Faixa-a-faixa: o álbum de estreia de GriLocks explicado pelo próprio

[TEXTO] João Grilo (GriLocks) [FOTO] Cristovão Peças

O Nimbus é um álbum introspectivo em que dizimo o meu ego para ouvir o meu eco e assumo uma forma diferente de estar na vida, menos ingénua e mais confiante.

Com vários ambientes, uns mais agitados outros mais românticos, com várias cores e sensações, viajo a vários desassossegos do meu âmago, que penso serem abrangentes a todos nós, de formas e perspectivas distintas.

São 13 temas inteiramente produzidos pelo Khapo (que também rima), com as colaborações de Napoleão Mira, DJ Nel’Assassin, Lila, Bibi Ross e SØS. Com algumas coisas exageradas ou dramatizadas e dentro de uma certa personagem, esta é a minha visão do álbum e, mesmo que não seja a vossa, só quero que se divirtam a ouvi-lo como eu me diverti a criá-lo.



[“Mais Do Que Pele”] com Napoleão Mira

Arrisco-me a dizer que muitas destas fases turbulentas e tempestades interiores começam a partir de relacionamentos, talvez porque quando olhamos para o amor que damos ao outro, pomos em contraste o nosso amor próprio, e questionamo-nos sobre diversas coisas ou pessoas à nossa volta (daí todos os outros temas do álbum). Não sei se é perceptível, mas quis deixar em aberto, tanto na música como no vídeo, se o casal fica junto no fim. O próprio ambiente da música passa por várias fases. Mas o fim desta canção e a próxima mostram o quanto ainda há vontade, pelo menos de uma das partes, de beber mais um copo. Conta com a fantástica voz de Napoleão Mira e com palavras escritas pelo mesmo.


[“Bebe Mais Um Copo”] com Lila

É uma metáfora do género, “fica para sempre”. Apesar de todos os contratempos e desavenças, no fim do dia quero continuar a beber mais um copo com ela, ou com ele, cada um que se identifique com o tema dentro da sua realidade. Tento fazê-la lembrar do lado cúmplice e íntimo da relação, quase recriando um primeiro encontro. Sabendo que falo com uma mulher madura com atitude e classe, sem qualquer crítica aos traços que os olhos vêem, tento só que partilhemos uma vida juntos.


[“DOR”]

Apesar dessa imagem positiva na cabeça em “Bebe Mais Um Copo”, a dor causada pela relação em “Mais Do Que Pele” faz-me questionar várias coisas que a causam, trazendo a certeza de quem sou, quem está comigo e para onde devo ir. Com a humildade de saber que todos temos uma dor e que a vida torna-nos “assim”, por isso não devemos julgar o outro pela forma de ser ou pensar, porque por vezes a dor e o medo fazem de nós pessoas que não somos.


[“NIMBUS”] com DJ Nel’Assassin

É talvez o tema mais descontextualizado do álbum, mas não queria deixar de ter um boom bap clássico com umas “dicas” afiadas. Com algumas carapuças para quem servir, ou simplesmente por diversão, mas sempre desafiando verdades incómodas. O tema conta com os cuts do honroso DJ Nel’Assassin.


[“Ira”]

Continuando a viagem do Nimbus, o tema “Ira” é como o outro lado da moeda de “Dor”. Se por um lado temos de ter a coragem de pôr a culpa só em nós e não criar argumentos contra os outros, no início é normal que a frustração nos leve a ser portadores de alguma ira. Precisamos de nos limpar da mesma, para podermos ver as coisas de uma forma mais clara e imparcial.


[“Nunca Acreditaste”] com Khapo & Lila

Aborda a perspectiva enquanto artista neste processo desde o primeiro tema. Porque toda esta dor e dúvida trouxe, por consequência, uma desmotivação e um problema de auto-confiança. Talvez porque o outro lado nunca acreditou, porque não é fácil compreender a visão e a alma de um artista, e todo o tempo investido aleatoriamente em diversos campos. Ou simplesmente porque não aceita a disfuncionalidade de horários necessária para um objectivo. É um tema não só dirigido ao outro lado de uma relação com um artista, mas também aos amigos e família que muitas vezes são os que mais duvidam que consegues, e não entendem que existe um processo e um “quase” até veres os frutos do teu trabalho. É nessa fase que o apoio é crucial, e por vezes não existe. Com umas breves rimas de Khapo e a voz de Lila no refrão.


