Évora Urban Village’19 – 20 e 21 de Setembro: ritmo, amor e poesia numa cidade do mundo

[TEXTO] Miguel Ribeiro [FOTOS] Direitos Reservados

Chegou ontem ao final a primeira edição do Évora Urban Village, um festival diferente num local diferente, que quer por o universo a dançar. Um par de pernas de cada vez. Foram quatro dias de workshops e debates, de espectáculos de dança, DJs e músicos que procuraram cimentar a ligação que, por estranho que possa parecer, tarda em ser cimentada destes dois mundos supostamente tão ligados: o mundo de quem dança e o de quem faz música para dançar.

Com colectivos de dança de classe internacional como a Momentum Crew, RP Dancers ou Mega Sparks, com arte de Robot, um writer que assinou uma exótica explosão de cor num painel montado em plena Praça do Giraldo, um espectáculo que combinou spoken word, rap crioulo e ilustração ao vivo a cargo de António Jorge Gonçalves e LBC Soldjah, o belíssimo Válvula, e ainda concertos de Stereossauro, Virgul, Criolo e Blaya, mais DJ set de Shaka Lion para derradeiro ponto final, este foi sem dúvida um promissor arranque para o Évora Urban Village, mais um argumento de peso no dossier de candidatura desta cidade a Capital Europeia da Cultura.

Na sexta-feira, depois de uma concorrida tarde de workshops no espaço Inatel, a Mata do Jardim Público engalanou-se com um belo arranjo de iluminação que transformou árvores e demais vegetação num agradável e quase mágico labirinto de cores em que todos se queriam perder. Com dois palcos bem situados, para a dança e música, este provou ser um espaço carregado de potencial para um evento desta natureza. Infelizmente, a ameaça de chuva, que se confirmou aliás sentir no final da noite, obrigou a mudança do programa de ontem para a Arena d’Évora.

Mas foi mesmo na Mata do Jardim Público que Stereossauro apresentou o seu Bairro da Ponte. Secundado pelo baterista Nuno Oliveira e pelo baixista Bruno Fiandeiro e ainda pelo seu inseparável irmão de armas DJ Ride, o produtor e DJ viajou pelos mais relevantes momentos do seu mais recente álbum, mostrando-nos os temas que contam com prestações de grandes vozes como Ana Moura, Paulo de Carvalho, Gisela João ou Camané e NBC. E embora as presenças desses artistas se limitassem ao vídeo, a verdade é que a capacidade do quarteto se combinar em arranjos tão orgânicos acabou por ser mais do que recompensadora. Aplausos mais do que justos no final.



Com banda dilatada e quatro incríveis bailarinas em palco, Virgul mostrou os seus hits mais recentes e os de sempre, de “I Need This Girl” a “Difícil Demais”, mas, sem dúvida, o momento alto da sua viagem foi o medley que dedicou à banda que tratou até de invocar na t-shirt que exibiu durante a sua prestação, os Da Weasel. O grupo de que se anunciou o regresso por uma noite apenas em 2020 — para o festival NOS Alive — foi revisitado com um momento intenso que foi de “todagente” a “Re-Tratamento” fazendo antever uma prestação histórica dentro de 11 meses. A contagem decrescente já corre…

Ontem foi dia de Criolo e Blaya, já no abrigado espaço da Arena d’Évora que se revelou também bastante apropriado para receber as crews de dança, sempre animadas pelo host Fábio KRZE.

O MC brasileiro foi explosivo. A passagem da digressão Boca do Lobo por Évora foi agarrada com máximo entusiasmo pelo homem de Espiral de Ilusão que ao seu lado tinha Daniel Ganjaman, seu produtor e director musical, e ainda DJ DanDan nos pratos e vozes, Bruno Buarque na bateria e Dudinha no baixo. Criolo não se cansou se usar a sua apresentação como para a repetição exaustiva de uma urgente mensagem de resistência, positivismo e amor através da sua aguda poesia: “o ódio não vai ser maior do que o amor que todos vocês sentem”, assegurou. “Estão a matar a juventude negra e LGBTQ+ no Brasil. É necessário amor, mas não o amor de romance. Hoje não romance aqui”. Não teve de facto, mas houve lugar a uma música enérgica, que se desenrola pelo hip hop, pelo funk escola James Brown, pelo reggae e até se espraia a ritmos mais “discotecáveis” como o house, com a banda a mostrar-se ultra coesa e fluída.

“Só o amor pode transformar, não fique em silêncio”, disse o Criolo nada doido ao público que não se cansou de ampliar em coro as suas palavras. E a dada altura, num solene momento, desenredou-se uma faixa que nos coloca a todos do lado que importa desta barricada: “Our fight your fight”, podia ler-se. “O Brasil precisa de ajuda”, apelou também Criolo, enquanto o seu DJ erguia a bandeira do Movimento dos Sem Terra, ligando também este concerto à luta contra a desflorestação da Amazónia: “A Amazónia arde porque alguém lhe anda a tocar fogo. Temos um ministro da justiça que não sabe o que é justiça, um ministro do ambiente que não sabe o que é ambiente. O Brasil precisa de ser salvo”. E a música poderá dar uma preciosa ajuda, claro, se tiver sempre a força de temas como “Não Existe Amor em SP” ou “Boca de Lobo”.

A noite ainda se fez de mais dança — outra forma de mudar o mundo, já que na pista somos todos iguais – e das prestações enérgicas de Blaya e de Shaka Lion. No ar ficou a certeza: o Évora Urban Village tem pernas para andar. Ou melhor, para dançar. Na única direcção que importa: a do futuro.


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