Fábia Maia: “Quero ser uma artista mais completa”

[TEXTO] Núria R. Pinto [FOTO] Direitos Reservados

Ficou conhecida pelas versões que fazia de temas de Allen Halloween, Valete e outros nomes do hip hop nacional, mas, dessa altura até hoje, passaram mais de cinco anos e Fábia Maia é, actualmente, uma das vozes femininas a dar cartas no cenário r&b e soul nacional. Depois de Melodia-me, o EP de estreia lançado no final de 2017, a cantora de Barcelos rodeou-se de diferentes produtores e influências que lhe permitiram explorar outras sonoridades. Nos últimos meses, vimo-la chegar com três produções que fogem dos registos iniciais mais orgânicos para se encostarem agora à electrónica numa perspectiva, segundo a própria, de um “artista que fala sempre do que vive”.

Hoje, Fábia Maia sobe ao palco do Teatro Aveirense para apresentar novas e antigas composições num formato mais intimista de guitarra e voz. Na ressaca do lançamento de “BarcelonaParis”, a cantora esteve à conversa com o Rimas e Batidas.



Lançaste três faixas nos últimos seis meses, “My Baby”, “Vibe Certa” e agora esta “BarcelonaParis”. O que é encontraste em cada uma delas que sentes que já não queres prescindir?

Atitude será a palavra-chave. Ao longo deste meu percurso de quatro anos, de covers a “BarcelonaParis”, aprendi que, no final das contas, o que realmente carece de atenção é a tua auto-avaliação. Isto significa que não me posso encontrar parcialmente em nenhuma das minhas músicas. A tua música tem que ser aquilo que tu és e não o que queres ter para seres. Esse é o meu game. Livre de qualquer preconceito ou até mesmo daquilo que os outros possam esperar de mim. Não quero essa angústia, só quero mesmo fazer música… Ainda que esta, na minha vida, signifique sentimento, quero projectá-la de maneira a que o meu “Eu” se espelhe de tal forma que alguém se possa sentir reconfortado por me ouvir. Os três temas recentes todos têm em comum uma mensagem, nomeadamente uma apropriação daquilo que maior parte das vezes é falado mas não é transcrito, ou seja “a diferença”.

BarcelonaParis” tem em comum com as anteriores o facto de ser uma canção de desejo, paixão e eventualmente rejeição, também. Poderia dizer-se que as relações são a tua matéria-prima… Podemos explorar um pouco essa questão?

Posso considerar-me uma artista que fala sempre do que vive. Tenho uma imaginação brilhante mas raramente a sinto se não trouxer um pingo de realidade à música que faço. Tudo é uma questão de perspectiva. Quando se fala em relações como matéria-prima posso dizer que sim, que realmente vivo nesse mar de sensações, mas talvez numa perspectiva minha, muito própria. Vou dizer que se trata de uma única “Mulher” e em todas elas a mesma “Mulher”. Talvez essa “Mulher” seja eu e só esteja a contar a minha história, desde a “Vibe Certa” a “BarcelonaParis”, de uma forma em que falo para mim de uma maneira muito especial. É a minha forma de me distanciar daquilo em que não acredito porque, na verdade, a superficialidade causa angústia e leva-me para longe daquilo que sou. Repara na “Vibe Certa”, a mulher heterossexual que se apaixona por outra mulher numa descoberta, uma viagem a um mundo desconhecido. A “My Baby” fala exactamente na mulher errada que a superfície a tornou. Em “BarcelonaParis”, claramente a redenção, o amadurecimento, a posição certa de luz própria quando digo “Obrigada por tudo… És alma na minha voz”. As relações são a matéria com que lido agora porque é delas que me quero curar. A minha vibe é curar-me da vida real. Talvez o meu próximo som seja a curar-me do mundo pouco profundo onde me tento encaixar. A música é a cura.

Em duas destas faixas, pelo menos, trabalhas com Iuri Rio Branco. O que é que ele tem trazido de novo ou diferente para as tuas produções? 

O Iuri traz uma cena que se denomina por “Paz”. Cheguei à conclusão que preciso de pessoas na minha vida que se encontrem na mesma frequência que eu. Para além de ser um produtor incrível, que transpira música, é uma pessoa que vale a pena. Vale a pena porque me acrescenta mais música, sem pressões e na vibe certa. Também me traz um ginga que só ele tem porque a produção é quente e traz o Brasil com ela. Como eu também tenho saudades de casa, achei uma ligação muito importante para me distanciar um pouco de sons de Inverno.

