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Texto: ReB Team
Fotografia: Direitos Reservados

No conforto do lar com Nelson Freitas, Agir, Capicua, Pedro Mafama e Stereossauro.

Festival Eu Fico em Casa – Dia 4: as pérolas que a ostra infeliz produziu

Texto: ReB Team
Fotografia: Direitos Reservados
Tomar banho num festival é debaixo do sol, de chinelos sobre paletes, pele arranhada pela água gelada. Purifica e é um gatilho para despertar, na ressaca (por vezes literal) do diabo a sete. Nesta quinta-feira, quando me submeti ao chuveiro, já era noite cerrada. Já Nelson Freitas ecoava do sistema de som, como quem diz: o meu telemóvel no parapeito da janela. “Manhã Cedo“ e “Break of Dawn” dão a clave certa para derreter; neste caso, interpretadas ao vivo pelo artista. Sem sistema de PA nem microfone, uma transmissão simples entre dispositivos: um a transmitir um directo no Instagram e outro a recebê-lo. A ginga nunca dependeu de infraestrutura. São os pequenos prazeres do Festival Eu Fico em Casa que suavizam a pandemia lá fora. Além do privilégio de chegar tarde, há a prerrogativa de voltar no tempo e repetir concertos: por exemplo, para verificar que Freitas não foi o primeiro a sentar-se à sua cadeira amarela. A honra ficou para os filhos: primeiro, o seu caçula, um hypeman em ponto pequeno com óculos de sol, a quem se juntou a irmã para cantar — e, mais tarde, para assistir o pai na tentativa de convidar Mayra Andrade para a chamada. Acabou por não resultar: “Nha Baby” aconteceu a solo depois da tórrida “Rebound Chick”. “We can have a lot of sex all over the place”, informa-nos no final da canção, “mas só em casa! Porque ‘tamos em quarentena”. Pano de fundo branco e bege para um mini-concerto alegre que foi, na verdade, um carrossel trilingue (português, inglês e crioulo) de êxitos — a maior parte em pequenos fragmentos, para aproveitar a duração (“Eu preparei vinte músicas!”). “Na Bo Mon”, com menos duma semana, vem entre outros puxa orgulhosamente do seu CD mais recente, o excelente Sempre Verão; a encerrar, “Bolo Ku Pudim”. A kizomba refinada de “Problema” e “Mariana”, equipada com refrões ultra pegajosos, dá esperança de voltarmos a poder sair, beber o sol que nos apetecer. “Nu sta na caminho”, promete Freitas. “Quer dizer, estou a caminho, mas não estou. Sabes porquê? Estou em quarentena!”

– Pedro João Santos


Coisa curiosa que se sentiu durante a actuação impecável de Agir: neste formato de “concertos” informais no Instagram os artistas precisam de algumas doses generosas de coragem por se exporem de forma tão directa, sem o amparo de bandas e de técnicos de som e de contextos que tanto disfarçam defeitos como amplificam qualidades. Viu-se isso por exemplo durante a actuação de Cristina Branco que acapella mostrou com quantas cordas vocais se prende a nossa atenção. O que Agir ontem fez foi igual: incapaz de falhar uma nota, o crooner urbano mostrou que quando recorre a auto-tune é mesmo por querer usar essa possibilidade que o moderno estúdio lhe oferece, não para mascarar o que quer que seja. Na performance de ontem surgiu seguro, perfeitamente consciente do alcance do seu principal instrumento e munido com as canções que o colocaram na posição de justo relevo que hoje ocupa. Pegou na guitarra, pediu para se apagar a luz, mostrou para onde vai o seu amor, e entregou-se de corpo e alma a êxitos como “Até ao Fim” ou “Respirar”, não se deixando atrapalhar pelo feed de comentários intenso que a sua prestação gerou (e chegaram a ser 16 mil, as almas ligadas a este portento pop). E ver Agir ali, do lado de lá do ecrã, faz-nos pensar: e quando é que este senhor terá novo álbum?

– Rui Miguel Abreu


Desde o primeiro dia que o Norte tem sido uma das regiões do território nacional mais afectadas pela COVID-19. Como tal, “Circunvalação”, um dos temas interpretados por Capicua na sua caseira actuação, soa a uma espécie de homenagem local. E mesmo que a letra seja uma resposta aos efeitos da gentrificação na cidade Invicta, existe aqui uma valiosa carta de amor selada com a frase “não me empurrem que o meu coração está entre o Douro e a Circunvalação”. A prova de veneração assenta assim que nem uma luva. O arranque do concerto acontece ao som de “Passiflora”, uma intensa declaração de intenções sobre instrumental de Stereossauro e rematada com refrão de Camané, servida com sublinhado vigor na declamação. “Eu hoje era para estar em Aveiro”, partilha momentos antes de se atirar ao primeiro verso da música, realçando a forma como o novo coronavírus interferiu com a sua agenda artística e, ao mesmo tempo, sublinhando a importância desta clausura domiciliária. Aproveita também para comparar o conceito do seu recentemente editado disco com a essência e missão do festival #EuFicoEmCasa, citando a inspiradora frase que dá título ao livro de Rubem Alves, Ostra Feliz Não Faz Pérola. Para que tal aconteça, nas palavras do autor, “a ostra precisa ter dentro de si um grão de areia que a faça sofrer. Sofrendo, a ostra diz para si mesma ‘preciso envolver essa areia pontuda que me machuca com uma esfera lisa que lhe tire as pontas’”. O festival também se ergue dessa ideia de criar algo de bom a partir de uma situação dolorosa, angustiante. Com várias medusas a servirem de pano de fundo, numa alusão ao universo marítimo que tanto aprecia e no qual se sente bem no sentido estrito e lato, Capicua centra a sua energia precisamente em Madrepérola. Cola os seus caquinhos em “Gaudí”, não sem antes explicar que vivemos numa era de “informação e desinformação” e que até nisso o mundo “nunca nos deixa sozinhos”, como forma de aclarar que há muita coisa a acontecer nesta gigantesca autoestrada da informação, e mergulha em “Parto Sem Dor”, canção que se inspira, como boa parte do disco, na experiência de ser mãe — os versos envolvem-se num belíssimo refrão repescado de um original de 1979 de Sérgio Godinho, uma das grandes inspirações da rapper portuense. “Temos que nos manter fortes, há que trabalhar na saúde mental”, incentiva Capicua depois de entregar uma efusiva “Madrepérola”, acrescentando “embora estar juntos, embora comunicar e fazer coisas positivas”. Não demora a fazer a sua parte na missão proposta e agradece aos profissionais de saúde que estão a salvar vidas por esse país fora. Para o final, uma acappella de “Mátria” e um desejo: “a ver se nos encontramos quando isto tudo acabar, ao vivo e a cores”.

