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Texto: ReB Team
Fotografia: Dúbio

O fechar de um ciclo.

Fábia Maia: “Estar sozinho também é um acto de coragem”

Texto: ReB Team
Fotografia: Dúbio

Fábia Maia (em formato trio) regressa amanhã, dia 18 de Outubro, aos palcos com um concerto no Village Underground, em Lisboa, a partir das 18 horas.

A actuação marca o ponto final de uma etapa atribulada no percurso da cantora, que cedo se tornou popular no YouTube graças às versões acústicas que desenvolveu para temas de Allen Halloween, Valete ou Regula apenas com recurso a guitarra e voz. Em 2017 estreou-se nas canções originais, dentro de um registo orientado para o r&b e a pop electrónica, e chegou a cruzar-se em estúdio com Jimmy P, Cálculo, Slow J ou DJ Overule.

A promessa de um EP de apresentação surgiu apenas há um ano, quando nos deu a conhecer “#nemsei”, um quarto daquele que será Santiago. Em conversa com o Rimas e Batidas, a cantora de Barcelos confessou uma mudança nos planos, que a levou a mudar a roupagem para as músicas do seu curta-duração, a ser editado após o concerto no Village, algures em Novembro. Agora num formato mais orgânico — acompanhada por instrumentistas em vez de um só produtor, diga-se — Fábia diz ter um porto seguro na partilha do seu espaço com outros músicos. Essa segurança vai levá-la a abordar as feridas que lhe foram infligidas, permitindo-lhe encerrar um capítulo menos bom e voar novamente rumo a outras paragens.



2020 é o ano atípico pelo qual ninguém esperava. Como estão a correr as coisas para ti neste clima de distanciamento social?

O ano de 2020, para mim, foi uma questão de introspecção profunda. Eu praticamente tive em casa desde Março até agora. O Village será agora o meu único concerto neste espaço de meses. É uma coisa que me deixa triste, mas que ao mesmo tempo me deixa muito feliz porque consegui muito tempo para me perceber a mim e aquilo que eu quero. Consegui perceber também as coisas e as gavetas que eu tinha para arrumar aqui dentro. Não é uma tarefa fácil, estar sozinho. Estar sozinho também é um acto de coragem hoje em dia. E quando estás sozinho tu consegues também fazer música, porque te lembras e vais buscar ao fundo do baú coisas que diariamente não consegues fazer de forma alguma, porque estás demasiado distraído para quereres saber daquilo que tu és, de onde tu vens e para onde tu vais. E, principalmente, as coisas para mim estão a correr nessa perspectiva de perceber-me e, talvez, uma coisa mais profunda, gostar de mim e gostar de estar sozinha comigo.

Enquanto artista, deduzo que tenhas sabido colher alguns frutos para amenizar a coisa. De que forma é que o actual quadro de pandemia se traduziu nas tuas composições? Trouxe-te alguma inspiração ou tempo livre adicional para te focares na tua música?

Neste tempo, posso-te dizer que consegui encontrar espaço dentro de mim para criação. Eu posso-te dizer que compus, certamente, mais de 15 músicas, desde Março até agora. E músicas todas elas muito maduras, comparativamente àquilo que vinha a fazer até agora. É engraçado. De onde vem essa inspiração? Talvez da espiritualidade de estar só. Da meditação e da canalização de pensamentos, que foi a coisa que eu mais aprendi a fazer neste tempo. Conseguir canalizar e exteriorizar pensamentos aleatórios, que no fundo não são tão aleatórios quando tu meditas e percebes que aquilo é teu e veio contigo.

Posso dizer que não fiz mais nada neste tempo a não ser música. E cozinhar. A música passou a ser, definitivamente, o meu objectivo principal para o futuro, porque percebi que realmente é isto que me faz feliz. Quando eu trabalhava e fazia música, eu perdia-me, eu demorava imenso tempo a escrever, imenso tempo a acabar alguma coisa. Eu tinha muito pouco tempo para acabar as coisas e tinha muita criatividade para as começar. A quarentena e este estado em que vivemos trouxe-me a possibilidade de não ter pressa e não ter medo de estar sozinha. E eu, para fazer boa música, tenho de estar num estado de muita tristeza, ainda que essa tristeza não seja minha. E eu, quando estou muito triste, preciso desse tempo de solidão. Foi a melhor coisa que me aconteceu no sentido musical. Foi isto. Fiz muito mais e percebi muito mais o meu caminho agora.

