Excentricidade, desventuras e honestidade: 7 discos que merecem a vossa atenção

[TEXTO] Miguel Alexandre [FOTO] Mario Kristian

Nos últimos anos, a Internet consolidou-se como um óbvio lugar-comum. Longe vai o tempo em que se escolhia uma música ou um álbum principalmente através de um exemplar físico escondido no fundo de uma loja de discos, ou repetida vezes e vezes sem conta por alguém numa estação de rádio. A descoberta nos dias de hoje quebrou o paralelismo de gerações passadas e permitiu, ao mesmo tempo, a evolução – salvo seja – de certos géneros. Como em grande parte dos lugares-comuns, também existe um certo aspecto mimético, pois certamente que se habilita a assimilar produções passadas e a reproduzi-las para um novo zeitgeist, com parâmetros e esquemas geracionais. Por exemplo, o Auto-Tune não é de todo um mecanismo moderno, mas repetido e usado exacerbadamente com a mudança do milénio.

E assim, progressivamente, esta década parece focar-se mais em ritmos gravativos, produções melódicas e híbridos de géneros. Chegamos assim ao EDM (Electronic Dance Music), que tem preenchido grande parte das entradas nas tabelas mundiais. Aqui, Kygo, Marshmello, Zed, Calvin Harris e The Chainsmokers dominam este território: apelam a uma demografia jovem, rondando os mesmos temas, como também o mesmo uso de drum machines, mixers e turntables. Apesar da fraca recepção por parte da crítica, todos estes artistas tiveram hits estrondosos nos últimos cinco anos. No entanto, há uma sombra por detrás deste sucesso. Segundo a plataforma Medium, o aparecimento deste género poderá justificar-se pelo lucro adjacente que grandes conglomerados procuram cada vez mais: “Por detrás de um artista EDM, há uma equipa de homens de negócio à espera de fazer uma fortuna com o género. Organizadores de eventos, promotores e representantes de festivais de música e residências em discotecas gerem a dinâmica de como são distribuídos os lucros. Os bilhetes para o Electric Daisy Carnival, Tomorrowland ou Ultra Music Festival são superiores aos de outros festivais musicais”, afirma.

Por outro lado, o hip hop segue um caminho um pouco difuso. Há grandes nomes a encherem estádios e a venderem discos hoje em dia – Kendrick Lamar, Drake, Travis Scott são os mais fáceis de nomear –, mas ao mesmo tempo há nomes que ganham uma fama mais escondida e que recebem certa aclamação, como Earl Sweatshirt, Denzel Curry, Tyler, The Creator, e Pusha T. Estes dois lados aliam-se ao que se pede do género: uma reflexão mais aprofundada, diarística e que estabilize a pressão política e social que se vive actualmente, como também uma imagem camuflada, que se assemelhe a uma nova cultura cada vez mais ligada ao online. Há quem defenda que o hip hop esteja a passar por uma fase negativa, perdendo qualidade com o passar dos anos. E, pelo contrário, há quem defenda que a sua urgência é tão relevante como a das suas origens. Não posso concordar com os dois lados – uma vez que não é o propósito deste texto.

Posso, contudo, limitar-me aos factos e proporcionar uma leitura mais objectiva e empírica do panorama actual destes dois géneros em particular. Posso afirmar que, segundo esta abordagem, todos os grandes artistas que mencionei são masculinos. Posso também referir, de acordo com a Forbes, que desde 2012 até à actualidade, entre as 700 músicas mais tocadas na Billboard, as mulheres representam só 21% dos artistas, 12% dos compositores e 2% dos produtores. A mesma publicação alude ainda mais o longo caminho que ainda falta percorrer no que diz respeito à igualdade de género na indústria musical: cerca de 39% das compositoras entrevistadas admitiram terem sido vítimas de assédio sexual no trabalho e um terço reforça o papel predominantemente masculino nos estúdios de gravação.

Felizmente, estas estatísticas não influenciam na totalidade a qualidade de música que certas mulheres criam e lançam. Grande parte não tem uma exposição evidente no mercado, ou um hit nº1 nas tabelas; podem ainda ser subjugadas dentro de um género a transpirar testosterona, ou até mesmo presas à mão artística de outras pessoas. Seja qual for a história, o Rimas e Batidas reúne uma lista de performers, compositoras e produtoras que lançaram trabalhos impressionantes em 2019 e, não estando automaticamente sob as luzes dos holofotes, merecem mais atenção.


[Lizzo] Cuz I Love You

Ouvir a música de Lizzo é praticamente o equivalente a levar uma injecção directa de serotina. Como uma mulher afro-americana, a rapper tem plena consciência de que vivemos em tempos turbulentos, o que, no entanto, serve de justificação para pregar amor-próprio e auto-confiança. Segundo a mesma, uma revolução começa no interior de cada um, passando claramente pelas demografias que mais se sentem injustiçadas pela sociedade e que foram resilientes durante décadas. No mundo de Lizzo, cada dia é uma festa, mas uma em que precisamos de estar conscientes do que estamos a fazer e de não nos esquecermos do que aconteceu na manhã seguinte.

Soa a: se a Missy Elliot tivesse o seu grande surgimento nesta década e tivesse consumido referências pop .


