Alex D’Alva lançou no passado dia 4 de Fevereiro o seu mais recente trabalho de originais, o EP LIVRE, marcando o seu regresso a solo após mais de uma década, período no qual se dedicou quase em exclusivo à banda D’Alva. Este disco, que sucede a Não É Um Projecto (2012), representa uma travessia de redescoberta identitária para o artista, que aqui se estreia como produtor e explora um universo sonoro que cruza batidas da club scene europeia, baile funk brasileiro e ritmos afro-diaspóricos, criando uma narrativa que vai da noite ao amanhecer e pensa na pista de dança como um espaço de libertação e catarse.
O EP, que conta com as colaborações de gente como MALLINA, Maudito, Choro, Máximo ou Gisela Mabel, é descrito como uma ode à liberdade e à autonomia artística, um sentimento que atravessa não só a sonoridade, mas também a abordagem mais pessoal e consciente à música. Para apresentar LIVRE ao vivo, Alex D’Alva prepara uma digressão conjunta com Rita Onofre, intitulada “LIVRE x BRUTA“, que arranca já no dia 26 de Março no Lux Frágil, em Lisboa, e termina a 11 de Abril em Évora, passando também por cidades como Coimbra, Porto, Leiria e Chaves no caminho.
Ao Rimas e Batidas, Alex D’Alva percorre as sete faixas do seu novo disco e explica o que está por detrás de cada uma delas.
[“MINA (F.O.Q.Q.)”]
“MINA” foi uma das primeiras ideias a habitar o meu imaginário e também uma das mais difíceis de materializar. Nasceu durante um longo processo de aprendizagem autodidata em produção musical, feito de incontáveis horas entre tutoriais, escuta ativa e estudo minucioso de referências que me marcaram profundamente. Eu sabia que queria chegar a um baixo sintético, pulsante e hipnótico, algures entre a placidez clínica de Moderat e a urgência emotiva de Bring Me The Horizon. Meses mais tarde, quando finalmente encontrei a combinação certa entre secção rítmica, percussões e elementos graves, senti um verdadeiro momento de descoberta, quase como um “Eureka” pessoal.
Nos últimos anos, por circunstâncias íntimas da vida quotidiana, tenho vindo a aproximar-me cada vez mais da música erudita, e Bach tornou-se presença recorrente na banda sonora doméstica. Esse contacto levou-me a olhar metaforicamente para o órgão como uma espécie de sintetizador primordial, um instrumento que antecipa a ideia de design sonoro através de registos e timbres. O EP abre com esse eco de aparência religiosa, como se se abrisse um pórtico que atravessa o tempo cronológico, para que depois a eletrónica possa surgir com maior contraste e força.
Ao longo do disco, tentei pensar o sampling com uma lógica local e pessoal, como quem escolhe ingredientes sazonais da sua própria geografia. Em “MINA”, isso traduz-se numa abertura com a voz de Mount Keeper, pseudónimo de Ben Monteiro, meu companheiro em D’Alva, num projeto a solo cujas faixas permanecem no YouTube desde 2015. A canção incorpora ainda dois samples vocais da Surma e, no refrão, um “sintetizador” criado a partir da voz de Ana Cláudia, modelada pelo Choro (Miguel Laureano), responsável pela mistura e masterização de todas as faixas deste EP.
A letra surgiu depois de viver a festa CURVS, no Planeta Manas. Eu já tinha assistido a uma performance do coletivo, mas a experiência, no contexto do clube e em plena imersão, foi decisiva e levou-me a escrever uma série de poemas, entre os quais este. Fascinava-me, com uma beleza quase irónica, o facto de existir no piso de cima uma igreja evangélica, no mesmo edifício onde já cantei com o Gospel Collective. Dois lugares aparentemente antagónicos que coexistem e que, no fim do dia, partilham valores em comum, sendo o amor ao próximo o mais evidente.
[“CARTAS” feat. MALLINA]
Fazer um projeto autoral em nome próprio era um desejo antigo. A certa altura, experimentei caminhos diversos, incluindo interpretar canções escritas por outros, tal como já escrevi para outros intérpretes. Foi um processo tão divertido quanto revelador: percebi que o que verdadeiramente me realiza é estar implicado na criação, mais do que ocupar o lugar de intérprete de um produto fechado, mesmo que esse seja o método por excelência de inúmeras popstars que admiro. No fundo, não me interessa tornar-me uma estrela pop no sentido clássico do termo, mas sim explorar a pop como linguagem, como arquitetura e como risco.
