Pontos-de-Vista

Gonçalo Oliveira

Twitter

oleoveira

pub

A crónica de um amor que se diluiu no espetáculo do ódio.

Eu não quero ir ver o Kanye West no Estádio do Algarve

Há um bilhete que não vou comprar. Não por falta de dinheiro, nem por rejeição a um dos legados mais importantes da história da música. Não vou comprar, tal como não aceito um convite para entrar sem pagar. Não vou, pura e simplesmente porque o amor desvaneceu. Não vou, porque sinto que ir é estar contra uma série de princípios dos quais não abdico. Não vou, porque não quero experienciar um potencial cenário de estar rodeado de pessoas que aprovam o mesmo tipo de comportamentos que considero serem linhas vermelhas no meu ideal de uma sociedade plenamente justa e equitativa. Não tenho interesse em ir ver Kanye West atuar ao vivo no Estádio do Algarve, por mais marcante que isso possa ser do ponto de vista cultural.

E o mais estranho é que esta posição não parte sequer de uma decisão. Não houve momento de ponderação, não houve lista de prós e contras, não houve uma madrugada inteira em branco a pensar para com os meus botões se devia ou não comprar o bilhete. O afastamento foi acontecendo de forma tão silenciosa e tão natural que, quando dei por ele, já se tinha consumado — tal e qual como quando percebemos que já não ligamos há meses àquele amigo que, afinal, não ocupava um espaço assim tão significativo no nosso coração. Em vez de “consigo ir?”, a pergunta foi antes “porque iria?”



Durante anos, Kanye West — hoje Ye — foi para muitos de nós uma espécie de bússola. The College Dropout, em 2004, chegou como uma lufada de ar fresco num hip hop dominado por uma certa ideia de masculinidade que ele recusava encarnar — era um disco sobre ambição, insegurança e classe média negra, temas que o género raramente tocava com aquela franqueza. Late Registration, em 2005, expandiu essa visão com uma produção orquestral densa e letras ainda mais afiadas, consolidando a ideia de que havia aqui um talento fora do comum e que extravasava a ideia de um produtor confinado ao uso de um sampler apenas. Graduation, em 2007, foi a viragem para algo mais grandioso, eletrónico e até pop; menos confessional mas igualmente coerente, capaz de apontar aos grandes estádios sem perder a inteligência.

Depois veio 808s & Heartbreak, em 2008, e com ele uma mudança que na altura desconcertou muitos dos ouvintes. Gravado após a morte da mãe e o fim de um noivado, era um disco de luto desnudado, pioneiro na utilização do autotune e mais próximo da electrónica europeia do que do hip hop que o tornara famoso. Não foi imediatamente reconhecido por todos, mas o tempo tratou-o bem e hoje reconhece-se nele uma influência enorme sobre toda uma geração de artistas que lhe sucederam. My Beautiful Dark Twisted Fantasy, em 2010, foi talvez o pico. Uma obra-prima de grandiosidade controlada, um disco que sabia exactamente o que queria ser e o era com uma precisão desconcertante — ambicioso, autocrítico, excessivo de forma deliberada e genial. Yeezus, em 2013, foi o oposto estético: cru, industrial, provocatório; um disco que parecia querer expulsar os ouvintes menos comprometidos. Divisivo na altura, hoje é visto por muitos como uma das suas obras mais corajosas. Já The Life of Pablo, em 2016, foi um sinal de que algo estava a mudar — lançado de forma caótica, alterado depois de disponibilizado ao público, com momentos de génio dispersos por uma estrutura que parecia inacabada.

Ainda no início do percurso em declínio que lhe sucedeu, Kids See Ghosts, a colaboração com Kid Cudi em 2018, trouxe uma gota de esperança e foi talvez o último momento em que o escutei com plena entrega. Havia ali uma vulnerabilidade que tornava a escuta íntima e a presença de Cudi trazia-lhe um equilíbrio que sozinho parecia já não conseguir manter. Depois disso, o desmoronamento: Jesus Is King, em 2019, teve uma coerência interna que alguns valorizaram, mas foi também o início de uma grandiosidade de outra natureza — não artística, mas messiânica. Donda, em 2021, chegou após meses de lançamentos adiados e sessões de escuta transformadas em espetáculo, com 27 faixas que pediam para ser um álbum de 10. A visão estava turva. E os volumes de Vultures, em parceria com Ty Dolla $ign, vieram confirmar o que já era difícil de negar: o artista que durante anos soube exatamente o que queria dizer tinha perdido o fio à meada.

A ideia de poder regressar a esses discos da prime era de Kanye já não provoca saudades. Reconheço-lhes o génio, mas já não me convocam. E quando percebi isso, percebi também que a questão do concerto estava respondida antes sequer de ponderar. O declínio artístico e o colapso moral não são fenómenos separados, mas sim parte da mesma trajetória.



O problema com a teoria de separar a arte do artista é que funciona melhor como exercício intelectual do que como experiência vivida. Na prática, a música não existe num vácuo — existe na voz de quem a canta, no corpo de quem a criou, na história que entretanto ficámos a saber. E quando essa história muda, a escuta muda com ela. Não fui o primeiro a passar por isto, e certamente não serei o último.

