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Fotografia: Direitos Reservados

Explorar é a palavra de ordem.

[Estreia] Slick Menace libertam-se de formatações e convenções em Path to Desire

Fotografia: Direitos Reservados

Acontece frequentemente encontramos discos que não sabemos em que “prateleira” arrumar. A falta de barreiras estilísticas, ou a variedade de influências, tira-nos a capacidade de discernir com objectividade onde pertencem determinados projectos. Path to Desire encaixa no hip hop? Sim, mas tem uma dimensão lenta e instrumental diferente. Encaixa no downtempo? Talvez, mas há aqui alguma tensão e agressividade doutras paragens. É electrónica? É tudo isto e mais algumas coisas.

O novo trabalho de João Morado e Rafael Santos, que assinam como Slick Menace enquanto dupla, vê os fundadores da WAY OUT Records a pisar novos terrenos. O passado é marcado pelo metal, entre o doom e o stoner, no qual a instrumentação é mais monocromática, se assim a pudermos descrever – e essa influência sente-se particularmente em “The Menace”. A distância obrigou os dois músicos a explorar novas opções, levando-os ao vasto mundo de possibilidades que o digital tem para oferecer. Embora inicialmente circunscritos a estilos mais pesados, as influências de João e Rafael vão da música erudita ao metal, do trip-hop ao rockabilly, do hip hop ao jazz, e esta bagagem diversa não passa despercebida no EP.

A vertente de beatmaking é a identidade por que se rege Path to Desire, seja por meio de 808s ou de samples de bateria acústica. A “dimensão épica e a intensidade trágica” justapõem-se num percurso de música instrumental lúcida que capta elementos duma pesquisa sónica abrangente, mas focada.

Ao Rimas e Batidas, o duo contou o processo criativo que os colocou no Path to Desire e o background que influencia este novo trabalho.



O que está por trás de Path to Desire? Qual é este desejo que levou à realização do EP?

Path to Desire nasceu, principalmente, do desejo de nos libertarmos da formatação criativa a que tínhamos sido sujeitos durante os últimos anos e de rompermos com certas convenções estilísticas que inconscientemente tínhamos vindo a absorver. Com esta premissa em mente, quando a ideia de começar este projecto surgiu, ambos concordámos que seria a altura certa para nos desafiarmos a explorar novas sonoridades, estruturas rítmicas e dinâmicas musicais com as quais nos identificávamos, mas que, até então, tinham tido pouca ou nenhuma relevância na música que criávamos. Para além disso, ambos estávamos numa fase em que partilhávamos muita música clássica e orquestral um com o outro, o que acabou por influenciar bastante a paisagem sonora que quisemos imprimir neste registo, assim como as ligações entre os diferentes motivos que compõem o EP. A Sinfonia no. 1 de Sibelius, por exemplo, influenciou muito a dimensão épica e a intensidade trágica que quisemos dar à composição pois, à semelhança de Path to Desire, apesar de acabar em tom menor, transmite uma mensagem de esperança. Acabou, então, por haver uma ligação muito forte entre as ideias que partilhávamos e o formato final que queríamos produzir enquanto músicos e criadores. Por fim, achámos que a forma mais natural de implementar estes impulsos criativos seria exportá-los para a nossa sonoridade pessoal, marcadamente mais moderna e urbana, e que advém de toda a experiência e diversidade musical que fomos acumulando ao longo dos anos. Em suma, estas acabaram por ser as principais forças e estímulos que levaram à realização deste EP.

Falem-nos um pouco sobre o vosso passado na música. Já tinham trabalhado juntos?