Foi nesse processo de descoberta que convidei MALLINA. Conhecemo-nos através da internet e fiquei imediatamente entusiasmado com a sua relação com a pop, não como fórmula, mas como campo infinito de experimentação. Fascina-me a sua autonomia criativa: produz instrumentais, escreve e chega, por vezes, ao ponto de desenhar e costurar figurinos. Na época, eu atravessava um bloqueio. Havia uma intenção clara de fundir eletrónica, pop e música exploratória, deixando permear as raízes da minha ascendência africana e brasileira, mas as experiências que tinha feito até então não me deixavam plenamente satisfeito.
Quando MALLINA veio ao meu home-studio, conversámos sobre o universo sonoro do projeto e ela mencionou que estava a criar beats que se aproximavam do baile funk, embora sem obedecerem aos cânones do género. O primeiro que me mostrou foi imediatamente um ponto de partida. Nesse mesmo dia, eu tinha acabado de adquirir o meu primeiro sintetizador analógico, um instrumento com uma história própria, que já passou pelas mãos de vários músicos. Quando ouvimos o arpégio que abre a faixa, percebemos que havia ali um nervo, uma identidade. Gravámo-lo no instante, enquanto eu moldava o som, inspirado por vídeos em que James Blake partilha o seu processo criativo, e a partir daí a canção começou a existir. “MINA” foi a faísca, mas “CARTAS” acabou por ser a bússola: a faixa que define o arranque conceptual do EP.
Explorámos ideias melódicas e combinámos escrever os versos separadamente. Eu questionava se a minha escrita estaria demasiado críptica, mas decidi abraçar essa pulsão e manter a autenticidade do impulso inicial. “CARTAS” contou ainda com pós-produção adicional do Choro, que fez um trabalho de mistura delicado e minucioso.
Liricamente, é uma canção sobre a imprevisibilidade das forças centrífugas e centrípetas dos afetos, diante das tentativas humanas de medir, prever e domesticar aquilo que, no fundo, não obedece a métricas. Partimos da palavra “cartas” e dos seus significados possíveis, como quem abre múltiplos mundos a partir de um mesmo nome.
[“EXQUIS I” feat. Ecstasya, Choro, HAYDENMAKESMUSIC, Sónia Trópicos, MALLINA, IAN & Gisela Mabel]
Sempre quis explorar a ideia de um cadavre exquis em música, e “EXQUIS I” revelou-se o terreno perfeito. Tudo começou numa sessão com Haydenmakesmusic, com quem trabalhei no espetáculo “Bravo! 2023”, do Teatro Praga. Partimos de um beat que cruzava eletrónica experimental com uma base rítmica inspirada no baile funk. Quando continuei a desenvolver o instrumental e compus o arranjo de cordas que abre a faixa, percebi que estava a divergir para direções muito diferentes da secção inicial. Em vez de corrigir essa divergência, decidi assumi-la: a própria canção podia tornar-se um objeto fragmentado e colaborativo, como se fossem várias canções dentro de uma.
Foi a partir dessa intuição que convidei diferentes artistas a intervir livremente na faixa. No dia em que conheci pessoalmente Ecstasya, a porta para a colaboração abriu-se de forma natural. Quando fui convidado a programar uma noite especial no Lux, convidei Sónia Trópicos para tocar e, entre os nossos sets, falámos do desejo mútuo de colaborar. Propus-lhe esta faixa e a resposta foi imediata. O Choro, a quem eu já tinha dito que a mistura seria um desafio, surpreendeu-me ao manifestar vontade de participar também como produtor.
Convidei ainda IAN (Ianina Khmelik) para gravar a secção de cordas que compus para a introdução, dando-lhe liberdade total para criar intervenções de violino ao longo do tema. Já no fim, a compositora Gisela Mabel entra com um solo de piano que materializa a bonança depois da tempestade, trazendo serenidade a um percurso que se constrói com excesso, choque e movimento.