É importante para ti encontrar um produtor com quem possas trabalhar em parceria, de uma forma mais estável? 

Completamente. Não trabalhar só com um, mas ter um leque de pessoal que realmente entenda a tua música e, mais importante, que se identifique com a pessoa que tu és, caso contrário nunca vão entender a tua música na plenitude, será sempre um limbo. E o limbo é sempre um passadiço antigo que, eventualmente, te trará dúvidas. Ter o apoio de quem quer, efectivamente, trabalhar contigo nestes parâmetros é o melhor deal que se pode ter até porque o dinheiro já é secundário e isso dá-me gozo.

Disseste em entrevista à Antena 3 que ainda conciliavas um day job com o teu percurso artístico, como de resto muitos músicos em Portugal. Sentes que estás a percorrer o caminho conforme planeado ou isso ainda te atrasa muito? 

Não direi infelizmente sobre algo que me dá uma força extrema. É uma luta diária. Eu tenho um sonho e sonhei com isto muito tempo. É extremamente difícil singrar sem uma luta diária nos dias de hoje. Eu trabalho para sustentar este meu sonho de forma viável e da forma que eu quero e acredito. Assim posso dizer que eu possuo a carreira que imagino para mim no meu tempo e nas minhas coordenadas. Respondendo à segunda parte da questão… Não sinto que me atrasa, sinto que me acrescenta um valor natural, nomeadamente uma força interior que no fundo me faz feliz. Não há nada mais prazeroso do que dizeres “ya, faço isto porque tenho um sonho”. Imagina quando lá chegares o orgulho que vais sentir. Nunca podemos desistir de nós, somos sempre nós a lutar.

Gostava de explorar a questão da representatividade gay: em “My Baby” falas abertamente para uma mulher, por exemplo. Parecem temas tão batidos mas a verdade é que a representatividade, de facto, continua a ser quase inexistente…

Eu lido com esse assunto de uma forma natural. A minha bissexualidade em nada me atrasa nem me acelera demasiado. Não faço disso uma prioridade. Faço da minha música o que realmente ela é: a minha vida. Incrivelmente, a naturalidade das coisas transpõe-se assim, de forma simples e crua. Não quero que a minha música seja menos que transparente. Eu acredito piamente que todas as janelas de representatividade se abrem assim, ou seja, de forma espontânea. Quando tu falas de um assunto desta dimensão, é só um discurso… E muitas vezes o discurso pode ser representativo mas nunca real. Tenho plena consciência que puxo essas questões de forma libertina. Que sentido fará escreveres sobre uma mulher numa relação homossexual e cantares de forma hetero para o público? Para mim não faz nenhum. Para ti pode fazer mas não é a minha realidade. Toda a gente precisa de conforto em todos os sentidos e direcções e ser eu, para mim, é lindo.

Tiveste algumas apresentações recentes e esta semana tocas no Teatro Aveirense: como tens preparado os espectáculos, em termos de estrutura e repertório?

Vou tocar esta quinta-feira, dia 13, ao Teatro Aveirense e vou num formato de guitarra e voz. É uma cena mais intimista onde vou apresentar temas meus e as covers com mais sucesso. Para dizer a verdade, sou uma pessoa que quando está com a guitarra na mão não segue um alinhamento rígido. Normalmente fecho os olhos e será o que a alma disser. Para o próximo ano quero mesmo apresentar-me num formato com banda. Sinto que preciso de dar esse passo porque é algo que sempre almejei. Quero ser uma artista mais completa.

O que podemos esperar da Fábia Maia para este segundo semestre do ano?

Vou lançar mais três temas até ao final do ano. Para mim este ano vai ser especial porque é a primeira vez que consigo planear algo com plenitude. As coisas serão conforme o meu espírito e isso deixa-me feliz. Quero lançar temas especiais este ano para que, no próximo, consiga ter um leque de concertos para dar de forma livre. Posso dizer que vou continuar com a mesma postura que tenho tido pois quero que as pessoas me ouçam cantar e saibam que sou eu, que se lembrem de mim de forma boa. Espero que estes passos possam projectar uma carreira cuidada, longa e estável para que eu possa fazer o que gosto durante muitos anos.


Núria Rito Pinto

Núria Rito Pinto

Hip hop, r&b e brasilidades com tanta moderação quanto vontade. Fundou o clube de fãs da “Corda” do Boss AC, já comprou CDs pela capa e preferia comer douradinhos frios todos os dias do que ficar sem Spotify.
Núria Rito Pinto