Faixa-a-faixa: o novo álbum de Russa explicado pela própria

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTOS] Rafael Correia e Joana R. Gomes

Russa estreou-se na passada sexta-feira pela Kimahera. O álbum Catarse foi antecipado pelo ReB, que deu destaque à rapper sediada no Algarve aquando do lançamento dos singles “Entre Lisboa e Londres” e “Imperatriz”.

M.A.F. assina os instrumentais dos temas que anteciparam o lançamento do disco, ele que desempenhou um papel importante na injecção de confiança que Russa necessitou para dar os primeiros passos. Depois de dar de caras com as stories que a MC partilhava no seu Instagram de acapellas originais, o produtor estabeleceu o contacto com a autora e as batidas começaram a circular na nuvem digital, formando um esboço sónico daquele que viria a ser o disco de estreia de Russa. Antes de partir nesta grande aventura, a criação da mixtape TPC aprimorou a técnica de encaixe vocal nos instrumentais, tendo a TV Chelas de Sam The Kid como única fonte para as bases dos temas que viria a editar no YouTube.

Capicua foi a primeira militante do hip hop com créditos firmados em Portugal a dar o co-sign à cara nova da cultura, dando destaque a um dos vídeos da mixtape TPC na sua conta no Facebook. Também Holly acenou positivamente ao potencial que Russa demonstrava e ingressou no projecto ao contribuir com alguns beats para Catarse. Sickonce foi, provavelmente, o trunfo que faltava para iniciar a marcha rumo ao grande objectivo e, além de batidas, abriu as portas da Kimahera para que a rapper pusesse o seu plano em prática.

O primeiro projecto de originais aterrou nas plataformas digitais no dia 23 de Março e, se sentem que há alguma parte da mensagem nele implícita ainda por dissecar, Russa explica faixa-a-faixa cada um dos momentos de Catarse, “um álbum que está dividido em três fases”: “uma que descreve vários momentos de uma relação, outra que fala de problemas da sociedade actual e uma última que é mais auto-biográfica.”

 


[“Dragão-rapper”]

“Esta faixa foi feita de raiz para mim. Com um gravador portátil, captei sons do meu dia-a-dia que serviram depois de base para o Sickonce construir o instrumental. Além disso, apesar de não haver rima, o instrumental engloba palavras soltas que resumem um pouco do que é o álbum.

No tema número 10, tenho um verso que inclui a expressão ‘dragão-rapper’. Como a intro foi das últimas faixas a ser construída, ao ouvir o que já tinha, escolhi este termo quase como aka para ‘RUSSA’.”

 


[“Game Over, Girl”]

“Este é um dos dois temas em inglês. Simplesmente saiu assim. Provavelmente porque foi inspirado em acções que não ocorreram em Portugal ou que tinham alguma ligação directa a outros países.

O tema descreve a curiosidade no início da vida sexual. Nomeadamente, o confronto de expectativas versus realidade.”

 


[“Entre Lisboa e Londres”]

“Já foi apresentado anteriormente como a banda sonora de uma qualquer relação à distância.”

 


[“Sex & ex”]

“Este tema aborda a atracção física embora de uma perspectiva totalmente diferente da faixa número 2. Desta vez, ilustra-se a força da atracção física sobreposta ao ódio numa discussão.”

 


[“Save Me”]

“Fala de violência doméstica, mas poderia retratar qualquer outro crime ou erro cometido numa relação.”

 


[“Eu Só Segui Em Frente”]

“Fala de traição e abismo. No fundo, é o final da viagem pelo mundo das relações. É aqui que termina a primeira parte do álbum e poderia servir de banda sonora para muitas relações que chegam ao fim da linha. O alinhamento foi propositado para parecer uma viagem temporal numa relação amorosa.”

 


[“Bully”]

“Aqui começa a abordagem aos problemas da sociedade actual. Escolhi um beat trap que, para quem não percebe português, pode até pensar que é um banger. A ideia é mesmo essa. Que qualquer vítima oiça isto e se sinta ‘fixe’ em vez de se sentir coitadinho. Trap consciente. Além disso, para os fãs de punchlines, este é um tema rico nesse aspecto.”

 


[“Sufoco”]

“Representa a depressão. Outro grande problema que é frequentemente abordado no século XXI. Para mim, a masterpiece do CD. Espero que ajude muita gente a lidar com este monstro que sentem dentro de si.”

 


[“Se Eu Pudesse”]

“O tema tem como inspiração os traumas e medos consequentes. Não há muito a dizer sobre ele. Em jeito de storytelling conta 3 histórias diferentes que poderiam ter sido vividas por qualquer pessoa nesta sociedade, infelizmente (se fossem azarados o suficiente).”

 


[“Sigo Só Na Via”]

“A solidão. Este é o tema que fecha a segunda parte do álbum. Com a evolução da tecnologia, encurta-se a distância, mas muitas vezes criam-se isolamentos precoces. A solidão não se vive apenas no pós-reforma. Este é um problema de muitos jovens actualmente. Principalmente para quem muda de cidade com frequência. Destaco o wordplay da segunda parte como algo a ter em conta.”

 


[“Snitch”]

Spoken word banger. É difícil classificar este tema. O nome é ilustrativo por si só, mas para quem não percebeu, fala de quem se mete na vida dos outros e faz desse hobby o seu próprio oxigénio.”

 


[“Imperatriz”]

Single apresentado antes do álbum por inteiro. Representa a pobreza e a superação. O sonho e a limitação. A ambição acima de tudo.”

 


[“Rude e Fria”]

“Peguei nos dois adjectivos que oiço mais frequentemente para me caracterizar e fiz um som sobre isso. Este é simplesmente auto-biográfico com um beat irreverente à medida do tema.”

 


RUSSA

Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira