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Fotografia: Direitos Reservados & Mariana Lokelani

Há uma nova dupla no panorama nacional.

[Estreia] MISA apresentam-se com “Introlude”, o primeiro avanço do EP de estreia

Fotografia: Direitos Reservados & Mariana Lokelani

Sara Juliana e Miguel Domingues já faziam música separados, há muitos anos, dentro de vários géneros e projectos — a música é algo que sempre esteve muito presente na vida de ambos, seja num lado mais pessoal ou numa perspectiva mais vocacional. Os seus caminhos acabaram por se cruzar no último par de anos e a dupla tornou-se, de forma muito natural e orgânica, os MISA.

Ainda não tinham nome quando foram convidados por Shaka Lion para fazerem parte da sua performance na última edição do Festival Iminente. Agora apresentam-se oficialmente ao mundo com “Introlude”, a primeira faixa do EP de estreia, The Quiet Storm, que ainda está a ser construído e que chega este ano, apesar de ainda não ter data de lançamento. Caminham de forma livre entre as sonoridades modernas do r&b e da soul, com um toque hip hop na produção e estética — Mike é o responsável pelas batidas e o grande criador sonoro, já a voz e as letras são o dom de Sara.

O videoclipe de “Introlude”, assinado por António Freitas aka Kier, que acaba de sair, está em estreia aqui no Rimas e Batidas e merece ser visto com carinho e atenção. A dupla falou com a nossa revista digital e desvendou um pouco do projecto que são (e aquilo que estão a preparar).



[As origens]

“O que se transformou num projecto a dois partiu de algo muito orgânico e livre — a nossa conexão inicial não surgiu a partir da música, mas aos poucos fomos descobrindo que estávamos igualmente conectados a ela desde sempre. Apesar disso, não foi logo que surgiu a ideia de um projecto. Aliás, nós tínhamos os nossos próprios projectos e chegámos a ir ver concertos e ensaios um do outro — isto em finais de 2017.

Só em 2018 é que começámos um processo de criação mais experimental para tentar perceber o que seria o culminar das nossas sonoridades e o que seria o nosso ‘som’. A cena acabou por ir acontecendo de uma forma natural… Ao início eram só ideias melódicas e beats, que se transformaram em dezenas de gravações e demos nos nossos telemóveis e PCs, e que traduzem bem o que foi esse nosso processo. O facto de sermos auto-suficientes fez toda a diferença, percebemos que os dois conseguíamos fazer a cena acontecer.”

Mike: Desde muito puto que tudo servia de base para uma boa percussão [risos]. Cresci a ouvir discos de Bob Marley, Pink Floyd e Buena Vista Social Club (em casa) e hip hop tuga (na rua). Já na altura qualquer um me deixava colado. Algures em 2013 comecei a aprender a tocar guitarra numa escola de música no Pinhal Novo. Um tempo depois juntei-me com uns amigos, comprámos uma mesa de mistura e criámos um soundsystem. Fazíamos remixes de reggae para meter no SoundCloud, uma cena de putos, entre amigos. Foi mais ou menos nessa altura que comecei a sentir a necessidade de me conectar mais com o fazer música, mais do que apenas apreciá-la. Decidi ir estudar som para a António Arroio, que foi uma das fases da minha vida que mais contribuiu para o meu background musical e principalmente artístico. Foi aí que comecei a fazer os meus primeiros beats e riddims e a dar os primeiros toques em softwares de produção, edição de som, etc. Aprendi bastante sobre arte, essencialmente no ramo do audiovisual. Acabei por ir estudar produção musical na ETIC numa de dar continuidade aos estudos e aprender mais na vertente da produção, e foi lá que surgiu o primeiro convite para tocar guitarra ritmo num projecto de reggae. Por consequência acabei por ser convidado para outras bandas já com mais experiência [Like The Man Said e Urbanbibsz]. Nessa altura ensaiava bastante, toquei em alguns festivais de Norte a Sul do país. Foi nesta fase que desenvolvi mais a minha vertente musical — tocava em duas bandas, o que me fazia ter ensaios praticamente todos os dias da semana, estava a gravar um EP em estúdio e a terminar o curso. Acabou por me nutrir bastante e conheci bué pessoal que contribuiu para o que sou hoje como músico. Entretanto, quando acabei o curso, comecei a trabalhar mais na área do sound design e da mistura e com o passar do tempo acabei por dar um tempo à guitarra e a tocar ao vivo. Sinto-me melhor a criar em estúdio. Estes últimos anos têm sido mais a criar e a desenvolver a minha estética e abordagem como produtor.

