Radicado em Los Angeles, mas moldado pelas múltiplas camadas da tradição musical brasileira, Fabiano do Nascimento tem vindo a impor-se como uma das vozes mais singulares do guitarrismo contemporâneo. Nascido no Rio de Janeiro, o músico construiu uma linguagem própria onde convivem o legado do choro, do afro-samba ou da canção brasileira com influências vindas do jazz moderno, da música experimental e de uma certa electrónica ambiental, ecoando dessa forma o particular ecossistema da cena alternativa de L.A. que explica as suas ligações à Leaving Records ou Now Again.
Virtuoso do fingerpicking e explorador atento das possibilidades tímbricas da guitarra acústica, desenvolveu ao longo dos anos um som imediatamente reconhecível, marcado por diferentes afinações, guitarras com diferentes encordoamentos e um uso subtil de loops e efeitos que expandem o espaço do seu instrumento sem perder o seu carácter profundamente orgânico.
Nos últimos anos, a sua discografia tem refletido essa permanente tensão entre a tradição e a exploração de novos territórios. Álbuns como Mundo Solo, Das Nuvens (ambos de 2023) ou Cavejaz (2025) mostram um músico interessado tanto na intimidade da guitarra solitária como na construção de paisagens sonoras mais amplas, enquanto projectos com figuras como Arthur Verocai, Airto Moreira ou Sam Gendel revelam a forma como o seu trabalho se move entre universos aparentemente distantes. O mais recente álbum, Vila, gravado com a Vittor Santos Orquestra, prolonga esse caminho: um disco que convoca memórias do bairro onde cresceu no Rio de Janeiro e as projecta numa escrita orquestral que amplia o seu imaginário musical.
É neste momento particularmente fértil do seu percurso que Fabiano do Nascimento chega finalmente a Portugal. No dia 11 de março, estreia-se ao vivo em Lisboa num concerto intimista na St George’s Church, abrindo a primeira edição das The Church Sessions, uma série de performances que propõe experiências de escuta em espaços de forte carga acústica e simbólica. Antes desse encontro com o público português, falámos com o guitarrista sobre tradição brasileira, experimentação sonora, guitarras pouco convencionais e a dimensão contemplativa que atravessa a sua música.
O seu concerto de estreia em Lisboa será num contexto muito particular: um concerto íntimo dentro de uma igreja. Que tipo de energia espera encontrar num espaço assim e de que forma imagina que isso pode influenciar a sua performance?
Já tive experiências a tocar em igrejas e em espaços semelhantes. Sempre gostei muito de tocar em lugares assim, com uma acústica bonita. Acho que combina bem com o tipo de música que faço: música instrumental, guitarra, coisas mais subtis. E será também a minha primeira vez em Lisboa. Sempre quis visitar Portugal, por isso espero que seja algo muito bonito: poder tocar numa igreja histórica, num lugar com esse tipo de atmosfera. Imagino que seja uma experiência muito especial.
Costuma viajar com a sua própria guitarra ou vai tocar com um instrumento alugado em Lisboa? Pergunto porque vi no ano passado o guitarrista Shane Parish assinar um belíssimo concerto com uma guitarra acústica com que ele parecia ter uma relação de muitos anos, mas que afinal foi alugada em Portugal para esse concerto…
Normalmente viajo sempre com a minha guitarra, porque o instrumento que uso é muito particular. Foi construído para mim e tem um sistema de captação muito específico, uma espécie de pickup que desenvolvi ao longo do tempo, com uma forma de captar o som em estéreo e que funciona bem com os efeitos que utilizo, que são bastante subtis. Por isso, não consigo simplesmente tocar em qualquer guitarra. Normalmente, quando faço concertos, levo mais do que uma guitarra, porque uso afinações diferentes. Tenho guitarras de sete cordas, de oito cordas, e cada uma está afinada de forma diferente para certas partes do repertório. Assim não preciso de mudar a afinação durante o concerto. Mas viajar pela Europa com vários instrumentos é um pouco complicado. Por isso, nesta digressão acho que vou levar apenas uma guitarra. Talvez duas, se conseguir, mas provavelmente vou ter de adaptar um pouco o concerto e trabalhar apenas com um instrumento.
A sua guitarra tem então uma história muito particular?
Ao longo dos anos fui desenvolvendo um som muito próprio. É difícil explicar exactamente como isso aconteceu, mas sempre gostei de experimentar. Tenho muitas guitarras e gosto de explorar diferentes afinações. Tenho até uma guitarra de sete cordas muito pequena, quase como um soprano, que às vezes levo para os concertos. Quando faço concertos perto de casa, no Japão ou em Los Angeles, às vezes levo quatro guitarras. Chego a ter quatro ou cinco instrumentos em palco, todos com afinações diferentes. Tenho uma guitarra de dez cordas, uma de seis cordas… Mas claro que não consigo fazer isso quando viajo para a Europa. Teria de comprar três lugares no avião só para as guitarras.
Talvez um dia, quando tiver o seu avião privado… [risos]
Seria um sonho [risos]. Mas, de certa forma, esta particularidade do meu som também acaba por complicar a minha vida, porque não consigo tocar em qualquer guitarra acústica. Há toda uma forma de captação e de mistura com loops e efeitos que acabou por se tornar parte da minha identidade sonora. Por isso, nesta digressão vou ter de adaptar tudo para funcionar com um único instrumento.
Que repertório pretende apresentar em Lisboa? O seu novo álbum, Vila, terá certamente presença no concerto.