Amanhã vais ao Village Underground apresentar-te ao vivo pela primeira vez desde o aparecimento do COVID-19 e em formato trio. Que impacto tem para ti o regresso aos palcos e que influência é que a presença de outros músicos a acompanharem-te trazem às tuas canções?

O maior avanço que eu fiz nestes tempos foi perceber que eu adoro, acima de tudo, a partilha que há entre músicos quando estás com eles. Ou seja, eu percebi que eu com eles, sou muito mais eu do que quando estou só. E estar com eles é o pós-tudo. É o pós-Santiago. É o caminho que eu quero seguir. Ouvi muitas vezes o The Miseducation of Lauryn Hill e pensei “se eu gosto tanto disto porque é que eu me fecho, só eu e uma guitarra, quando eu podia expandir essa guitarra para algo muito maior, se eu partilhar isto com outras pessoas, com outros músicos?” Foi isso que eu percebi. Eu apresento-me, neste momento, para o Village, com teclas, piano e guitarra. Já toquei com banda, full band, e foi das melhores coisas que me aconteceram na vida toda, porque quando tu ouves a tua música a ser tocada, seja por quem for, nem que seja para tocar contigo, é um sentimento de “eu estou a caminhar”. Depois é também o empoderamento que tu sentes por estares a fazer aquelas pessoas estarem no mesmo barco que tu. E eu precisava muito disso. Por um lado preciso muito de estar só, para criar, mas eu preciso muito de não estar só para exteriorizar. A banda significa isso para mim e acho que é uma coisa muito bonita de se fazer, partilhar.

Já faz quase um ano desde que editaste o teu último single, “#nemsei”, que levantou o véu ao teu próximo projecto, Santiago. Em que ponto se encontra este trabalho? Já tens planos para o lançar ou dar a conhecer mais um dos seus temas?

O “#nemsei” foi lançado de forma digital, porque era esse o plano a concretizar. Mas passado pouco tempo, eu percebi que eu queria voltar ao orgânico — à guitarra, às teclas, à banda — e à música de alma. Não é que eu não tivesse feito música de alma até agora, mas a minha alma não se encontrou totalmente no passado e, provavelmente, no presente, também ainda não está completa. E provavelmente no futuro também não estará, mas sinto-me muito mais perto dela quando faço as coisas de forma orgânica e o Santiago levou esse refresh. Eu vou lançar o Santiago em todas as plataformas após esse concerto no Village. E vai ser disponibilizado uma home session, um live acústico, com os meus músicos. Portanto, é uma coisa mais intimista, que tem muito mais a ver comigo, e eu percebi isso. Demorei a perceber mas percebi. Então, o Santiago vai ser libertado [e mostra um lado] muito mais meu, do que seria se fosse antes da pandemia. A pandemia, nesse sentido, ajudou-me imenso a perceber que o resultado final teria de ser este para eu me sentir mais realizada. O Santiago vai ser lançado em Novembro, terá quatro temas e falará muito dos “nãos” que eu recebi na indústria da música, das minhas mágoas e do porquê das minhas crises existenciais, que eu acho que todos os artistas passam por isso para perceber o porquê das coisas. O ter medo de ser ouvido, o ter medo de receber “nãos”. Como eu passei por isso tudo, recebi muitos “nãos” e chorei muito por pensar que o talento não existia, eu decidi fazer isto assim e será esta a forma mais viável, até porque vou exteriorizar uma coisa que me magoou durante muito tempo. Santiago são coisas que me magoaram durante muito tempo. A música, o divórcio dos meus pais, sei lá. O trabalhar muito duro para ter 600 euros ao fim do mês e poder ir para estúdio gravar e ficar com 50 euros no bolso, etc. Histórias assim. Eu tenho que deitar tudo cá para fora e curar-me disso. Vai ser um capítulo encerrado e vou iniciar outro ciclo. A coisa mais bonita é tu nunca parares.


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