Sim, já tínhamos trabalhado em conjunto, quer como banda quer em projectos de produção de áudio. O interessante da nossa relação é que muito antes de termos começado a criar música juntos já tínhamos desenvolvido uma amizade. Conhecemo-nos em 2004, com 12 anos, pois frequentávamos a mesma escola e pertencíamos à mesma turma. Para além disso, sempre tivemos interesses muito próximos, incluindo a nossa paixão pela música e o facto de ambos já tocarmos guitarra nessa altura. Estes factores acabaram por ser as forças motrizes que levaram a que começássemos a tocar juntos e a aprender musicalmente um com o outro. Mais tarde, em 2012, influenciados por uma adolescência a ouvir bandas como Mastodon, Buzzoven, Sleep, Electric Wizard e Russian Circles, criamos Trepanation, o nosso primeiro projecto de originais. Era um duo cru e pesado, onde tocávamos guitarra e bateria alternadamente. A nossa música era fortemente adornada por distorções sujas, sonoridades fuzz e delays psicadélicos. Mais do que um projecto onde procurávamos a sonoridade ideal ou a perfeição técnica, Trepanation era um grito onde vocalizávamos e afirmávamos que estávamos vivos e queríamos ser ouvidos. A banda acabou por terminar em 2015: um de nós [João Morado] emigrou para fazer ciência no estrangeiro, o que impossibilitou que continuássemos a ensaiar e a realizar concertos. Esse foi um momento de viragem no nosso percurso musical, pois levou a que nos focássemos mais na produção de áudio através de softwares, samplers e sequenciadores. Esta nossa última etapa resultou no lançamento de várias releases de hip hop, maioritariamente beat tapes, que foram lançadas pelo colectivo Bairrada Krew, onde assinamos como CAP.THE.TRI (João Morado) e KOOKZ (Rafael Santos). Para além deste percurso conjunto, cada um de nós tem um trajecto individual na música, nomeadamente:

[Rafael Santos] Fui introduzido ao mundo da música através da guitarra e foi a ela a quem dediquei largos períodos de aprendizagem durante a minha adolescência. Foi por intermédio desta que a minha insígnia musical se foi traçando e desenvolvendo ao longo do tempo. Mais tarde cheguei à conclusão de que a minha paixão pela música era superior à de um instrumento em particular e desviei o meu foco para outras vertentes. Sempre tive um fascínio enorme por ritmo o que me levou a aprender a tocar bateria e outros tipos de percussão. Neste contexto, juntei-me a uma orquestra sinfónica como percussionista, o que era um mundo completamente novo para mim e que, ao início, me fez sentir bastante deslocado e desconfortável. Estando habituado a um papel de destaque em toda a música que tocava, esta experiência mudou radicalmente a minha visão sobre a importância de saber ocupar o meu espaço e, acima de tudo, de como funcionar num grupo em que a dinâmica musical está completamente fora do meu controlo. Esta aprendizagem foi provavelmente a mais importante no meu percurso e a que mais me formou enquanto músico e compositor. Foi toda esta bagagem que me influenciou a explorar a minha cultura musical ao máximo. Com a introdução a softwares de produção áudio tive finalmente as ferramentas e o incentivo que precisava. Desde techno a hip hop, passando por uma enorme mescla de estilos pelo meio, desde 2010 que nunca mais parei.

[João Morado] À semelhança do Rafael, também comecei muito cedo, com quatro anos, a aprender guitarra e a ter aulas de formação musical. Durante a minha adolescência interessei-me pela percussão e tive aulas de bateria. Além disso, estava dentro da cena rockabilly e psychobilly em Coimbra, onde tive a oportunidade de tocar e aprender com muita gente. Mais tarde, quando estudei no Porto, toquei com várias bandas nas diversas salas de ensaio das quais fui membro no centro comercial Stop. Após ter emigrado, comecei a dedicar-me inteiramente à criação de música através de samplers e sequenciadores e, mais recentemente, ao uso de softwares de produção.

Como se deu a relação com a WAY OUT Records? Qual foi a sua intervenção na produção do EP?

