Conforme a escuridão começa a cobrir o céu de Lisboa, várias pessoas vão dando entrada no Cemitério dos Ingleses, rumo à St. George’s Church, para aquela que foi a primeira sessão das The Church Sessions. O cenário estava digno de filme com bolinha vermelha e a peregrinação entre sepulturas em nada fazia antever que o que se iria assistir na noite de ontem, 11 de Março, era tudo menos macabro. Pelo menos para aqueles que resolveram marcar presença no evento às “cegas”, sem conhecerem os artistas que iriam actuar naquela noite.
Um dos nomes poderia até ter causado algum desconforto: Inóspita. Mas o que podia ser uma camada de suspense adicionada ao enredo não é mais do que uma brincadeira fonética de uma “Inês pita”. Mais um engano: a artista nascida Inês Matos é tudo menos petiz na arte do manuseio da guitarra, instrumento que esteve em grande destaque nesta edição inaugural das The Church Sessions. Das suas jovens mãos escorrem páginas de um diário que parece atravessar séculos de vivências sob a forma de música puramente instrumental, cruzando diferentes paisagens e estados de espírito. Sentada, com a sua Fender Telecaster ao colo, leva-nos numa viagem que atravessa épocas e continentes como se conduzisse uma locomotiva de longo curso. Hábil maquinista, troca-nos os olhos com a agilidade com que as suas mãos e pés operam tanto as cordas como a pedaleira que tem no chão diante si. Há momentos em que quase parece uma baterista pela quantidade de movimentos que exerce com os quatro membros num curto espaço de tempo — como quando, a dada altura, fixava os acordes com a mão esquerda, atingia as cordas e manuseava o knob do volume com os dedos da direita e saltitava entre efeitos ao pressionar diferentes botões com cada um dos pés.
A eletricidade que lhe corria pelo corpo era tanta que havia vezes em que se contorcia na cadeira, como quem só se quer levantar para se abanar forte e feio quando o som é mais rasgadinho e distorcido. Cada tema é um universo, capaz de ir da folk ao rock e ainda parar em mais outras quatro ou cinco estações pelo meio. É tarefa árdua catalogar a música que escreve e toca, tal é o jogo de cintura para se debruçar por tantas linguagens distintas, como se fosse nativa em todas elas. Quem já anda nisto de ver concertos aos anos certamente se deu conta: Inóspita dá dez a zero a muito guitarrista consagrado que por aí anda e que pensa que actuar ao vivo é uma estrada aberta para dar pregos a torto e a direito ou limitar-se a sacar meias notas. Numa verdadeira lição de execução, Inês deixa bem claro que não há lugar para complacência. Quem não foi de propósito para a ver, certamente que já não esquece o nome. Uma coisa é certa: se algum dia for em direcção a uma encruzilhada à meia noite, ainda arranja forma de fazer com que seja o próprio diabo a vender-lhe a alma e não o inverso.


Quando a fasquia fica tão lá em cima no acto de abertura, a tarefa não fica fácil para o cabeça de cartaz. Felizmente, Fabiano do Nascimento é feito da mesma fibra que Inóspita no que toca à mestria. Mas se a portuguesa é mais feita de ventos frios e algumas tempestades, o brasileiro radicado em Los Angeles é brisa de Verão entre sol e cachoeira. Com um som mais delicado, que começa desde logo na opção pelo violão amplificado, leva-nos a mergulhar por águas cristalinas à boleia de dois diferentes conjuntos de sete cordas. É um número pouco usual, tal como também o é o resto do seu setup, que inclui efeitos, uma espécie de borrachas que afabam as vibrações e até mesmo um laptop, de onde dispara alguns acompanhamentos — desde percurssoes exóticas a uma ocasional batida de padrão mais familiar. Mas tudo não passam de meros detalhes: o foco está todo no virtuosismo deste cientista que tem estado a desbravar novas formas de fazer soar a viola clássica, não fosse ele um dos mais entusiasmantes nomes a operar neste momento na cena experimental de LA.
Foi uma sorte tê-lo em estreia por cá para nos dar um showcase da sua avançada técnica, ainda para mais quando a inflação do preço das memórias RAM não pára de aumentar. Esperemos que não lhe metam a cabeça a prémio, mas o super computador que Fabiano tem no seu córtex cerebral dá para ter quase infinitas aplicações abertas em simultâneo: tradições latinas, jazz, blues e até flamenco; Amazónia, Mississippi ou Mediterrâneo; strumming, fingerpicking, Travis picking e um faubloso leque de harmónicos. São galáxias dentro de galáxias aquilo que escutamos vindo das suas mãos, sejam temas extraídos dos seus Cavejaz e Vila ou reinterpretações de composições daqueles que admira, como Heitor Villa-Lobos ou Carlos Lyra. Fabiano do Nascimento parece estar para o violão como Amaro Freitas está para o piano, tal é a forma como faz pingar das cordas gotas musicais que sabem tanto a ancestralidade como a sofisticação. Se os dois músicos brasileiros ainda não tiveram oportunidade de se conhecer, alguém que faça o favor de os apresentar, pois a coisa pode muito bem funcionar.
Foi tudo menos um filme de terror o arranque das The Church Sessions. E se a aventura arranca nestes termos, só podemos ficar mortinhos pelos anúncios dos próximos episódios.

