Ezra Collective // You Can’t Steal My Joy

[TEXTO] Rui Miguel Abreu 

No arranque de You Can’t Steal My Joy, os Ezra Collective começam por estabelecer um groove tranquilo, a bonança antes da (ainda assim tranquila) tempestade de ritmos que se há-de seguir, e há logo aí um pequeno apontamento do trompete processado de Dylan Jones que nesse momento soa como um carro a derrapar. Percebe-se então que o colectivo está a pintar o quadro inicial da viagem que aqui se propõe: este é o som da grande cidade — Londres, pois claro… –, a noite vai alta, e numa das high streets desertas um carro entra a abrir, derrapando. O tema é “Space is The Place”, o clássico de Sun Ra, mas o que o colectivo parece realmente querer dizer-nos é que Londres é o lugar. O seu lugar.

Muito se tem escrito sobre esta nova vibração londrina (que, aliás, este ano parece querer fazer-se sentir de forma intensa no nosso país: já aplaudimos Alfa Mist no Respira! e Nubya Garcia mais Sons of Kemet em versão XL no NOS Primavera Sound e nos próximos meses uma série de eventos receberão outros nomes do jazz britânico, incluindo estes Ezra Collective que têm apresentação marcada para o Super Bock Super Rock) que parece ter recolocado o jazz em rota de colisão com as novas gerações, adoptando para isso um outro pensamento no que à gestão das apresentações ao vivo diz respeito (mais clubes e festivais exteriores ao mais hermético circuito de jazz tradicional). Talvez menos se tenha debatido sobre a eminente dimensão política de tal cena.



Quando decidem titular o seu álbum de estreia (que sucede a um par de EPs lançados em 2016 e 2017) com a assertiva frase You Can’t Steal My Joy, os Ezra Collective estão a dirigir-se ao poder, à classe política, às grandes corporações que sugam a humanidade das cidades, aos bancos e aos governos, às autoridades repressivas e à sociedade em geral que parece alhear-se das pressões da austeridade e dos abusos dos todo-poderosos retraindo-se para um casulo de torpor colectivo feito de desinformação, intolerância e desinteresse. Apesar disso tudo, garante o grupo de TJ Koleoso (baixo), Femi Koleoso (bateria), Juan Pablo (percussão), Joe Armon-Jones (piano e orgão eléctrico, Wurlitzer), James Mollison (sax tenor) e Dylan Jones (trompete), nada pode roubar-lhes a alegria. O jazz é, portanto, um acto de resistência, como na génese. Mas mais do que isso, agora, o jazz é sobretudo uma ferramenta para ancorar comunidades, para reconstruir cidades, para voltar a ligar as pessoas.

Em Make Some Space – Tuning Into Total Refreshment Centre (ed. Sweet Machine Publishing, 2019), a jornalista Emma Warren toma um dos hubs da cena londrina, o centro comunitário referido no título, como um ponto de partida para uma reflexão sobre a história recente da capital britânica, as suas dinâmicas sociais e artísticas, a importância da ideia de comunidade e a sua construção e manutenção a partir de espaços que são autênticas ilhas de energia benigna — a tal joy de que os Ezra Collective recusam abdicar — plantadas no meio de oceanos de agitadas águas corporativas. “O que acontecia nos bairros do sul de Londres”, escreve Warren, “e entre músicos espalhados por outros lados (o líder dos Ezra Collective Femi Koleoso e o seu irmão TJ são de Enfield, definitivamente a norte do rio), foi erguido a partir de uma linhagem que atravessa toda a cidade”. Essa linhagem musical, que no passado viu Londres receber músicos de jazz vindos da Jamaica, da Índia, da Nigéria ou da Etiópia, sustenta este tal presente multifacetado, vibrante e activista em que músicos como Shabaka Hutchings, Nubya Garcia, Sheila Maurice-Grey, Theon Cross, Joe Armon-Jones ou Femi Koleoso têm desenhado cumplicidades fortes, unindo-se musicalmente na construção de uma nova realidade, paralela, subterrânea, mas também sólida e sustentada em incontestável talento.



Na sua adopção das diferentes cadências do son cubano, do afrobeat, reggae ou hip hop, os Ezra Collective estão não apenas a reconhecer o seu próprio tempo como a escolher línguas com que podem falar com as comunidades emigrantes de segunda ou terceira geração que povoam uma cidade como Londres. E dessa forma impõem o seu jazz como uma música de celebração — joy, uma vez mais — que se escuta de pé, de braços no ar, que faz sentido no contexto de um festival pop sem deixar de ser música espontânea de invenção livre em que o improviso continua a ser um recurso central.

Koleoso, o líder do colectivo, explica que o single “Quest for Coin”, tema em que a sua bateria assume a dianteira, impulsionando os restantes elementos com uma cadência decididamente tropical, é sobre a sobrevivência artística na cidade: “É sobre a procura de dinheiro, mas sem perder a alma no processo… Sabes, quando não tens dinheiro para o comboio, mas apanhas o autocarro e conheces uma bonita pessoa que fala contigo por causa da tua mala do saxofone? Basicamente, vida de cidade, vida de Londres”.



Os Ezra Collective têm aliados nesta “luta”: a tranquila “Reason in Desguise” conta com a voz de Jorja Smith que assim retribui ao grupo algum trabalho de sessão efectuado a seu favor. Koleoso carrega com absoluta classe o colectivo que adorna a voz de Smith com pura seda. O pulsar aproxima-se mais do hip hop quando o rapper Loyle Carner entra em cena para debitar em “What Am I To Do” uma história urbana, feita de noite e de dinâmicas interpessoais, enquanto os Ezra Collective rumam à era em que o jazz era ácido e os clubes vibravam com colectivos como Galliano ou Incognito. Percebe-se que tanto Jorja como Loyle fazem o possível por não ocupar o centro, preferindo performances mais “suaves”, com letras algo genéricas, de forma a que as suas vozes sejam quase como mais dois instrumentos no meio da efusiva equação proposta pelos Ezra Collective.

Todos os músicos deste grupo são sólidos executantes, com os sopros de Mollison e Jones a assumirem a dianteira melódica enquanto Armon-Jones pinta estes retratos de pulsar urbano com uma densa base harmónica (brilhando especialmente em “Philosopher II”, num lírico discurso no piano acústico), deixando a secção rítmica livre para definir o tom do álbum, uma viagem por ritmos e cadências que procuram conversar com as comunidades, ligar-se às suas fundas identidades culturais e assim convocá-las para um presente que não tem que ser desligado, desprovido de um sentir comum. Não é uma nação sob uma batida, é antes uma cidade plural que balança entre múltiplos ritmos, cada um com a sua história, cada um com a sua própria memória de um lugar, mas todos ligados num grupo em que apelidos como Koleoso, Pablo ou Jones são, afinal de contas, indicativos de diferentes experiências que são possíveis de combinar, de harmonizar, erguendo algo de novo. É daí que vem a joy que ninguém pode roubar.


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu

Latest posts by Rui Miguel Abreu (see all)