Aquilo que faço ao vivo é sempre um pouco diferente, mesmo quando toco músicas que gravei em disco. Um dos últimos projectos que lancei chama-se Cavejaz, que é um projecto de guitarra e percussão com o Paulo Santos. Esse repertório consigo tocar a solo, usando loops e às vezes pequenos samples criados com a própria guitarra, construindo uma espécie de ambiente sonoro. É mais ou menos isso que vou trazer para esta digressão. Além disso, toco peças de vários álbuns, antigos e recentes, que adapto para versões a solo. Gosto muito dessa ideia de transformação. Às vezes gravo uma peça e, anos depois, continuo a tocá-la, mas ela vai mudando. Se eu compuser algo hoje, daqui a um ano já não o estarei a tocar da mesma forma. É algo de que gosto muito na música: uma composição não é fixa. Existe uma ideia, um tema, mas a música evolui. Às vezes mudo-lhe a “roupa”, o sabor. E isso acontece naturalmente.
A sua música é muitas vezes descrita como um encontro de vários mundos: samba, jazz, eletrónica e diferentes tradições brasileiras. Como é que essas linguagens começaram a coexistir na sua guitarra?
Sempre fui muito curioso. Desde o meu primeiro álbum que gosto de tocar guitarra e tentar extrair dela sons que não são os habituais. A guitarra é um instrumento muito icónico. Muitos guitarristas acabam por ter um som muito parecido, mesmo que existam diferenças de técnica. Sempre tive curiosidade em experimentar outras possibilidades. Gosto muito de guitarras antigas — tenho uma guitarra com mais de 120 anos que encontrei e que às vezes uso em gravações. No meu primeiro álbum, por exemplo, coloquei papel nas cordas para alterar o som. Isso não é propriamente uma invenção minha; muitos músicos já fizeram experiências semelhantes. Mas sempre gostei de explorar. Depois veio a influência da eletrónica e também dos músicos com quem convivi em Los Angeles. Há muitos instrumentistas que trabalham com efeitos — saxofonistas, por exemplo — e isso acabou por me influenciar bastante.
Como o saxofonista Sam Gendel?
Sim, o Sam é um grande amigo meu. Tocámos juntos durante muitos anos e editámos um álbum juntos, The Room (2024). Aquela cena de jazz de Los Angeles teve uma grande influência em mim. Mas ao mesmo tempo tenho uma ligação muito forte à tradição da guitarra brasileira, e isso sempre foi um desafio: como conciliar essas duas coisas? A guitarra clássica tem uma identidade muito marcada. Então comecei a trabalhar muito na forma de captação do som. A guitarra de nylon é um instrumento difícil de amplificar de forma interessante. Muitas vezes procura-se apenas o som mais natural possível. No meu caso, não é isso que procuro. Quero uma captação limpa que me permita trabalhar com efeitos e equalização. Mesmo quando o som está “seco”, já não é exactamente o som natural da guitarra e isso é intencional.
Falemos do seu novo álbum, Vila. Como nasceu este disco?
Conheci o Vitor Santos no Rio de Janeiro, num projeto de um amigo meu, o Carioca Freitas, para o qual ele fez os arranjos. Isso foi há cerca de dez anos. Ficámos amigos e, durante a pandemia, comecei a enviar-lhe algumas músicas. Ele começou a fazer arranjos e assim nasceu esta colaboração. Foi algo muito natural. O Vitor é um músico que escreve muito, está sempre a criar e a compor. Acho que ele entendeu muito bem o meu som e a forma como penso a guitarra. Já tínhamos feito um álbum juntos chamado Lendas e este novo disco é uma espécie de continuação desse projecto. Acho que fomos ainda mais longe desta vez.
A sua música dialoga frequentemente com tradições brasileiras como o choro ou o afro-samba. Como vê a sua relação com a tradição?
Talvez a palavra seja apreciação. Para mim é uma forma de apreciar a tradição. Faz parte da minha história, do meu crescimento e da minha aprendizagem musical. É como tirar o chapéu às referências e reconhecer essas influências na minha música.
Que referências habitam a sua música?
Há muitas. Sempre fui muito fascinado por uma vertente da música brasileira que não é exactamente a mais popular. Admiro muito o Egberto Gismonti. Há um universo muito profundo e misterioso na música dele. A forma como toca guitarra é realmente única. O Baden Powell também foi uma enorme influência — não apenas pelas composições, mas pela forma como trata a guitarra quase como um instrumento de percussão. Gosto muito também do trabalho da Marlui Miranda, que fez projectos incríveis com música indígena. Existe uma riqueza enorme no Brasil: tradições indígenas, afro-brasileiras, música religiosa. Tudo isso sempre me fascinou.
A sua música tem uma dimensão contemplativa muito evidente. De onde vem isso?
Acho que faz parte da minha personalidade. Sempre fui uma pessoa um pouco contemplativa. Gosto do silêncio, gosto do espaço entre as notas. Gosto de tocar uma nota e deixá-la soar, ouvir o som das cordas soltas. Nunca fui muito de tocar de forma agressiva. Prefiro explorar esses momentos mais calmos e ouvir cada detalhe do som.
Este concerto será o seu primeiro encontro com o público português. O que gostaria que as pessoas levassem consigo quando saírem da igreja depois de terminada a sua apresentação?
A música, para mim, desde criança, sempre foi algo que me salvou, sem querer ser muito dramático. É algo que me traz muita paz. A música coloca-nos no momento presente. Quando ouvimos música, a nossa mente pode viajar. Podemos sentar-nos e deixar-nos levar, sentir paz. E também há algo muito especial nesse momento coletivo: estarmos todos juntos num espaço como uma igreja, num mundo tão cheio de ruído, e partilharmos esse som. Acho que saímos dali com uma sensação de alívio. Uma espécie de descanso. Uma sensação de paz.