Sara: Eu cresci num meio onde a auto-expressão era algo muito aceite e abraçado, por isso carrego desde pequena essa necessidade e vontade — com um foco maior na música e na fotografia. Eu tento não me limitar. Gosto de criar, não importa muito o meio pelo qual o faço, mas essas duas vertentes são daquelas que me acompanharam desde sempre e nunca as consegui largar. Tenho a sensação de a minha conexão com a música nasceu comigo, porque não consigo especificar um momento em que tenha surgido, parece que sempre esteve lá… mas foi algo muito incentivado pelo meu pai. Ouvíamos música do acordar ao deitar e ele é uma pessoa musicalmente muito culta, que sempre me mostrou de tudo. Lembro-me perfeitamente de ver concertos gravados em VHS da Sade enquanto brincava com frutas de plástico; Seal, Djavan e Bob Marley eram os mais tocados nas viagens de carro; Pearl Jam ao almoço; e uns Simply Red calhavam sempre bem ao jantar. Quando comecei a compor isso traduziu-se no meu pai a ouvir o que eu fazia e a dar-me críticas construtivas — sem dúvida o meu melhor e mais duro crítico, que se lembra de quase todas as músicas que compus até hoje. Acho que a minha jornada musical passou muito pelo compor e escrever e o facto de conseguir materializar isso com a voz e uma guitarra. Compus a minha primeira canção aos sete anos e daí nunca mais consegui parar. Aos 13 aprendi a tocar guitarra, nada muito teórico porque aprendi sozinha, com o objectivo de ter outra maneira de compor melodias. Aos 15 tive a minha primeira banda numa vibe mais indie, folk… Eventualmente a banda terminou, mas continuei a trabalhar em projectos com membros da banda e não só. Tanto em registos mais indie como em registos mais neo-soul, jazz, r&b. Desde essa altura fui tendo várias experiências e aprendizagens: as primeiras gravações em estúdio, concertos, tocar e compor com pessoas tão diversas… e isso tudo acabou por moldar-me e trazer-me até aqui.

[O estilo de música]

“O nosso estilo musical acaba por ser um híbrido, uma mistura de influências de eras passadas e modernas, que à primeira vista parecem distantes mas que acabam por se unir de uma forma única.

Ainda não o sabemos definir muito bem e gostamos disso. Se tivéssemos que arriscar talvez algures entre um neo-soul, alternative hip hop ou um smooth r&b… mas nós tentamos não pôr barreiras no nosso processo criativo, o fundamental é que tenha muita alma e que de alguma forma espelhe o que estamos a viver e o que somos no presente — tal como nós, a nossa música está numa constante evolução.”

[As maiores referências musicais]

Miguel: Tenho várias em diferentes aspectos que envolvem a música, é difícil escolher assim uns quantos nomes… Mas posso dizer que Bob Marley, J Dilla e Sam The Kid são três grandes referências que me influenciaram bastante e essencialmente a grande parte dos artistas que também são minhas referências hoje em dia.

Sara: Para listar algumas começo com os clássicos e termino com algo mais da new wave. Sade, Erykah Badu, Robert Glasper, Hiatus Kayote, Moonchild e Kelsey Lu.

