Faixa-a-faixa: o novo álbum de Nel’Assassin explicado pelo próprio

[TEXTO] Ricardo Farinha [FOTO] Direitos Reservados

Nel’Assassin não é um daqueles produtores metódicos e control freaks que faz uma lista dos nomes com que quer trabalhar e que, a partir daí, desenha um plano e começa a trabalhar. Não. O experiente DJ e produtor português que começou nos Micro tem mais aquela veia de artista livre, aquele que vive a vida e que é ela que o leva até à sua arte. Afinal, a arte imita a vida e a vida faz acontecer a arte.

É por isso que no novo álbum de Nel’Assassin, 4.0 — que acaba de ser lançado como edição de autor da Assassin Records — podemos encontrar convidados tão díspares como Piruka e Tom, Landim e Strata G, Nameless e Phoenix RDC, Harold e Khapo, entre vários outros. São todos rappers que, de uma forma ou de outra, se cruzaram com Nelson Duarte e criaram uma ligação.

Nel’Assassin tem mais de 20 anos de carreira e neste longo e prolífico percurso — basta olhar para o seu currículo — já actuou como DJ de gente como Allen Halloween, Piruka, GROGNation e Blasph & Beware Jack. O seu talento é transversal e é o seu toque de Midas no scratch o elemento mais audível que une todas as 13 faixas deste novo álbum, que não tem apenas beats produzidos por si.

Todos os cortes precisos de Nelson Duarte têm incorporadas rimas portuguesas e em breve vai ser divulgada a data e local do concerto de apresentação — onde Nel’Assassin quer juntar o máximo possível de convidados do projecto. Quem fizer a pré-reserva do CD tem acesso livre directo a esse espectáculo.

O Rimas e Batidas falou com Nel’Assassin sobre 4.0, que nos explicou faixa-a-faixa como é que este disco foi construído. O artista preferiu que a última, “Egotrípo”, falasse por si própria.


[“Realismo”]

“Esta intro realmente é uma cena especial. Não é que as dos outros álbuns não sejam. Mas tenho uma cena com intros, gosto mesmo de as trabalhar com voz. Esta intro tem uma história interessante, não sei se sabem quem é o Jorge Charrua, o artista plástico. Eu estava a trabalhar com ele numa peça para Niles Mavis e no meio do trabalho ele disse-me: ‘olha, também produzo. E tenho um aka‘. Eu: ‘a sério? Como é que é?’ ‘Ah, eu sou o Swing. Vou-te passar o meu Bandcamp e vais ouvir’. Resumindo e concluindo, cheguei a casa, meto play no álbum dele e começa a vir com cada beat. Crazy, crazy, crazy. Chego a um que se chamava ‘Sagacidade’ — comprei logo quatro faixas do álbum — e levou-me para voltar a fazer intros com rimas. As peças foram-se juntando e acho que o resultado final ficou do caraças. Nas minhas intros eu quero falar contigo. Quero que cantes os meus scratches como cantas um refrão.”


[“King Shit”] com Phoenix RDC

“O Phoenix é um MC que eu já seguia há uns bons tempos. E surpreendeu-me bastante em termos de evolução, entrega… acho que a entrega do Phoenix é provavelmente das melhores de sempre. E ele é incrível a escrever, mas a entrega é qualquer cena. Isso fez-me prestar mais atenção e ter interesse em colaborar com ele. Estava no processo de gravação do álbum e contactei o Phoenix e ele foi aberto: ‘respeito a tua cena, manda-me os beats que eu gravo nisso’. Foi daquelas situações à distância, eu nem trabalho muito assim. Costumo ir ao spot, estou com o people e sinto a vibe. Mas neste caso realmente não foi preciso. Tivemos mesmo uma conexão à distância. Identificámo-nos tanto que a distância não foi um problema. A cena saiu como se tivéssemos feito juntos no estúdio. Claro que depois estivemos juntos e trocámos ideias e ele é mesmo aquela pessoa que eu pensava que ele era. A faixa ficou um hardcore banger. E fico mesmo feliz porque uma das coisas de que curto mais é hardcore rap e quando consigo fazer uma cena que me enche as medidas fico mesmo concretizado. É mesmo a minha linha.”


