Expensive Soul na Altice Arena: uma grande mostra de alma cara

[TEXTO] João Daniel Marques [FOTOS] Beatriz Santos

O que se passou este fim-de-semana no Parque das Nações foi um marco na agenda da música portuguesa em 2019. Não é para menos: não é todos os dias que vemos uma banda chegar aos 20 anos de carreira, muito menos se nos cingirmos àqueles que estão associados ao hip hop nacional.

Já se sabia que não seria um concerto de rap normal — até porque os Expensive Soul nunca foram propriamente um grupo convencional nesse sentido: foi um espectáculo com cerca de 30 pessoas em palco, desde a orquestra de sopros ao coro de gospel, sem esquecer a tradução em tempo real para língua gestual, que deu bastante trabalho a quem teve que dobrar as rimas de Demo. Foi isso que se viu numa Altice Arena, que esteve longe de estar cheia, mas que nem assim afectou o impacto das canções na plateia, que tinha de tudo, casais mais velhos, famílias e até alguns grupos de adolescentes.

Mas o espectáculo começou sem grandes nostalgias. Esta não era uma ocasião para um best of, daqueles previsíveis e em ordem cronológica, nada disso. Quando se celebram 20 anos de carreira pode-se fazer o que quiser, e por isso mesmo o concerto começou com alguns dos êxitos mais recentes, as pérolas dos primeiros 10 anos ficaram guardadas para serem escutadas mais lá para a frente. Quem abriu o palco até nem foi a banda, mas sim os campeões mundiais de breakdance – Momentum Crew – com um número de b-boying que é capaz de galvanizar o maior pé-de-chumbo da sala, abrindo espaço da melhor maneira para a entrada de Demo e New Max. E logo aí matavam-se dois coelhos de uma cajadada com um medley de “Cupido” e “Dou-te Nada”. Estavam feitas as primeiras impressões e despachados alguns dos temas que todos conhecem, mas que não são realmente a razão para se sair de casa. Por outras palavras, foi um óptimo aquecimento.

Aqui começou toda uma segunda etapa do concerto, entrando numa onda mais para fãs com uma viagem mais profunda à discografia. E foi aí que começou o espectáculo. De um solo de saxofone migramos, sem saber muito bem como, para um concerto instrumental, com a orquestra a subir ao palco, permitindo depois a intromissão de Demo e New Max (que pegou numa guitarra).

Uma percurso tão longo criou uma base de fãs que permitem brincadeiras como a que aconteceu em “1 Dia De Cada Vez”. O tema é do novo álbum e não toca na rádio, mas, com a ajuda de New Max, todos cantaram o refrão, que foi também acompanhado pelo Saint Dominic’s Gospel Choir – um coro português que levou cerca de 20 pessoas ao palco –, que iam e voltavam consoante o que as músicas pediam.

Mas as emoções são passageiras neste tipo de espectáculo e dali demos um salto. Demo chamou pelas “meninas” na plateia e convidou todos os presentes a “abanar o rabo” ao som de “Limbo”. Depois houve tempo para uma dedicatória pessoal, a um amigo na plateia, ao ritmo de “O Tempo Passa”, “um dos primeiros sons que fizemos para o B.I.“.



Mas são performances como a de “Não és De Ninguém” que fizeram realmente valer a pena estar na Altice Arena no sábado à noite — e é, sem sombra de dúvida, um dos temas que resulta melhor ao vivo. A simplicidade do instrumental e o carácter mais romântico deixam perceber cada um dos instrumentos, da percussão à enorme secção de sopros, mas também cada palavra que sai da boca de Demo e New Max — um belo momento para alguns casais na plateia dançarem agarradinhos. A banda bem podia lá ter ficado para domingo e tocar com André Rieu — outra prova disso mesmo foi o tema “Só Pr’a Te Ver”, o momento Jethro Tull da noite com direito a solo de flauta.

Outro dos acontecimentos mais fortes da noite foi “Que Saudade”. New Max voltou a pegar na guitarra, assumiu a ponta do palco e fez toda a gente ligar os telemóveis ao som da sua voz. No fim levaram uma foto da Altice Arena iluminada de pequenas lanternas para Leça da Palmeira. Acontecia aí a entrada na fase final.

E aí entravam duas das canções mais desejadas: “Falas Disso” entrou quase irreconhecível numa adaptação para os sopros e trouxe de volta a Momentum Crew; “13 Mulheres” foi das que gerou mais reacção do público, que cantou e saltou ao ouvir um dos temas que marcou uma geração.

“Amar é Que é Preciso” anunciava o final, mas seria “O Amor É Mágico”, no encore, que definiria o tom até ao final. New Max voltaram ao palco para agradecer a quem estava a ver e aos músicos e tocar o que faltava. Voltou-se atrás três vezes para cantar em uníssono que “Leça da Palmeira era a terra mais bonita de Portugal”. E valeu a pena para ver pais e filhos, lado a lado, cantar “eu não sei se vou ficar bem assim”, parte da letra de “Eu Não Sei”, aquele que é provavelmente o maior hino da discografia da banda.

A música de Expensive Soul ganha outra dimensão num concerto destas proporções, com a orquestra a fazer vir ao de cima a soul mais “cara” que há em Portugal. Os trompetes e saxofones, que podem passar despercebidos na produção em disco, ganham destaque em concerto ao vivo assumindo um papel mais de destaque que a simples melodia.

Esta foi uma viagem a 20 anos de carreira que reflecte muito bem os caminhos por onde os ES andaram. Uma banda que, entre festivais e concertos com orquestra, já tinha feito de tudo, menos a Altice Arena. Foi um espectáculo de música, dança e até teve direito a um pouco de teatro. No fim, não houve ninguém que tenha saído dali sem um sorriso na cara.


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