Estamos na boa: dos Da Weasel e do seu lugar nos últimos 25 anos de vida banal

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] Nuno Conceição / NOS Alive

Por onde se mede o impacto e a importância de um grupo? Não há apenas uma resposta para esta pergunta e é certo que os recortes da crítica não podem ser a única régua para tal quantificação. Há uma outra via, uma espécie de análise de um “antes” e um “depois” que ajude a perceber qual o real poder transformativo de uma carreira específica. Os Da Weasel deram os primeiros passos em 1993, ano de Portugal Ao Vivo, arranque para uma era dourada de vendas na música portuguesa, com mega projectos como os Resistência a imporem na última década do século XX figuras veteranas com um longo percurso atrás de si e que então viam finalmente reunidas as condições para colherem os frutos de um trabalho constante que de facto ajudou a alterar o panorama musical português criando um circuito de concertos válido, um mercado editorial concorrencial, um leque de ofertas variadas ao nível dos estúdios. Nos subterrâneos, no entanto, sentia-se outra efervescência, com espaços como o Johnny Guitar (“God Bless Johnny”…) a afirmarem-se como laboratórios capazes de ensaiarem a relevância de outra geração: mais nova, diferente até na cor de pele, com outros horizontes musicais, com outra abordagem à própria língua. Os Da Weasel assumiram a dianteira nessa outra realidade que ainda não chegava aos tops, mas que ecoava outras revoluções vindas de fora que já haviam provado ter força suficiente para mudarem paradigmas.

Até aos Da Weasel, a história da pop portuguesa oferecia muito poucos indícios de que a nossa era uma sociedade multicultural: os Duo Ouro Negro ou Bonga eram duas faces possíveis de uma medalha que recordava um império; Dany Silva tinha dado sinais de uma realidade crioula; e os Heróis do Mar tinham assumido em Africana que as noites da capital podiam revelar outras bandas sonoras para lá das que se faziam sentir nas noites do Bairro Alto ou Cais do Sodré. Mas em 1993, o hip hop já levava década e meia de avanço nos Estados Unidos e já se tinha espalhado a todos os outros continentes, existindo por cá apenas nos subúrbios, circulando em cassetes copiadas infinitamente a partir de originais que chegavam pelo correio enviadas de Boston ou de Paris. Quando se formaram, em 1993, os Da Weasel integravam então uma realidade feita de pontas soltas, em que General D, os vários nomes que marcaram presença em Rapública ou os Mind Da Gap, mais a norte, acusavam o toque desse multiculturalismo das ruas, afinavam os ouvidos pelo que se ouvia nas tais cassetes e ensaiavam os primeiros passos de uma revolução.

More Than 30 Motherf*****s foi lançado no olho do furacão, 1994: ano também da estreia de General D e do lançamento de Rapública. Esse primeiro EP foi um preâmbulo, no entanto, para uma estreia mais séria no ano seguinte com Dou-lhe Com A Alma, lançamento ainda independente que no entanto já se aproximava mais da língua mãe, erguendo bandeiras, percebendo que a língua, como dizia William Burroughs, pode ser um vírus para contaminar mentes receptivas com ideias e ideais (“Educação é Liberdade”). Este era, portanto, o “mundo” até aos Da Weasel. E depois? Tudo mudou.

Quando foi lançado em 1997, 3º Capítulo mudou, efectivamente, as regras do jogo. O trampolim de uma editora de créditos firmados no panorama musical português permitiu-lhes chegar mais longe, com “Todagente” a transformar-se não num hino, mas numa espécie de “mantra” na boca de uma geração que finalmente parecia ter encontrado quem falasse por ela com a mesma cadência, as mesmas palavras, a mesma ironia. Os textos de Pacman, de repente, passavam a ser analisados nos bancos de escola, sugeridos por professores que perceberam estar ali um outro tipo de poesia, mais capaz de prender a atenção da adolescência da era da Expo ’98 do que muitos dos poetas clássicos impostos nos programas curriculares.

A afirmação da diferença foi importante para os Da Weasel desde o início. O hip hop era combustível de criatividade na sua fórmula particular, sem dúvida, mas o grupo não se fechava a outros estímulos e na sua arquitectura o pulsar “live” distanciava-os de outras bandas do género e permitia-lhes dominar o palco com outra desenvoltura. As palavras chegavam, portanto, às pessoas, as músicas tinham fulgor para sobreviverem na guerra das playlists de rádio e o grupo — capaz de tocar ao vivo o que congeminava em estúdio — força suficiente para enfrentar os maiores palcos. Da conjugação desses factores, a que se adicionava o bónus de um óbvio capital de carisma dentro do grupo, nasceu o sucesso de uma banda que foi crescendo a pulso e sendo chamada para alguns rituais de celebração colectiva da música portuguesa, casos de compilações como Tejo Beat, da homenagem aos Xutos & Pontapés em XX Anos XX Bandas ou do tributo a Ar de Rock de Rui Veloso em que participaram com uma original abordagem a “Miúda (fora de mim)”.

Iniciação a uma Vida Banal, o álbum de “Outro Nível”, marcou a despedida de Armando Teixeira do grupo, que se foi aliás transformando ao longo dos tempos. Saiu Yen Sung, entrou Virgul. Entraram também Quaresma e Guilherme Silva. E mais tarde DJ Glue. Juntamente com os irmãos Pac e Jay Jay, todos estes nomes ajudaram a construir um fenómeno. Eram os Da Weasel enquanto célula fluída, capaz de crescer. Esse foi outro dos pilares do seu sucesso, certamente.

Podes Fugir Mas Não Te Podes Esconder, Re-Definições e Amor, Escárnio e Maldizer ofereceram mais um conjunto de bombas ao imaginário sonoro colectivo: “Tás Na Boa”, “Re-Tratamento” ou “Dialectos de Ternura” explodiram em rádios, auscultadores e sistemas de som de um país inteiro, projectando os Da Weasel para uma primeira divisão que até então nenhum outro nome dessa geração de ’94 tinha ousado alcançar. E nos registos de palco, o Coliseu cedeu espaço ao Pavilhão Atlântico. A escala dava conta do crescimento da doninha.

Volte-se então à pergunta inicial: por onde se mede o impacto e a importância de um grupo? Certamente pelos factos que por aqui se foram enumerando, pelas canções entregues ao imaginário de uma geração, pelos êxitos criados em rádio e em palco e traduzidos em vendas, pelos quilómetros palmilhados e pela dimensão das multidões que os aplaudiram. Mas outra medida possível é o panorama deixado pelos Da Weasel: há descendentes directos, claro, como os mais recentemente celebrados 5-30 ou os Nu Soul Family, mas é impossível não olhar para uma cena musical que acomoda gente como Sam The Kid, Orelha Negra, Expensive Soul e até, recuando mais um pouco, nomes como Cool Hipnoise ou Boss Ac e não ver nessa cena uma marca do trabalho pioneiro dos Da Weasel. A cena musical portuguesa é hoje mas variada: há novos heróis, outras cores a adornarem os tops, há novas palavras usadas e re-usadas nos dialectos de ternura falados pelas novas gerações e nos momentos em que se grita pela puta da revolução nas ruas. Algumas delas foram sugeridas pelos Da Weasel. A eles pertence, pelo menos, uma página de história. Desta história.


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu