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Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 01/02/2022

Deixar-se levar pela corrente.

[Estreia] “Flows” é o primeiro single de Ouni

Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 01/02/2022

Em 2021, Raquel Martins deslumbrou-nos com The Way, um EP que aglutinava (elegantemente) elementos de jazz, soul e r&b. Originalmente do Porto mas a viver em Londres, a cantora e guitarrista referenciava, em entrevista, o impacto que artistas como Tom Misch e Hiatus Kaiyote tiveram em si. Na sua apresentação, esses dois nomes (juntamente com FKJ e Jacob Collier) foram desde logo apontados por Ouni, jovem músico português que mostra “Flows”, o seu single de estreia, em primeira mão no Rimas e Batidas.

Actualmente, António Areia vive na capital do Reino Unido (mais uma semelhança com Raquel), mas a sua cidade de origem é Leiria, sítio onde começou a formar-se musicalmente antes da saída do país para estudar Produção Musical e Engenharia do Som na Point Blank Music School London. Se, no início, a obsessão em ser o melhor guitarrista possível era o foco, a verdade é que, como podemos ouvir no tema com a participação de Clara Nogueira, a mira passou para outros lugares — e, nesta faixa em particular, Giant Steps, álbum de John Coltrane, teve um papel fundamental no seu desenvolvimento.

Numa troca de e-mails, o artista de 22 anos contou-nos um pouco mais sobre aquilo que o trouxe até aqui e a maneira como olha para o mundo da música.



Tu és de Leiria, mas actualmente vives em Londres: tanto uma como a outra, mesmo que de maneiras bastante diferentes, têm cenas musicais com muitos criativos (tendo em conta a escala de cada uma, reforço mais uma vez). Como é que crescer em Leiria te moldou artisticamente? E que referências tinhas enquanto crescias?

Apesar de me custar comparar Leiria a Londres, tendo em conta a diferença absurda a nível da escala de cada um, realmente acho que Leiria, e cada vez mais, anda a ficar uma cidade cheia de criativos e com nomes já bastante reconhecidos a nível nacional, como os First Breath After Coma ou a Surma. Acho que tudo pode influenciar um som do artista, tanto o ambiente onde cresce como o tipo de música que ouve, ou que ouviu no passado. Durante a minha infância estudei guitarra clássica em Leiria, na SAMP, que obviamente teve muita influência em mim, desde o facto de estar a aprender um instrumento mas também de estar rodeado de música clássica constantemente durante tantos anos. Durante essa altura lembro-me de ter uma obsessão em ficar o melhor que conseguia a tocar guitarra, mas mais pelo lado físico, não o lado teórico. Queria tocar rápido e tudo basicamente. Então comecei obcecado pelos Metallica e [fui] mudando o meu gosto musical para o metal progressivo. As minhas maiores inspirações vieram daí e foram esses que me fizeram querer ficar melhor no meu instrumento. John Petrucci (Dream Theater), Mark Holcomb (Periphery), Luke Hoskin (Protest the Hero), Tosin Abasi (Animals as Leaders) ou Plini foram os guitarristas/ artistas que me acompanharam enquanto crescia. Já mudei muito o meu estilo desde então, mas esses foram nomes mesmo muito importantes na minha jornada musical.

Mudaste-te para Londres para estudar Produção Musical e Engenharia do Som. Porque é que decidiste ir para essa cidade em particular e o que é que te trouxe até agora esse curso?

Bem, Londres é Londres, é uma capital mundial e uma cidade enigmática. Na indústria da música, Londres é um ponto de referência, tanto a nível do music business como a nível da elevada concentração de artistas de todos os géneros e com uma quantidade absurda de eventos para todos os gostos musicais. Com isto, tirar um curso na área da música numa cidade destas fez-me, e está-me a fazer, ter a oportunidade de aproveitar todas estas características da cidade enquanto melhoro e aprendo cada vez mais nesta área. Este curso já me trouxe contactos muito preciosos, até porque a pessoa que está sentada ao teu lado numa aula pode, para o ano, ser um artista ou alguém altamente influente na área. Além disso, também já me trouxe muito conhecimento na área da engenharia de som e produção, devido a ter a oportunidade de praticar e poder fazer música em estúdios profissionais. E até pelo simples facto de ter de praticar constantemente para acompanhar as aulas.

No teu press apontas nomes como Tom Misch, FKJ, Jacob Collier e Hiatus Kaiyote, e todos parecem mais ou menos óbvios quando ouvimos “Flows”. A Raquel Martins, que também vive em Londres, anda à volta destes nomes, e isso deve querer dizer algo. Londres é uma cidade que, neste momento, encaminha quem lá vive e faz música para estes lados mais jazzy e soul ou é uma coincidência? 