– Manuel Rodrigues


O cenário era simples e como poderíamos imaginar. De manga cava branca, fio ao pescoço e calças de fato de treino da Adidas, Pedro Mafama apareceu em frente da câmara com uns azulejos bem portugueses e uma máquina de lavar roupa nas costas. Sem a habitual King Kami a lançar os beats, Mafama mostrou-se bem disposto e a interagir com o público que comentou durante todo o concerto. Arrancou com “Jazigo”, uma das suas mais notáveis canções, e munido de um microfone carregado de um auto-tune melódico, usou e abusou (e bem) da sua “gaita de foles humana”, transmitindo o seu espírito lisboeta e de fusão para os ecrãs de três mil pessoas (que, como é natural, se foram reduzindo para mil e muitos ao longo da actuação de meia hora). “Lacrau”, produzido por PEDRO, foi o segundo tema do alinhamento, e abriu portas para uma estreia (pelo menos tendo em conta aquilo que sabemos). Pedro Mafama interpretou pela primeira vez “ao vivo” “Terra Treme”, canção do álbum de estreia Da Linha, do mesmo PEDRO, que foi lançado precisamente nesta sexta-feira, 20 de Março. A canção tem uma mensagem preciosa que se aplica bem aos dias difíceis que hoje vivemos. “Se houver um terramoto o que é que importa/ Se eu vir que tu ’tás lá/ A terra treme, as ruas estão tortas, mas se tu ‘tiveres lá/ Eu vou ficar, eu vou ficar”. Num encadeamento perfeito, Pedro Mafama desvendou ainda uma nova canção, produzida pelo próprio, que muito provavelmente estará no longa-duração de estreia deste músico singular, que estava previsto para esta Primavera. Não sabemos o título, mas tem uma letra que repete bastante o verso “Não saio não”, o que é mais uma mensagem de que todos necessitamos, neste tempo de isolamento social por uma questão de saúde pública. Seja na Casa Independente, num auditório do Centro de Congressos do Estoril ou simplesmente na sua casa em frente à máquina de lavar, Pedro Mafama não desilude e tem o carisma e abrangência necessário para conquistar qualquer público. 2020 ainda promete ser um grande ano para ele.

– Ricardo Farinha


Não sabíamos bem o que esperar da actuação de Stereossauro, o grande responsável por encerrar a noite de sexta-feira no Festival Eu Fico Em Casa, porque podia ser algo mais baseado no seu último trabalho, Bairro da Ponte — talvez até num formato mais live — ou um DJ set mais convencional, mas nem por isso mais simples, dada a qualidade técnica deste DJ e produtor português. Acabou por ser algo mais inclinado para a segunda opção, embora Stereossauro tenha feito questão (e muito bem) de incluir vários temas do seu reportório pelo meio. Apenas com uma janela por trás — e as luzes da rua como cenário de fundo — os pratos de Stereossauro foram imponentes e preencheram os ecrãs de cerca quatro mil pessoas que o acompanharam ao longo de mais de meia hora (houve quase direito a um encore). Este veterano é um músico vantajosamente ecléctico e isso reflecte-se na hora de manusear os pratos de forma criativa, dinâmica, musical e ao mesmo tempo com muita técnica (com scratch pelo meio, claro).  Stereossauro é o homem que em meia hora consegue juntar Travis Scott e Led Zeppelin, James Brown e funk brasileiro (o funk vs funk), Zara G e Carlos do Carmo, Queen e Razat, embora a base de referências maior seja claramente o hip hop. Houve 50 Cent, Slow J, ProfJam, Carlão, Sam The Kid, NBC, TNT ou acappellas preciosas de Holly Hood, entre outros, num set que só se tornou mais enriquecedor com os momentos em que Stereossauro foi ao próprio catálogo. A sua versão de “Barco Negro”, o mais recente single “A Noite” e o já clássico “Verdes Anos” à moda dos Beatbombers foram alguns desses condimentos extra, que valeram vários aplausos online, enquanto foi fazendo sinais e cantando partes dos temas que estava a passar, embora tenha sido bem menos falador do que Pedro Mafama. Terminou com “Fight the Power”, dos Public Enemy, e uma mensagem adaptada para “Fight the Virus”, ao apelar às pessoas para ficarem em casa. Quando tudo isto tiver passado, esperemos que estes bons momentos digitais se repitam mais vezes e não deixem também de acontecer.

– Ricardo Farinha

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