[“Cidade Real”] com Ruas e Durty Gus

“Esta faixa foi criada de uma maneira espontânea, gosto que as coisas aconteçam assim. E um álbum para mim nunca demora um mês a fazer. Eu até o posso fazer, se me der na cabeça, mas acho que um álbum tem que ter um cuidado especial. O Ruas e o Durty Gus são meus brothers da zona de Carcavelos. Nós não costumamos sair à noite, muito menos os três juntos, é sempre com a clique toda. Mas nesse dia fomos sair, bebemos uns copos no Bairro Alto, tínhamos falado já há bué tempo de fazer uma cena. Queria a participação deles e estávamos no carro a chillar e a beber, já eram umas três da manhã e obviamente estávamos a falar de rap, rap vem sempre à conversa. E bebes uns copos e não estás propriamente a pensar na tua vida profissional, estás a curtir, mas lembrei-me de três ou quatro beats que tinha feito. ‘Vou meter aqui play‘. Meto play neste beat, o beat entra, o Durty Gus diz: ‘tenho aqui uma cena a falar da noite de Lisboa’. Eu: ‘a sério? Uau, cospe’. O gajo começou a rimar esta letra e eu e o Ruas: ‘wow, crazy, crazy‘. E o Durty: ‘não sei, não sei’. Mas a gente diz: ‘sabes, sabes, é isso mesmo’. E o Ruas: ‘espera aí, eu também tenho uma cena de Lisboa, por acaso estava a fazer um tema assim também. Vou cuspir’. Cuspiu esta rima. Ainda fui ter com o Ruas, passei-lhe o beat e ele fez uma co-produção. Depois fui para o estúdio e meti alguns músicos a tocar: baixo e bateria. Os drums que estão mais à frente são mesmo de máquina, mas depois no estúdio levou aquele cuidado à Dr. Dre [risos].”


[“Nova Matemática”] com LLtheSavage

“Estamos na estrada, muito bem, a chillar com a equipa toda. O Khapo estava a mostrar beats: ‘Tens aí beats, Nelson? Mostra aí’. Este beat entrou logo e o Savage disse: ‘este é meu’. Eu: ‘a sério, tens a certeza?’ Porque já tínhamos falado numa participação. Puxei-os quase todos para o CD, agora a próxima versão há de vir com mais. ‘Vê lá, não vais voltar atrás e dizer que já não estás a sentir o beat‘, que é uma dica que os MCs gostam de dizer. Mas o Savage soube o que quis. E ele também cuspiu logo na altura as bars. Foi bué espontâneo, mais uma vez. Um gajo fica feliz por causa disso. Passei-lhe o beat, combinei com o Khapo uma gravação, juntámo-nos todos no estúdio e gravámos a cena rapidamente. Uma das melhores faixas, instant classic.”


[“Don’giva”] com Brain

“Esta faixa deve ter uns seis ou sete anos, é a mais antiga. Era de um projecto que eu estava a fazer com o Brain e acabou por não ir para a frente. Não chegou a acontecer mas quero que aconteça. Na altura nem eu nem ele tínhamos o melhor material para gravar. Eu acabei por guardar algumas coisas e outras perdemos em discos rígidos. Mas esta foi das primeiras e estava tudo a funcionar na altura. Carcavelos e Amadora já está na praça.”