A nossa relação com a WAY OUT é algo de implícito e inevitável pois somos fundadores da editora, em colaboração com um terceiro elemento [Guilherme Pombo]. Este era um projecto que já andávamos a cozinhar há algum tempo pois tínhamos uma vontade comum de reunir, promover e lançar artistas que explorassem as fronteiras da música instrumental, electrónica, dub, hip hop e downtempo. Decidimos, finalmente, avançar com o projecto quando sentimos que tínhamos reunido as pessoas com as competências certas nas áreas da música, marketing digital e produção de eventos, de forma a apresentar um projecto sólido e com longevidade. A WAY OUT Records não teve qualquer influência na parte criativa do EP, mas ficou a cargo das estratégias de lançamento e promoção deste projecto, trabalho que é feito maioritariamente pelo Guilherme Pombo.

Falar de géneros é essencial pelo vosso background. Anteriormente estavam mais ligados a uma produção mais direccionada para o stoner e o doom metal. Mesmo que se sintam alguns elementos dessa música neste Path To Desire, este trabalho é pautado por outras sonoridades e ritmos. O que levou a este novo caminho?

Como já referimos anteriormente, em 2015 Trepanation terminou devido à separação física, o que impossibilitou que o projecto pudesse continuar nos moldes a que estávamos habituados. A partir daí, o nosso foco virou-se maioritariamente para a produção de áudio, num processo mais individualizado, deixando para trás a faceta mais crua e natural que nos caracterizava enquanto duo. Também crescemos enquanto pessoas e, provavelmente, a necessidade de afirmação presente em Trepanation se tenha naturalmente desvanecido, sendo substituída por uma vontade muito maior de aperfeiçoamento sonoro e de exploração musical. Passámos, então, nos anos seguintes, a aprender a produzir, entre outros estilos, sobretudo hip hop, e a tentar dominar a arte da samplagem e do design de som. Mais recentemente, tornou-se claro para ambos que os nossos impulsos criativos e influências musicais não estavam a ser representados apenas pela produção de beats de hip hop, o que levou a que formássemos Slick Menace e começássemos a criar este EP. Por exemplo, em termos rítmicos, sentíamos que estar limitados a um ritmo de 4/4, que é o compasso padrão usado no hip hop, não fazia sentido. Esta necessidade de exploração levou a que começássemos a produzir em compassos não tão convencionais, de forma a que pudéssemos beneficiar de outro tipo de balanços, como o 3/4 ou o 6/8. Isto necessariamente obrigou-nos a criar estruturas musicais e transições entre diferentes compassos que eram, até então, pouco utilizadas por nós. Foi um desafio bastante interessante dum ponto de vista não meramente criativo, mas também técnico.

Mesmo em termos de instrumentação, encontramos uma produção bastante divergente da associada ao metal, no qual a electrónica tem um peso bastante menor. Como se deu esta metamorfose de ferramentas? O que esteve no vosso arsenal?

A metamorfose de ferramentas deu-se, sobretudo, por uma questão de necessidade. Ambos queríamos continuar a criar música e era imperativo adaptarmo-nos ao facto de não termos acesso a uma sala de ensaios. Isto implicou que alterássemos os nossos processos de composição que, até à altura, viviam maioritariamente da partilha de riffs de guitarra e breaks de bateria. Esta era uma forma muito pessoal, mas de certa forma até bastante clássica e rudimentar, de composição, pois resumia-se a criar música apenas com recurso a estes dois instrumentos. Por outro lado, com o acesso aos softwares de produção de áudio, a nossa paleta de sons e instrumentos virtuais tornou se praticamente ilimitada, o que deu azo a uma exploração mais completa e diversificada das nossas preferências sonoras. Especificamente, para este trabalho, as nossas maiores armas foram, sem dúvida, o hardware e o software utilizados. É, também, inegável que o nosso passado e toda a experiência que acumulámos em projectos anteriores nos ofereceu a confiança necessária para que nos sentíssemos habilitados e confortáveis a adoptar uma abordagem completamente diferente na criação da nossa música e, consequentemente, arriscar um novo formato.