Durante décadas, Michael Jackson foi, para muita gente, banda sonora de infância. Thriller, Off the Wall, Bad… Discos que deixaram profundas marcas quer no público, quer na indústria. Para muitos, são sinónimos de memórias associadas a momentos específicos. E quando o documentário Leaving Neverland chegou, em 2019, com os testemunhos de Wade Robson e James Safechuck, partiu-se um elo com muitos ouvintes. Relatando a experiência na primeira pessoa: nem sequer foi uma decisão, apenas uma perda automática. De repente, as músicas tinham outra voz por baixo de cada vez que as ouvíamos. Um afastamento consequente de uma revelação que tornou impossível não pensar no que existia além do som.

Com R. Kelly passou-se algo semelhante, embora com uma diferença importante: as acusações existiam há décadas, tratadas como rumor de tablóide, enquanto a música continuava a tocar nas rádios, nas televisões e nos clubes. Surviving R. Kelly, documentário também de 2019, não revelou factos novos, mas fez entornar o caldo relativamente a um fingimento colectivo que até então nos permitia fazer de conta que não sabíamos o que sabíamos. É um tipo de cumplicidade retroactiva que desconforta, pois já nem é apenas o artista a ficar mal na fotografia.

Chris Brown é um caso de outra natureza, e talvez o mais revelador sobre a forma como a indústria e o público lidam com estas questões. O momento de ruptura foi instantâneo, violento e indesculpável — a agressão a Rihanna em 2009, documentada numa fotografia que correu o mundo. E no entanto, quinze anos depois, a carreira continua, os discos vendem, as digressões enchem salas. O debate sobre separar a música do homem arrasta-se sem resolução, e o simples facto de ele se arrastar pode dizer muito sobre nós — sobre a nossa disposição para medir quando o talento se sobrepõe às más práticas ou quando a vítima não é suficientemente simpática aos nossos olhos.

XXXTentacion é talvez o caso mais perturbante, até porque nem chegou a ter uma resolução. Morreu em 2018, com acusações graves de violência doméstica ainda em tribunal, deixando uma legião de fãs que o venera quase como mártir e uma obra que não pode ser julgada precisamente porque esse desfecho nunca chegou a acontecer.



O que estes casos têm em comum não é o tipo de transgressão, pois são muito diferentes entre si. O que partilham é o mecanismo de como as respectivas obras ressoam dentro de nós: a informação contamina a experiência. E vivemos numa época em que a informação é inevitável, em que os artistas existem nas redes sociais em tempo real e em que já não há a distância que as gerações anteriores tinham entre a obra e quem a cria. Bob Dylan, por exemplo, podia ser enigmático porque os meios de comunicação disponíveis na altura assim o permitiam. Hoje, Ye publica uma declaração antissemita ou aparece publicamente com uma t-shirt com uma mensagem de ódio e está a gerar notificações dentro do nosso bolso sem necessitarmos sequer de uma subscrição a algo.

O apoio declarado a Donald Trump, líder norte-americano que apela à paz através da guerra, foi repetido vezes sem conta e é mais um capítulo de uma figura que foi construindo, peça a peça, um retrato de si própria que já não tem muito que ver com o artista de quem um dia gostámos. Depois, a relação com Bianca Censori: não há vez em que o casal surja junto sem dar a sensação de que a australiana não é mais do que uma mulher-troféu nas mãos de Kanye — uma “boneca” que se veste como ele quer, fala se ele permitir e que vê a sua intimidade muitas vezes explorada por alguém numa posição de poder.

No passado dia 26 de Janeiro, Ye partilhou uma carta aberta através das páginas do The Wall Street Journal a pedir desculpa por todo o ódio que vinha a espalhar. Se o ceticismo fez com que aquelas palavras se perdessem rapidamente no éter ao passar pelos olhos de muita gente, as semanas seguintes serviram de bofetada para aqueles que ainda pudessem estar na dúvida. Não há aqui coincidência nenhuma: o “arrependimento” nada mais era do que uma tentativa de tentar limpar o cadastro e ser o mais bem sucedido possível na promoção de uma nova digressão mundial, que agora juntou Portugal ao seu roteiro.

O rapper e produtor de Chicago esticou a corda vezes sem conta e a hipervisibilidade tornou o dilema inevitável. E fingir que conseguimos sempre separar a obra do artista é, na maior parte dos casos, uma forma de não querermos perder algo de que gostamos. No pior cenário, é mesmo sinal de que compactuamos com todos esses comportamentos obscenos que o estrelato vai tentando ofuscar.

E no caso específico que despoletou esta reflexão: ir a um concerto não é o mesmo que ouvir um álbum sozinho em casa. É um acto colectivo, em que se partilha um espaço, uma energia, uma cumplicidade com dezenas de milhares de outras pessoas. E isso levanta uma pergunta inevitável: o que é que estaríamos a celebrar juntos? Não cremos que todos os que compram bilhetes para ver Ye partilham as suas visões. Não será, certamente, possível. Mas há qualquer coisa no ritual do concerto, na dimensão de validação colectiva que ele implica, que causa um desconforto muitas vezes superior ao que seria ouvir um disco de Kanye em casa. Um bilhete comprado é também um sinal enviado — à indústria, aos promotores, aos nossos colegas de profissão, ao espaço que acolhe o evento e até ao próprio artista — sobre o que consideramos tolerável.


pub

Últimos da categoria: Pontos-de-Vista

RBTV

Últimos artigos