[“Açaime”] com Harold

“Conheço o Harold há uns cinco anos. Ouvi a ‘Dropa Fogo’ dos GROGNation e fiquei logo impressionado, comecei a seguir a cena. Até cheguei a ser DJ deles em dois concertos. Começámos a dar-nos melhor através do X-Acto. Com os concertos solidificamos logo a relação. Entretanto fomos falando, eu participei no álbum do Harold com um refrão de cuts, na faixa com o Blasph. E agora chamei-o para o meu, é uma troca de serviços, basicamente. Na, estou a brincar [risos]. Foi bué espontâneo, este beat estava aí na gaveta há uns aninhos. Mostrei-lhe, o processo normal, só recebi a mensagem de volta: ‘adorei’, com o nome do beat. E eu: ‘wow, nice’. Também fiquei fã da entrega do Harold e identifico-me com a sonoridade dos GROGNation. O produto final deles é mesmo incrível. Mandei-lhe o beat e ele gostou logo à primeira. Escreveu bué rapido, acho que foi uma semana, fui ter com ele e os boys têm o próprio estúdio. Ficámos a chillar no spot deles e ele cuspiu-me ali a rima, eu já tinha confiança no trabalho dele. Eu sei bem o que quero, nunca vou às escuras. Já sei o que quero da pessoa.”


[“Fenómeno”] com Piruka e Khapo

“As coisas não foram forçadas, foi tudo espontâneo e por isso é que as cenas fluem bem. Eu também só agarro nas coisas quando faz sentido. Esta faixa constrói-se também na estrada, eu disse aos rapazes que nos íamos juntar no álbum, tinha dito ao Piruka para fazermos uma faixa para o disco mas estávamos constantemente na estrada e há muito trabalho. Então estava no estúdio com o Khapote já a mixar o álbum e ele disse mesmo: ‘tenho aí uma acapella do Piruka, que era um som que ele tinha’. E eu: ‘a sério?’ Curto bué essas dicas de remixar os sons e fazer mashups e trocar as cenas. Ligámos ao Piruka: ‘ya na boa, utiliza aí a acapella’, fizemos uma cena, mostrámos ao André, ele não sentiu porque estava muito linear à cena que já tinha sido feita e queríamos dar um twist. Disse ao Khapote para ele fazer uma versão dele, eu fiz a minha, juntámo-nos outra vez no estúdio, entretanto ele surgiu com este beat do inferno e eu disse: ‘porra, é esta a versão’. Passou por uns quatro beats até chegar a esta. Eu não sou um gajo esquisito que o meu álbum tem que ter só beats meus. Não, eu não tenho isso. Se eu puder divulgar artistas bons, com skill… e esta faixa levou bué produção executiva minha, os cuts, tem a assinatura do Nel’Assassin, porque também não posso ter uma faixa só com um beat de outra pessoa… tem de ter a minha visão e produção executiva. E o Piruka também não aceita qualquer coisa, é como eu e o Khapote. Juntam-se três gajos exigentes e o som não vai sair à primeira. Mas acabou por sair um banger. Se não nos tivéssemos mexido, se calhar a faixa ficava na gaveta. E há coisas que têm de estar cá fora.


[“Cobras Aparecem”] com Tom

“Já sigo o Tom há uns tempos e curti logo da entrada dele no game, com o Guarda-Factos. Conhecemo-nos primeiro como pessoas e depois é que fomos para a música. Por acaso estávamos no backstage da festa do Jazzy Jeff e ele disse: ‘então, vamos gravar a faixa, como é que é?’ Porque já tínhamos falado disso. Na terça-feira seguinte fui ao outro lado do rio, a Almada, à casa dele. Conheci a velhota dele, a avó, altamente, ficámos no quarto dele a chillar, onde ele faz aqueles lives de beats. Comecei a dropar uns beats, o gajo sentiu um, tentámos fazer uma cena mas não funcionou. Bebemos um cafézinho mesmo forte, continuámos no processo, a ver cenas, a rir bué, e eu estou a fazer um zapping de beats, faço play neste e o gajo: ‘epá!’ E eu: ‘sentiste?’ E ele disse para eu deixar a rodar. O Tom começa a cuspir esta rima, one take, sem respirar quase. E já sabia que era aquilo. Na hora improvisámos com um mic pequenino, uma cena mega caseira, só para ter uma demo, e depois voltei com material melhor e gravámos no guarda-fatos do Tom, mesmo no guarda-fatos dele [risos].”