No plano vocal, senti que precisava de um primeiro ponto de apoio. Trabalhei as melodias do primeiro verso e do refrão com MALLINA, e o Tota (Jonatas Pereira) contribuiu também ajudando-me a estruturar a letra dessas secções iniciais. Daí em diante, fiquei entregue à minha imaginação. Impus-me uma regra única: não me policiar. Ignorei qualquer norma que anteriormente pudesse ter imposto a mim mesmo no contexto da escrita de canções, porque aqui a liberdade e a espontaneidade tinham de existir antes do resultado. Na interpretação, não contive os sotaques que uso com a minha família alargada, porque a voz parecia pedir essa autenticidade, da boca a fugir para a verdade.
[“SAI DA FRENTE”]
“SAI DA FRENTE” nasceu também com Haydenmakesmusic. Depois, o instrumental foi sendo trabalhado por mim, até chegar à fase final em que o Choro entrou para expandir a paleta sonora. Aqui, quis explorar a eletrónica do início do século, o universo do indie sleaze e a chamada “pop de recessão”, que marcou profundamente o imaginário da minha adolescência. Observar o regresso destas estéticas no presente, em pleno contexto de instabilidade social e política, confirmou-me que precisava de revisitar essa vertente que me provoca uma nostalgia muito particular: a nostalgia de uma era musical que eu só pude viver de forma indireta, através do que me chegava pela internet.
É também impossível falar da reinvenção contemporânea do indie sleaze sem mencionar o impacto cultural de brat, de Charli xcx, e a forma como esse disco reativou desejos coletivos ligados à pista, à hedonização do colapso e à frontalidade emocional. Nesse contexto, senti que a canção precisava de uma energia lírica e melódica que eu ainda não tinha. Convidei Inês Apenas para me ajudar com letra e melodias vocais. Naquele momento, eu só tinha o refrão e sabia que ela teria a destreza necessária para dissipar qualquer bloqueio criativo e abrir caminho às restantes secções.
Inês contribuiu também com piano, como afirmação de presença e ocupação de espaço, de quem não pede desculpa por existir. Mais tarde, escrevi uma nova versão da letra com um foco acentuado numa postura que celebra o clubbing como prática primordial de liberdade radical através do movimento. “SAI DA FRENTE” propõe também uma reflexão: um corpo percecionado como “o outro”, quando dança alegre e livremente, ou quando simplesmente existe sem pedir autorização, pode ser um corpo em resistência.
[“LIVRE”]
A faixa que dá nome ao EP nasceu como uma experiência de produção e acabou por revelar-se uma das mais bem-sucedidas do disco. Partiu de uma ideia simples: usar a linha de baixo como um mantra repetido ao longo de toda a extensão, deixando que o desenho do timbre e os elementos circundantes criassem variações de dinâmica. É um pensamento próximo de Poney Part 1, do francês Vitalic, onde a repetição não é estagnação, mas hipnose.
Foi uma faixa construída ao longo de meses, em movimento constante, acompanhando as deslocações da vida. Houve momentos em que a produzi em Lisboa, onde sou residente, no Porto, onde surgiu a ideia vocal para o refrão, e em Londres, onde vivi a experiência de uma noite Horse Meat Disco no Eagle. Belo Horizonte foi igualmente determinante: foi lá que tive a intuição de incluir um coro gospel e comecei a compor o respetivo arranjo vocal, como se a canção pedisse uma elevação coletiva, talvez influenciado por estar inserido no ensemble de Grada Kilomba. Foram paragens decisivas, não apenas como lugares físicos, mas como atmosferas interiores.
Nesta faixa quis também samplar “Só Eu Sei”, do Virgul. Não apenas por ser um dos meus artistas pop favoritos, mas por ter sido também a primeira canção que coescrevi com ele. Pareceu-me uma coincidência bonita que a voz de um amigo pudesse, aqui, servir como elemento melódico e rítmico de uma música que se chama precisamente “LIVRE”.
