No passado dia 13 de Fevereiro, Karyna Gomes rubricou o terceiro álbum da carreira, Kantigas di Liberdadi.
Este mais recente projeto celebra a história, a liberdade e o amor através da música guineense, com raízes nos ritmos do gumbé e da tina, mas com influências da soul, da rumba, da MPB ou do kompa haitiano, todas interpretadas em kriolo da Guiné. Gravado ao vivo, em modo live to tape, o sucessor de N’na recupera uma forma de fazer discos associada a gerações anteriores da música guineense, ao mesmo tempo que se abre ao presente pela forma como cruza referências históricas com novas vozes e linguagens.
O trabalho regista nove canções, quase todas elas da autoria da própria artista — na ficha técnica surgem os nomes dos compositores Ademir Lopes e Ernesto Dabó em “Ka Bu Bai”, Toy Delgado em “Nô Brinka” e José Carlos Schwarz em “Titina” —, e conta com as participações do veterano Mikas Cabral, um dos líderes da emblemática banda Tabanka Djaz e tio de Karyna Gomes, e de duas cantoras emergentes: Alana Sinkëy e Dara Haniel, esta última filha de Karyna Gomes, proporcionando um encontro de gerações.
Kantigas di Liberdadi vai ser apresentado ao vivo no dia 17 de Julho no B.Leza, em Lisboa, e esteve em destaque por cá na semana passada através de uma entrevista que Rui Miguel Abreu conduziu a Karyna Gomes, oferecendo um plano mais geral do LP. Agora, a artista nascida em Bissau passa a lupa sobre todas as nove faixas que compõem o alinhamento do disco, explorando com maior detalhe o que esteve na génese de cada uma delas ao longo dos parágrafos que se seguem.
[“Bon Kontrada”]
“Bon Kontrada” é um tema sobre o relacionamento entre um homem e uma mulher que construíram uma família, mas que enfrentam diferenças e precisam, por vezes, de reacender a chama. Parte de uma ideia central: tudo começa em casa. É uma homenagem aos casais e um lembrete de que vale a pena amar, perdoar e cuidar da relação. Num contexto sociocultural que pode ser hostil — onde coexistem modelos monogâmicos e práticas de poligamia —, a canção sublinha a importância de proteger o núcleo familiar. “Bon Kontrada”, que significa “bom encontro”, reforça essa ideia: encontrar alguém é raro, e quando acontece, é preciso cuidar desse amor como quem rega uma flor.
[“Dji Tu Ten”]
“Dji Tu Ten” surge como resposta a uma expressão comum na Guiné-Bissau — “djitukaten”, que significa “não há nada a fazer”. Contra essa resignação há sempre uma solução. A canção assume um tom de intervenção, apelando à mudança de mentalidade e à responsabilidade coletiva. Inspirada também pela sua fé, traz a ideia de que “os que semeiam com lágrimas colherão com alegria”. Mais do que descrever a realidade, propõe transformá-la: só mudando a forma de pensar será possível reconstruir o país e recuperar o seu lugar de referência, como nos tempos de Amílcar Cabral.
[“Djonsa”]
“Djonsa” é uma conversa íntima com o meu pai, combatente da liberdade, já falecido. O nome era como eu era tratado no seio familiar e serve aqui de ponto de partida para um desabafo pessoal. Num contexto marcado pela instabilidade política e pelo aumento do discurso de ódio, a canção reflete frustração, mas também esperança. Evoco a postura do meu pai, homem de poucas palavras, mas de grande resiliência, um exemplo de resistência. O tema funciona simultaneamente como homenagem e como reafirmação de fé num futuro melhor para a Guiné-Bissau.
[“Ka Bu Bai”]
Baseado num poema de Ernesto Dabó — o primeiro guineense a gravar um disco em Lisboa, em 1973 —, “Ka Bu Bai” explora a intimidade entre homem e mulher. Descobri o poema, apaixonei-me e musiquei-o de forma intuitiva, em casa, com a guitarra. O resultado é uma balada guineense que se abre a outras influências sonoras, recusando uma abordagem tradicional rígida e explorando uma maior liberdade estética.
[“Luta”]
“Luta” parte de uma canção tradicional balanta da época da luta de libertação, originalmente sem letra. Escrevi uma nova letra, transformando-a numa mensagem directa ao povo guineense. A canção reafirma a história colectiva e a pertença – “este mundo é nosso” – e convoca uma ética de cuidado e responsabilidade. Mesmo em tempos difíceis, há uma mensagem clara de fé e esperança: a escuridão é passageira e o sol voltará a nascer.
[“Nô Brinka”]
Composição de Toy Delgado, “Nô Brinka” é um tema que queria gravar há muito tempo. A versão final conta com a participação de Mikas Cabral, meu tio e uma das minhas maiores influências musicais. Figura central na minha formação, foi Mikas quem me apresentou o cancioneiro cubano e abriu portas a outras sonoridades. A faixa funciona assim também como homenagem, cruzando herança familiar e identidade musical.
[“Sintido”]
“Sintido” nasce de um momento de introspecção. A canção reflecte sobre as oscilações emocionais — especialmente no universo feminino — e sobre a necessidade de encontrar equilíbrio. A mensagem é clara: parar, confiar, não ceder à raiva. “O amanhã é longe, mas rega-se hoje” torna-se a ideia central de um tema que defende o perdão como caminho para a liberdade e plenitude. É uma canção dirigida, sobretudo, às mulheres.
[“Titina”]
“Titina” resulta de um longo processo de recuperação da obra de Zé Carlos Schwartz. Encontrei, em 2005, uma bobina com um excerto da canção, mas o registo estava incompleto, porque a bonina estava deteriorada. Após quase duas décadas de procura, consegui reconstruir o tema com a ajuda de Guto Pires, cruzando a melodia recuperada com a letra encontrada num livro de poemas. Gravada com músicos virtuosos, esta faixa aposta numa abordagem crua e orgânica — sem filtros, sem autotune — privilegiando a autenticidade.
[“Tufulim”]
Último tema do disco, “Tufulim” conta com a participação de Alana Sinkëy, cantora guineense da diáspora. A colaboração nasce de uma ligação criada na Bienal de Bissau. A canção celebra práticas ancestrais femininas, como o acto de pentear o cabelo enquanto se partilham histórias íntimas. “Tufulim” — nome de um tipo de penteado, porque há muitos diferentes — torna-se símbolo de transmissão cultural, identidade e continuidade entre gerações.