[O processo criativo e o EP The Quiet Storm]

“Como dissemos anteriormente nós tentamos não limitar o nosso processo criativo, até por isso o conceito do EP foi surgindo à medida que o desenvolvíamos. O objectivo é criar algo único e isso vai pronunciar-se no nosso projecto, não só musicalmente, mas de diversas formas. O conceito do EP reflecte em parte uma jornada de confronto com a realidade, auto-conhecimento, auto-aceitação, libertação… Apesar de basear-se em assuntos difíceis de encarar, o foco está centrado na positividade e nos benefícios que esse “encarar” nos traz. The Quiet Storm acaba por representar isso, às vezes são as tempestades que nos trazem as maiores mudanças.”

Sara: Eu escrevo tanto em português como em inglês — gosto de me expressar em ambas as línguas… Por enquanto todas as letras estão escritas em inglês, mas deixo isso em aberto… Até porque me agrada a ideia de poder misturar mais que uma língua.

 [A “Introlude” que já podemos ouvir]

“A intro acabou por ser mais longa e por se tornar mais especial do que idealizámos inicialmente. Sempre a considerámos como um ritual de passagem para quem fosse ouvir o nosso projecto, é a primeira peça do puzzle, digamos assim. Apesar de como primeiro lançamento saber a pouco, ela introduz e abre caminho para o resto do EP.”

Mike: A intro foi uma das músicas do EP que nasceu do nada. Lembro-me de a começar a criar e sentir logo um feeling de introdução. Enviei o que estava fazer à Sara e ela enviou-me logo umas melodias vocais que gravou com o telemóvel na WC do trabalho. Apesar de a captação não ter qualidade, o que ela fez estava perfeito. Tinha o feeling que queríamos e em termos melódicos estava on point, até a reverberação natural da WC estava a soar bem. Basicamente “chopei” essa gravação e juntei ao instrumental. Chegámos a regravar essas melodias na minha WC com a intenção de tentar replicar a primeira gravação de forma a ficar uma captação limpa, mas acabámos por usar ambas as gravações — no fundo foi um detalhe que deu identidade ao som.

[O videoclipe]

“Nós já conhecíamos o trabalho do António Freitas Kier de outros videoclipes que ele tinha feito e a identidade visual dele ia muito ao encontro do que procurávamos. Funcionou super bem, ele percebeu o que tínhamos em mente e o que procurávamos e basicamente desenvolveu a ideia do clipe à volta disso. Quanto à parte das filmagens, começámos com o nascer do sol e acabamos com ele a pôr-se… Filmámos em vários spots, todos na Margem Sul, algo que nós e o António fizemos questão que acontecesse. E as pessoas que participaram são pessoas com as quais temos ligação. Ambos os factores foram importantes para nós. Foi um dia longo, a correr de um spot para o outro mas valeu bem a pena. Ficámos todos com aquele sentimento de missão cumprida.”

[O número de faixas e as eventuais participações no EP]

“Podemos dizer que já temos algumas faixas fechadas e estamos a trabalhar nas restantes. Temos até ao momento a participação de um músico numa faixa. Apesar de não termos excluído a hipótese de haver mais participações, não foi algo que procurámos activamente, porque este EP tem uma energia muito pessoal. Queríamos que surgisse espontaneamente, se alguma das músicas assim o pedisse.”

[O Iminente em 2019]

“O Iminente foi uma experiência brutal. Fomos convidados pelo Shaka Lion para participar no set especial que ele estava a preparar. Na altura, o projecto ainda nem tinha nome… e nem tínhamos em mente sequer um formato live. Acabámos por criar um momento entre os três (Sara, Mike, Shaka) e apresentar duas das músicas que entram neste EP. Para nós ainda estava tudo numa fase mais inicial e esse foi um dos momentos que nos fez perceber que tínhamos muito que trabalhar, mas que estávamos no caminho certo. Um shout-out especial para o Shaka por confiar e dar-nos espaço para partilharmos a nossa música.”


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