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Fotografia: Direitos Reservados

Por mais improvável que pareça, "Fashion Killa" de A$AP Rocky é a base deste trabalho.

[Estreia] Aires e João Valinho questionam a linguagem do ambient em Fashion is Never Finished

Fotografia: Direitos Reservados

O que é a música ambiente? Quais são os critérios para que uma obra se integre nesta categoria musical? Brian Eno, o criador deste termo com o seu ópus Ambient 1: Music For Airports , definiu este estilo como música “criada para induzir calma e espaço para pensar”, que podia tanto ser ouvida com atenção como só de fundo enquanto se fazem tarefas. Mas este factor não é exclusivo ao género, não vivêssemos nós na geração na qual “lofi hip hop radio – beats to relax/study to” seja uma sensação do Youtube com milhões de seguidores devotos.

Desde 1978 que o ambient teve muito tempo para evoluir para muitos lados diferentes, desde spoken word e field recordings à fusão com o hip hop, o pop, o techno e até o metal, às abordagens minimalistas e maximalistas. Então o que faz da música ambiente… ambiente? Os loops infinitos de Satie? Os drones intensos que a tanpura já oferece à música tradicional indiana e em ragas há pelos menos cinco séculos? A fusão com o espaço que nos rodeia ao invés da tentativa de se sobrepor a este? A calma, harmonia e paz que cria em nós e nos relaxa física e psicologicamente? Esta forma de arte tem a capacidade de se transmutar e trabalhar com qualquer género musical, talvez por não ter uma definição muito linear, mas sim uma sensação que desperta em nós. Então resta uma pergunta: o quão longe vão os limites do ambient e o quão abrupto pode ser o distanciamento dos moldes iniciais?

É aqui que entram os Fashion Eternal. Aires e João Valinho unem-se para procurarem respostas e explorarem o que se pode fazer dentro dos mínimos moldes possíveis mas que continue inserido no estilo musical. E acabou de nascer o primeiro resultado da pesquisa, Fashion Is Never Finished, editado pelo Colectivo Casa Amarela e em estreia no Rimas e Batidas. Valinho dedica-se à parte rítmica do projecto, introduzindo elementos de free jazz e percussões soltas, enquanto o produtor madeirense, que cria ambient enquanto Aires e noise enquanto Shikabala, tenta mediar estas duas vertentes e juntá-las num só elemento, recorrendo ao sampling de música pop, ícones dos anos 90, field recordings e muitas mais fontes diferentes que acrescentam um tom de certa forma pós-irónico ao disco e uma fusão com elementos mais ligados à cultura quotidiana, algo que não se vê frequentemente nesta zona do espectro musical. O resultado é uma faixa de 18 minutos que se encontra na zona do power ambient, do drone e do experimentalismo puro e duro, passando por partes mais noise e por momentos mais calmos e contemplativos.

Fashion Is Never Finished traz a música ambient para a frente, pondo de parte a questão de se poder ouvir em background, visto ser impossível desviar a atenção do que estamos a ouvir. O relaxamento que despoleta em nós vem em consequência da intensidade da própria música, que, após momentos mais ásperos ao ouvido, nos ameniza com os samples vocais etéreos (apesar de caóticos ainda assim), com a bateria sempre a acompanhar a dinâmica que a electrónica segue, e a criar uma intensidade ainda mais poderosa nos momentos harsh. A segunda parte da composição cria um momento tenso e palpitante que, apesar de mais calmo que a primeira parte, nos deixa desconfortáveis e com o coração a palpitar, com a percussão a transformar-se apenas em pratos que, ao contrário da primeira parte, servem para criar uma camada mais estável na música.

Fashion Eternal tenta combater a estagnação, e luta pela exploração contínua do ambient, evitando comodismos e seguir o caminho mais fácil. É o 13º lançamento da editora Colectivo Casa Amarela, e tem edição limitada de 30 cassetes, cujo lado B destas “terá um mashup sonoro feito por nós com peças do watchmojo, entrevistas a celebridades e afins” — e cada uma das peças físicas terá uma faixa diferente e totalmente única. Fomos falar com os dois músicos para compreender melhor o disco:



De onde surgiu a ideia para Fashion Is Never Finished?

[Valinho] As ideias principais para este EP, que se poderão estender ao nosso projecto em si, são a de um questionamento da linguagem do ambient e a apropriação da cultura popular numa busca musical que pretende explorar os seus limites.