Há algum sample aqui metido, ou todas as fontes sonoras foram gravadas durante a feitura do disco?

Toda a produção do EP Path To Desire foi feita integralmente através de samples e de sintetizadores digitais. Devido à distância que nos separa, o nosso método de trabalho teve forçosamente de basear-se numa troca constante de ideias e de ficheiros áudio através da Internet. Ambos usamos o Ableton Live o que simplificou bastante o processo, quer pela facilidade de partilha de sound libraries quer pela simplicidade de conseguir visualizar o trabalho de cada um como se estivéssemos lado a lado.

Quão fácil foi definir o papel de cada um?

O papel de cada um em Slick Menace foi definido de uma forma muito natural, até pela experiência conjunta que já tínhamos de projectos anterior. Conhecemos muito bem as características de cada um e isso permite que tenhamos uma forma de trabalhar bastante fluída. Apesar de ambos termos contribuído de igual forma para este trabalho, um de nós [João Morado] acabou por ter um papel mais significativo na conceptualização do EP, isto é, no delineamento da história a ser contada em termos sónicos, enquanto que o outro [Rafael Santos] teve um papel primordial em aspectos mais técnicos, como é o caso do design de som e masterização final.

Nestas mesclas estilísticas, que criam alguma individualidade estética, compete-nos perguntar: com que projectos ombreia Slick Menace? Melhor: de que universo vem este projecto, e este EP? Quais são algumas das vossas influências?

É-nos difícil nomear projectos com os quais Slick Menace ombreia, pois sentimos que a nossa identidade ainda se está a desenvolver e se definirá de uma forma mais acentuada em trabalhos futuros. De qualquer das formas, os universos do trip-hop e do downtempo são provavelmente os géneros que melhor caracterizam este projecto. A atmosfera inspirada nos sons de Bristol em simbiose com a influência rítmica das batidas de hip hop constituem em grande parte a nossa sonoridade. Em termos de influências individuais podemos também destacar:

[Rafael] As minhas raízes no nu-metal, jazz e progressivo estão sempre presentes na minha essência e, por consequência, em todos os projectos em que participo. No entanto, e sem nenhum tipo de ordem em específico, Massive Attack, DJ Krush e Quantic são alguns dos artistas que me influenciaram neste projecto em particular.

[João] Como melómano e digger, as minhas influências estão em constante mutação porque os meus álbuns e artistas favoritos também mudam constantemente. Como vivo no Reino Unido, admito que muita da minha inspiração actual venha das sonoridades feitas por estes lados. Estou muito atento ao que se faz no jazz britânico onde posso referir que, entre muitos outros, Shabaka Hutchings é uma grande inspiração, não só em termos musicais, mas também filosóficos. Sigo também de perto os lançamentos de editoras de hip hop como a Blah Records e a High Focus Records. Outros nomes, como, por exemplo, Tenderlonious e Sam Gendel(especialmente o último álbum, Satin Doll), têm tido um impacto grande na forma como vejo a produção de som, e têm-me suscitado um interesse crescente de mesclar a parte mais sintética de softwares de produção, samplers e sequenciadores, com o lado mais orgânico de tocar e captar instrumentos acústicos.

Tencionam trabalhar em novos formatos ou com outras pessoas? 

Sim, com certeza. Colaborações são sempre bem-vindas, até porque acreditamos que grande parte do prazer de fazer música está em trabalhar com outros músicos. Porém, neste momento, não temos nenhuma colaboração planeada, apesar de estarmos receptivos a que isso aconteça. Também já nos encontramos a trabalhar no nosso próximo trabalho, mas ainda não decidimos qual será o formato deste. Queremos fazer as coisas calmamente e com intencionalidade. Fiquem atentos à página de Instagram da WAY OUT Records para ficarem a par de todas as novidades.


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