[“Eco”]

A fase da mudança. Onde mato o meu ego para ouvir o meu eco. Depois de tanto tempo perdido a questionar a atitude dos outros, não dei ouvidos às minhas capacidades e competências. Onde aceito tudo o que de mal aconteceu ou quem me magoou, assim como espero ser perdoado por quem magoei. É onde me resolvo comigo mesmo, e tento que os outros abracem os defeitos do próximo. Não somos assim tão especiais e únicos para ouvir só o nosso ego, “podemos divergir ainda assim dialogar”. Nem sequer precisamos de ser amigos ou gostarmos um do outro para haver respeito. Tem ainda algumas vozes adicionais de Lila.


[“Correntes”] com SØS

“Correntes” é o segundo spoken word do álbum com as palavras escritas e voz de SØS (Silva o Sentinela). É como se fosse uma metáfora das correntes que ficam quando se quebra o laço. Onde a estrutura da cidade são as grades e tudo faz lembrar a saudade e a falta, realçando a ausência do amor que se quer, mas que mal me quer. Tornando a relação abstracta e num labirinto, partindo para o próximo tema.


[“Labirintos”] com Bibi Ross

A relação e os sentimentos voltam a estar no centro da questão, o que vai acontecer com eles é incerto, mas não distante da certeza que os dois lados têm em gostar. Mas às vezes gostar não é tudo, tornando tudo o resto confuso. A faixa, assim como em “Bebe Mais Um Copo”, tem a sua dose certa e sublime de sensualidade e sexualidade. Tem a colaboração da dócil voz de Bibi Ross e também o seu contributo na composição da canção.


[“O Dobro”]

Deixando então a relação em aberto para o futuro, o processo Nimbus continua. Já numa fase de self-conscious, sei que o que importa é agradecer o que temos e não agradar com o que conseguimos. E como soube o que era ter em falta, quando dou, dou o dobro. E que sem mapas ou orientações, eu estou decidido a seguir o que sinto. Deixando para trás a competição com o outros, querendo ser só melhor do que fui ontem, e a culpa só é minha se eu desistir. Tem ainda umas rimas feministas no fim, assim como em alguns temas do álbum, porque é um lado que também queria trazer. Termina com as palavras de Eduardo Marinho.


[“Kuyashii”]

“Kuyashii” é uma palavra japonesa, usada principalmente pelas mulheres devido ao machismo existente na cultura. Representa aquela vontade de querer provar que consegues, porque alguém duvidou de ti, fugindo um bocado às teorias do amor próprio. Porque quando estás resolvido contigo mesmo e sabes que consegues, a única dúvida existente nesse atrito é somente da outra parte. Por isso continuarei a “cuspir o meu fogo”, e é onde deixo os últimos “demónios” para passar à faixa “Sol”.


[“Sol”] com Bibi Ross

Depois de toda a neblina, o Sol acaba sempre por surgir. Por mais dias cinzentos que se pintem, irá estar sempre a brilhar por trás desses climas e ambientes, durem o tempo que durarem. Não precisas de ninguém para teres luz, de uma causa para ajudar e não interessa ser poeta se não for para ser profundo. Deixo também os últimos desabafos e pensamentos positivos para os mais cépticos e mal-humorados. Conto de novo, com a voz de Bibi Ross que veio acrescentar algo subtil, mas que acho que estava em falta na primeira versão que gravei.


[“Sem Mais Nem Medos”]

Na música que fecha o álbum tentei que sentissem uma certa celebração, sair fora do ambiente instrumental do resto do projecto. Sem um tema em concreto ou pensado, assim como na vida, devemos sentir mais do que vemos e saber também ser fúteis e ridículos de vez em quando. E um dia destes, sem mais nem medos, conseguimos tirar a nuvem cinzenta de cima de nós, e alcançar ou ultrapassar seja lá o que for.


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