[Aires] Costumávamos “aquecer” para os ensaios ao som de música pop toda destruída e distorcida e a certa altura pareceu boa ideia focar o projecto nisso mesmo — usar as coordenadas da cultural popular para criar algo distante, protegido pelo robusto escudo da ironia e pós-ironia.

Pois, este projecto parece um pouco dar continuidade aos registos sonoros que já tinham apresentado em conjunto…

[Valinho] O projecto é a exploração desta proposta, e algo que se foi desenvolvendo ao longo do nosso trabalho em comum. Este EP é apenas o começo dessa exploração.

Sentem faltar esse questionamento no panorama musical do ambient? Como se o estilo estivesse já estratificado e pouco disposto a evoluir por caminhos mais experimentais e exploratórios?

[Valinho] Pouco disposto, sim, como qualquer outra coisa que se tenha comodificado, independentemente da sua condição de peça de arte e respectivo potencial artístico. O interesse generalizado em infundir um produto de algo que lhe desvie dos seus parâmetros, como tal, é pouco (ainda que frequentemente tal arrojo seja também motivo de marketing). Mas não há prescrição aqui: nós questionamo-lo porque a estagnação é fácil e copiosa. Assim como a replicação.

Que conclusões tiraram para vocês próprios com este projecto, tanto enquanto artistas como amantes de música?

[Valinho] Aires, extravagante melómano, que conclusão tiraste tu?

[Aires] Extravagante é muito bom. Coincidência ou não, é também o título do nosso próximo EP. Tanto enquanto músico como alguém que ocasionalmente gosta de ouvir música (para mim é difícil separar os dois, na verdade) deu para concluir algumas coisas que eu já suspeitava – sem ironias ou tiques elitistas, que o cheese electrónico dos 90s é mesmo um autêntico filão de ouro no que à samplagem diz respeito; que ambient e bateria free é o combo mais natural do mundo, há ali algo de sobrenatural. Citando Danny L Harle e Carly Rae Jepsen (dois dos maiores nomes da música pós-2010, ponto), “We just fit, you and I/ We’re supernatural”.

Conseguem encontrar pontos de conexão no ambient, noise e free jazz? Foi por aí que tentaram ligar todas as peças ou foi de forma um pouco menos pensada e mais “natural”?

[Valinho] Haverá pontos de convergência em qualquer idioma de vanguarda, senão pela sua vontade de quebra. Mas mais do que um exercício estético, trata-se principalmente das questões referidas — por muito que a conjugação entre a electrónica do ambient e uma percussão livre seja do nosso agrado.

Porquê uma faixa única?

[Valinho] A faixa será única pois é a forma musical que escolhemos por nos permitir desenvolver os motivos e fazer alusão à forma tradicional do ambient, de faixas únicas, longas. Talvez no futuro façamos faixas de 3:20 para aludir ao pop.

[Aires] O EP surge de uma série de improvisos por isso era importante não quebrar essas dinâmicas e retalhar as gravações até restarem canções. Mas fazer faixas em 3:20 era o sonho. A primeira versão desta faixa tinha quase 50 minutos…

Qual a origem dos samples e porque os escolheram em específico?

[Aires] Os samples neste EP fazem parte de vários imaginários completamente distintos, desde uma miúda a fazer versões acapella da Taylor Swift até ASMR, field recordings das Avenidas Novas by night, Fleetwood Mac, muitas cenas dos 90s, do power metal até ao trance e eurodance… Ainda assim, o sample central, sob o qual a componente electrónica do EP assenta, é uma desconstrução do “Fashion Killa” do A$AP Rocky — uma das grandes canções dos nossos tempos.

Quais são as vossas influências mais directas neste disco?

[Valinho] Mais directas mesmo? Minha mãe, Ronny J, Andrew Callaghan e Wang Bing.

[Aires] João Valinho, Lorenzo Senni, Antonio Reis & Margarida Cordeiro, Thursday e Comuna de Arroios.

Uma última pergunta, que se calhar devia até ter sido a primeira de todas. O que é para vocês música ambient?

[Valinho] O depurado veículo sónico para a alienação social, por excelência. Estou a brincar.

[Aires] O equivalente musical de um chá de cidreira ou uma pizza das boas. Ou seja, é o que se precisa, sempre, mesmo quando não se quer. Isso pode ser — sei lá — um disco do Stephan Mathieu ou um bumper sonoro de um anúncio de aspiradores repetido até à exaustão.


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