Antes de mais, tenho de dizer que gosto muito do trabalho da Raquel Martins, e tenho a certeza que irá ter muito sucesso no futuro. Como já disse anteriormente, Londres tem de tudo, todos os estilos de música estão muito bem representados aqui. Tem certamente muito foco na música soul e jazz, com os famosos clubes de jazz e inúmeros concertos que ocorrem semanalmente, mas também só o facto de metade dos artistas mencionados na pergunta estarem a viver em Londres, tal como outros nomes como a Jorja Smith, Mahalia ou Jordan Rakei, já diz muito por si só. Mesmo assim noto um foco muito grande e cada vez maior em música eletrónica aqui, house e techno especialmente.

Indo directamente a “Flows”, o teu primeiro single. Fala-me sobre o seu processo de criação e como é que a Clara Nogueira entra na equação. 

Bem, lembro-me que comecei a compor esta canção em meados de Abril, aliás, tenho a primeira save do projeto gravada e foi no dia 26 de Abril. As influências acho que são claras na música e, quando a música sair no Spotify, estará lá também uma playlist com as maiores inspirações. A música saiu meio funky em algumas secções, devido a inspiração de algumas músicas do Tom Misch, as backing vocals muito inspiradas pelo Jacob Collier e o solo de guitarra, que acabou por ser de um tamanho considerável (pelo menos comparando a solos de músicas no mesmo estilo), foi o resultado de andar na altura obcecado com o mítico álbum de John Coltrane, Giant Steps. Os jazz records na altura eram feitos muitas vezes com one shot takes, ou pelo menos no dia da gravação os músicos improvisavam, ficando gravado esse resultado. Eu queria experimentar, e ver se conseguia até fazer algo assim. E sinceramente, surpreendendo-me muito a mim mesmo, o solo que está na música foi literalmente o primeiro take. Claro que tentei mais vezes, mas ficou mesmo o primeiro.

Relativamente à participação da Clara, o plano original era ter sido eu a cantar e, após ter gravado algumas demos, não estava a ficar satisfeito com o enquadramento da minha voz com o instrumental, então decidi experimentar com outra pessoa. Pedi ajuda à minha amiga Clara (que por si só canta muito melhor que eu), mostrei-lhe as demos e, num dia, substituímos a voz. O resultado foi este que conseguimos ouvir agora. Um excelente trabalho por parte da Clara, e estou muito grato!

Utilizas o teu canal de YouTube e o Instagram para meter alguns vídeos mais lúdico-didácticos, digamos assim. Achas importante os artistas usarem este tipo de conteúdos para, no início, furarem no meio da multidão?

Sinceramente, hoje em dia, com a saturação do mercado da música, em que 60 mil músicas são submetidas diariamente para o Spotify, temos de arranjar maneira de nos destacar. Acho que o primeiro passo é certificarmo-nos que pelo menos estamos a lançar algo dentro do industry standard, que por si só já nos deve tirar 40% da concorrência dentro dessas 60 mil músicas diárias (estes 40% foi um número teorizado por mim, mas que sinceramente não deve estar longe da verdade). Este industry standard que falo é a nível de uma música com algum conteúdo e uma boa mix e master no mínimo. Para conseguirmos “sobreviver” dentro dos outros 60%, temos de ter uma presença online — é inevitável hoje em dia. Mesmo as record labels já procuram artistas com um following grande nas redes sociais, então, enquanto artistas independentes, ainda mais importante fica este factor. O canal de YouTube que comecei recentemente deve-se ao facto que já tinha de antemão alguma experiência na área da edição de vídeo, mas também porque gosto e entretenho-me a fazer aqueles vídeos (especialmente o último do canal). O fazer vídeos “lúdico-didácticos” deve-se em grande parte a um livro que li chamado Show Your Work em que o autor (um artista também) defende que devemos partilhar o nosso processo de criação como uma maneira até de construir uma audiência, mesmo que pouco conhecimento que tenhamos, pois todos nós já fomos, ou somos, iniciantes ou amadores em alguma área, sendo que todo o conhecimento que partilhamos há-de ser útil para alguém. Não é que tenha conquistado grandes resultados até agora, porque no fim o que quero fazer é música e não isso, mas estou a tentar ver até onde consigo chegar, enquanto ainda procuro um balanço entre criar conteúdo, fazer o curso e compor música. Mas dando uma resposta curta à pergunta: sim, acho extremamente importante.


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