[“Medo Acabou!”] com Strata G

“Criámos uma amizade virtual fixe, o Strata é um miúdo com boa vibe e basicamente estávamos na ideia de fazer uma faixa há bué. E a colaboração surgiu de eu lhe ter mandado três beats, foi mesmo à distância porque ele está a viver fora do país. Ele sentiu logo um dos beats, que se chamava Pablo ou Narco ou algo assim. Ele foi rápido a gravar e eu senti bué a letra, é conteúdo sério.”


[“Homicídio”] com Khapo

“Foi um processo bué nice, ele é muito pro a fazer as cenas, mixou o álbum todo, tem um método de trabalho muito bom. Este beat é dele e é um dos beats dele de que ele curte mais. Lembro-me que ele dropou este beat na carrinha, na estrada, e foi um crazy beat. Depois no processo da mix disse para ele me passar material, ‘tens que entrar no CD’, andei a chateá-lo, ele deu-me acapellas, ad-libs, bué cenas. E ele fez este beat há bué e provavelmente ninguém escolheu. Às vezes é preciso ter mais visão. Trouxe o beat para casa. Quando a inspiração bate à porta, agarras o material e fazes isto. Saiu uma grande faixa, fiquei mesmo feliz porque é uma cena West Coast G Funk boom bap shit. Foi um juntar de ideias e de vivências na vida real.”


[“Perto Nhôs”] com Landim

“O Landim é praticamente meu familiar afastado, porque ele é primo de um primo meu. Ele é que me disse, eu não sabia. Fiz uma vez um DJ set num concerto do Halloween e estava lá o Landim, que me disse isso. Mas esta faixa foi special. Nunca se diz se é melhor ou pior, isso é relativo. Mas o facto de ele também seguir a minha cena há muito tempo e sermos cabo-verdianos… não é uma cena que premedito, mas acontece sempre eu ter pessoal a rimar em crioulo, tenho também muita influência dos Nigga Poison. Mandei os beats ao Landim, ele disse: ‘Assassin, queres que eu cuspa já neste?’ Mandei-lhe outro para ele ter poder de escolha, ele mandou-me uma dica tipo ‘yeaaah’ em relação ao segundo beat, mas depois combinámos uma sessão. Gravámos no estúdio do Camboja num spot ao pé de Santa Apolónia, uma sala isolada. Nesse dia precisava de uma coisa mais confortável. Encontrámo-nos, fomos para o spot, estávamos lá a sentir, montámos o setup e testámos a acústica. Ele tinha a letra e lembro-me de ele dizer: ‘qual é o beat? é este?’ Porque eu pensei que ele já sabia porque eu tinha-lhe mandado. Ele estava mesmo a entrar de cabeça, tipo ‘confio em ti’. E depois aquele espaço tinha assim um mato bué fixe, gravámos num palácio antigo, tinha uma vibe especial, estava um sol do caraças, fomos lá para fora apanhar aquele fresh air no mato. Voltámos passado uma hora e foi ao segundo take, praticamente.”


[“Cuspo Sujo”] com Nameless

“Eu já conhecia o Nameless de battles e vi uma batalha dele que curti bué, achei-o bué original e com skill, por acaso fixei-o. E contactámo-nos através da net, nessa altura eu estava a viver ao pé de Santa Apolónia e estava a morar com uma pessoa que por acaso até tinha um estúdio. Então combinei com o Nameless, ele levou um vinhozinho e foi uma session muito forte.”


Ricardo Farinha

Ricardo Farinha

Jornalista. Colabora desde os 18 anos com várias publicações culturais — as rimas e batidas sempre foram inerentes à vida.
Ricardo Farinha