Durante muito tempo, não soube o que fazer com os versos. Só existia uma certeza: o refrão. A intuição levou-me aos estúdios Great Dane, para escrever com Rita Onofre aquilo que faltava na letra. As experiências de estúdio que tive com ela anteriormente já me tinham exposto à sua sensibilidade, aliada a um uso criativo e singular da língua portuguesa. As sessões foram atravessadas por longas conversas sobre ideias e experiências que compõem o universo emocional do EP. Uma imagem acompanhou-nos ao longo do processo: a performer Lola Maria a dançar livremente ao som desta música. Essa visão viria mais tarde a materializar-se num videoclipe realizado por João Descalço.
[“ALVOR (0.0)” feat. Máximo]
“ALVOR” cria uma cisão na experiência do EP. A partir da segunda faixa, quatro canções fluem de forma aparentemente ininterrupta, como se a escuta evocasse a continuidade de um DJ set. Até este momento, a narrativa sonora inscreve-se no período notívago. Quando “ALVOR (0.0)” chega, misturam-se as memórias da pista com os primeiros raios de sol de um novo dia que surge, não como encerramento, mas como mudança de cenário.
Há uma beleza muito particular no regresso matutino depois de uma noite intensa de clubbing, sobretudo se for à beira do Tejo, a ver o céu olissipense abandonar o breu e atravessar tons de laranja e rosa antes de chegar ao azul. É esse quadro íntimo que “ALVOR” tenta traduzir.
A faixa nasce de um improviso ao piano do compositor Máximo Francisco, na sala de estar de uma casa onde já não vivo. A partir desse gesto espontâneo e imediato, quis intervir numa lógica de música experimental, influenciada por Sly & The Family Drone, Nils Frahm e Max Richter, criando um espaço onde o som se dilui em textura, silêncio e respiração.
[“N.M.P.P.E.” feat. Maudito, Choro & Máximo]
“N.M.P.P.E.”, à semelhança da faixa anterior, nasce de um acaso doméstico que se tornou decisivo. O meu companheiro tinha um Yamaha C5 que foi vendido quando mudámos de apartamento. Nos últimos dias em que o piano esteve em nossa casa, conheci Máximo Francisco na ModaLisboa e ele aceitou generosamente o meu convite para vir gravar comigo.
Não havia plano. Eu tinha alguns beats, ele tinha liberdade total. O que se ouve é um improviso sobre uma batida de baile funk do Brasil. Fiquei tão impressionado com tudo o que tocou que decidi não suprimir nada. Não alterei a estrutura, não reescrevi o percurso. Limitei-me a acrescentar elementos rítmicos e eletrónicos de forma tímida e cuidadosa, quase conservadora, porque não queria desvirtuar a beleza espontânea daquele gesto.
Quando senti que tinha atingido o máximo das minhas capacidades na produção, convidei o Choro para co-produzir. Ele era a pessoa certa para expandir a paleta sonora sem perder a estética de chill baile, algo que já tinha revelado tanto no universo lo-fi dos seus lançamentos em nome próprio como em “Sambino”, no álbum de estreia de Sease, banda que partilhou com Rita Onofre.Tal como em “EXQUIS I” e “ALVOR”, eu sentia que esta faixa funcionaria melhor como instrumental. Ainda assim, quis desafiar-me a sair da zona de conforto e intervir liricamente sobre um instrumental que foge às estruturas convencionais da canção pop. “Não me peças para explicar” era uma frase inevitável, já vivia na minha imaginação sempre que ouvia aqueles acordes. Quando comecei a escrever, percebi que este tema era uma espécie de prolongamento de “Demais”, dos D’Alva. Não apenas pela emoção, mas também porque a dedicatória continua a apontar para o mesmo destinatário. Recuperei alguns versos que tinham ficado de fora da versão final dessa canção. As palavras, no entanto, carregavam a mesma verdade e pareciam insistir em ganhar corpo, em encontrar morada num registo discográfico. Aqui, com as devidas adaptações, encontraram morada.
Esta faixa foi também a oportunidade perfeita para convidar Maudito, o rapper português que mais me entusiasma atualmente, pela destreza lírica, pela visão artística e pelo lugar singular que ocupa no panorama contemporâneo da música urbana. O artista oriundo do Porto não desiludiu. Entrou no tema de forma destemida e sem inibições, com uma compreensão sensível do meu ponto de vista, e expandiu a narrativa.
https://open.spotify.com/album/4jlOyTy2FxG5ZWXH0toSj1?si=pdRvsFKiQNCFoi-Exdu8Lw