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Fotografia: Manuel Abelho

Os interessados já podem enviar a sua candidatura -- o prazo termina dia 22 deste mês.

Estraca: “Estava habituado só a viver no bairro e a OPA deu-me essa abertura para um novo mundo”

Fotografia: Manuel Abelho

Este ano, a edição da OPA – Oficina Portátil de Artes adaptou-se aos tempos e a edição é totalmente digital. Perde-se desta forma a possibilidade de se pisar — para muitos pela primeira vez — um palco e sentir o público, mas mantém-se a oportunidade de fazer contactos e aprender. Prova do cariz pedagógico e de apoio artístico deste projecto é Estraca. Estivemos à conversa por telefone com o rapper que é host do Warm Up, mas que tem muito mais a contar sobre a OPA.

Estraca tinha 12 anos quando participou pela primeira vez, em 2009. Dessa participação guarda com carinho “a oportunidade de pisar um palco grande no centro de Lisboa” e também a possibilidade que teve de “estar junto de grandes inspirações como o Valete, o Sam The Kid, NBC, General D”. Em 2020, todas essas hipóteses se renovam, agora para caras novas.

O processo de candidaturas, Open Call, direccionado a jovens talentos dentro do hip hop está aberto desde o dia 2 de Junho no site da OPA e decorre até dia 22 do mesmo mês. De acordo com o comunicado da Associação Sons da Lusofonia, “os seleccionados nesta primeira fase, têm acesso a formação musical através de workshops com Francisco Rebelo, o saxofonista de jazz Carlos Martins e outros convidados, durante o mês de Julho”, culminando, em Agosto, num espectáculo “ao vivo numa sala de espectáculos, com transmissão em directo através das plataformas digitais OPA e parceiros”.

As sessões de Warm Up decorrem durante o mês de Junho e ilustram o “caminho que a OPA tem percorrido ao longo dos anos, desde a sua origem”. La Familia Gitana, SXR, Máry M, Mynda’Guevara e DJ Kope são alguns dos artistas que actuam nos dias 6 e 7 de Junho e 13 e 14 de Junho, com transmissão no Instagram da OPA.

“A realidade é que, mesmo nos tempos que vivemos hoje, passados tantos anos, ainda existe uma barreira invisível a dividir os bairros sociais, os subúrbios, dos centros”, comenta Estraca. E, acrescentamos nós, oportunidades como aquelas que a OPA proporciona são hoje, como sempre foram, essenciais para derrubar muros.



Tinhas apenas 12 anos quando participaste na OPA, em 2009. O que é que recordas dessa participação?

Conheci a OPA através de um projecto aqui no bairro e para mim foi mesmo muito importante, para o meu crescimento. De certa forma ia-me motivando, ia vendo que as coisas eram possíveis. Com a OPA tive a primeira oportunidade de pisar um palco grande no centro de Lisboa, tive a oportunidade de falar e de estar junto de grandes inspirações como o Valete, o Sam The Kid, NBC, General D. Ou seja, essas coisas todas foram bastante motivadoras e na altura bastante cruciais até para hoje estar a seguir o caminho que estou a seguir.

Chegaste a ter aulas? O que é que “ganhaste” com a participação?

Tínhamos um concerto no centro de Lisboa, acho que um dos primeiros foi no Martim Moniz, e até chegar à data do concerto tínhamos várias aulas, com o Francisco Rebelo, de postura no palco, como se agarra no mic, mudar os beats — normalmente íamos com beats da net e o Francisco reproduzia outra vez os beats –, ensinou-nos algumas dicas de produção. Passávamos por um processo até esse concerto grande. Julgo que ainda hoje funciona assim, com vários workshops e ensaios, que culminam com os espectáculos grandes. É mesmo muito importante para o pessoal novo que está a participar, é bastante motivador.

Qual é a tua expectativa em relação a este ano? 11 anos depois és o host. Como é que te sentes em relação a isso?

É muito bom. Mantivemos sempre a ligação e é com enorme orgulho que ainda continuo a participar, agora não de forma artística a representar-me, mas como host. Estou ligado sempre de certa forma e é muito gratificante. E é uma forma também de agradecimento pelo apoio que me foi dado e pela ajuda crucial que foi o projecto para mim, sem dúvida. Com a OPA tive uma banda que era a Jazzopa, uma cena de jazz com hip hop. Aliás, nem foi bem através da OPA, foi através dos Sons da Lusofonia, mas através da OPA foi aparecendo muita coisa. Também tivemos uma cena que fundia uma fanfarra com hip hop, convidaram-me e estive numa cena com os Farra Fanfarra. Depois os Farra Fanfarra convidaram-me para ir à Sérvia participar nuns projectos lá fora. Ou seja, digamos que aquela pequenina porta me foi abrindo várias outras portas.

E essas portas que se abriram para ti podem abrir-se para muitas outras pessoas? Achas que ainda existem muitas pessoas à procura destas portas?

Sem dúvida. Para já pelo contacto de artistas, uns com os outros. Eu ainda hoje mantenho contacto com alguns artistas que participaram comigo na altura e é sempre bom pela partilha. Se calhar essa até é das melhores lembranças que trago, a partilha, os momentos todos juntos. Porque em cada projecto, cada ano, o pessoal quase se torna uma família. Passamos por várias etapas, gravação de estúdio, ensaios, e quase nos tornamos ali uma família. E sim, para esta nova geração, acho que é um projecto mesmo super interessante. Só o ir tocar para o centro de Lisboa, na altura. Estava habituado só a viver aqui no bairro e a OPA dá essa abertura para um novo mundo.

Achas que o projecto é sobretudo importante para o pessoal dos bairros? Tem um cariz muito social?

Sim, tem esse cariz mais social que acho que é super importante, por abrir novas portas e uma nova visão. A realidade é que, mesmo nos tempos que vivemos hoje, passados tantos anos, ainda existe uma barreira invisível a dividir os bairros sociais, os subúrbios, dos centros. Ainda existe essa barreira apesar de aos poucos, com vários projectos — há vários bairros que têm projectos de visitas guiadas com os graffitis — há essa ligação do pessoal de fora que vem para dentro. E a OPA deu essa cena de dentro ir lá fora e haver esse cruzamento.

Acreditas que esta OPA vai reflectir aquilo que está a acontecer em 2020?

Acho que sim, porque se reflecte em cada um de nós. E mesmo através do que estão a fazer, ser em directo online, quando noutras circunstâncias seria num palco grande.

Além da partilha de culturas que a OPA cria. Também de partilha de sonoridades, porque a OPA não é só hip hop, Junta o hip hop, junta a kizomba, junta muitas sonoridades que leva a um público que às vezes não está tão habituado a ouvi-las. Há esse cruzamento que acho que é muito importante, essa partilha cultural que é muito importante mesmo em relação aos temas actuais do racismo e da discriminação.

Achas que a cultura hip hop pode ter um efeito importante nesta luta anti-racismo? De que forma é que o hip hop tem ajudado e pode ainda ajudar?

O hip hop sempre teve o cariz muito interventivo que foi muito importante em várias situações. Mas mesmo o resto da música, mesmo não tendo a parte lírica mais interventiva, tem o cariz da cultura que também serve de alguma forma para a mistura e para a luta.

De que forma te estás a preparar para seres o host desta OPA? O facto de ser online é diferente.

Tenho estado a ver os artistas novos. Conheço alguns, mas a outros não estava tão atento e por isso estou a dar uma vista de olhos. Basicamente passa por aí e vamos ver como corre porque nunca fiz nada deste género, online, através do Instagram.


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