[Jamila Woods] LEGACY! LEGACY!

“She’s telepathic/ Call It black girl magic”, cantou em 2015; “I may be small, I may speak soft/ But you can see the change in the water”, canta agora em “Zora”, o excelente primeiro single deste novo álbum. Para Woods, cada dia é uma batalha e só a união trará a vitória, a paz e a liberdade. As referências históricas continuam a brilhar neste novo trabalho; contudo, o aspecto mais cintilante e translucido é a precisão e a ousadia colocada na sua voz. Há uma análise aprofundada do ensaio How It Feels to Be Colored Me, de Zora Neale, e é neste contexto social que sua voz pesa tanto como as milhões de vozes que ousaram ripostar. De uma maneira resumida: é intemporal.

Soa a: filha rebelde (mas esperta) de Erykah Badu.


[Rico Nasty & Kenny Beats] Anger Management

A capacidade de se ser assertivo e de aprofundar ao mesmo tempo a raiva dentro de cada um é uma tarefa difícil, especialmente para mulheres negras no hip hop, que são bombardeadas com comentários sobre a “atitude” delas ou são acusadas de serem falsas pela falta de originalidade na manobra. Mas dentro da necessidade de reclamar o seu lugar neste género, Rico Nasty afirma que “the expression of anger is a form of rejuvenation”. Em vez de suavizar a sua mensagem para uma audiência mais ampla, a carreira de Rico tem sido feita com honestidade, nunca escondendo o que sente em relação a ela mesma e às pessoas que a rodeiam. Esta jornada não é linear, pois propõe também que a nossa efervescência interna seja explorada a fim de nos sentirmos livres. Rico cria um espaço em que cada mulher pode praguejar à vontade.

Soa a: uma excelente e moderna interpolação de “I Don’t Give a Fuck” das Boss.


[Spellling] Mazy Fly

Tia Cabral, o nome de nascimento, disse certa vez que queria fazer música para a bruxa que existe dentro de cada um de nós. A verdade é que não é difícil de perceber este conceito: Mazy Fly é composto maioritariamente por ritmos atmosféricos ligados a um ambiente geral fantasmagórico e abstracto. É comum a mudança de batidas compostas por um synth minimal para uma abordagem mais abrasiva e quase apocalíptica. As influências funcionam como uma lista de referências realizada em LSD: rodeios góticos, carrosséis, maquilhagem de palhaços, um livro de feitiços, The Knife, Massive Attack; há também espaço para Whitney Houston, Michael Jackson e Roald Dahl. Há tudo e mais alguma coisa e é esta mistura complexa que a torna numa artista tão peculiar e arrepiante. Quando se entra na casa assombrada de Cabral, sai-se de lá mais macabro, sim – mas também a dançar.

Soa a: música de Halloween, mas que tem uma batida dançante.


[Kelsey Lu] Blood

Este disco de estreia abre-se com um preâmbulo de violino de meio minuto, e rapidamente a música encaixa-se neste ambiente mais introspectivo e taciturno. Em certos momentos, Lu combate-se a ela própria em vocais dispersos e atmosféricos, mas em grande parte encontramo-la simplesmente sozinha, se não contarmos com pequenos violoncelos que acompanham a dor que pretende explorar neste álbum. Há uma ressonância de despedida, mas também de superação. O pathos é irrefutável, indomável e somente dela.

Soa a: se a Lana Del Rey cantasse música ambient r&b.


[Kedr Livanskiy] Your Need 

Kedr Livanskiy é uma produtora e DJ russa que tem tido uma exposição pouco evidente neste lado do muro. Tal facto poderá mudar com este novo registo: Your Need, editado há pouquíssimas semanas, é possivelmente o trabalho mais cativante da artista, composto na sua maioria por ganchos vocais arejados e breakdowns inspirados nos clubes de dança dos anos 80 e 90. Aqui segue-se a linha de pensamento clássica dos New Order, mas abre caminho para uma produção latejante, harmoniosa e atraente que dá para encher discotecas ou, se preferirem, desfiles de moda.

Soa a: uma alucinação psicotrópica às três da manhã no Studio 54.


[Ari Lennox] Shea Butter Baby

Tal como em Lizzo, a música de Lennox vai de mão dada com a relação que temos com nós próprios. No entanto, há uma pequena diferenciação no que diz respeito à passagem temporal: Ari sabe que o self-love é uma questão de tempo que não deve ser acelerada ou forçada, que cada pessoa tem o seu próprio ritmo e que não o devemos impor a mais ninguém. Neste primeiro álbum, fala-se em arrependimentos passados, relações passadas e pensos para remediar, mas não há pressas, até porque o tempo, como se costuma dizer, é cura para todos os males. “If your soul is beautiful then who cares?”, canta-nos. A teoria das dez mil horas é uma farsa e não é assim tão útil para a nossa auto-ajuda, servindo apenas para justificar o enquadramento de tantas emoções dentro de um panorama mais contemporâneo. A humanidade é inata. O talento é bonito. Mas o treino é essencial.

Soa a: um cruzamento entre Jill Scott, Jazmine Sullivan e D’Angelo.

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