca digitalizou-se com sonoridades disco, funk e algum samba, sustentadas por uma batida maioritariamente house e com vários desvios tribais. Entre outras, ouviram-se “Ring My Bell”, de Anita Ward; “Bukom Mashie”, num edit de Jkriv; “Bielzinho / Bielzinho”, a levar a vibração para terras de Vera Cruz; “Nova Lisboa”, hino de Dino d’Santiago aqui embebido em batida house; “Love Love Love”, canção retirada do seu Hypersex; “Flora”, também ela pertencente ao seu repertório, e, a colocar o ponto final num set que teve direito a 30 minutos extra para além da baliza estipulada por defeito, com uma releitura de Chico Buarque da autoria de Xinobi. Uma boa dose de energia para ficar em casa.

– Manuel Rodrigues

ReB Team

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