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Fotografia: Josh Brasted

Só vibrações positivas.

Erykah Badu vs. Jill Scott: sinergias à prova de Tyrone

Fotografia: Josh Brasted

O evangelho de Erykah Badu não é só incenso e empatia. Se a virem à luta com um urso, reza o slogan, não se preocupem com ela: ajudem o pobre animal e cubram-na de mel. Jill Scott, o segundo poder da neo-soul e senhora da spoken word, conduz também nessa faixa: meiga, com um solfejo mais longo e profundo, e exactamente a mesma prontidão para o ataque. Remeteu o seguinte doce verso à insistente ex do seu namorado: “Queens shouldn’t swing/ If you know what I mean/ But I’m bout to take my rings off”. Falou e disse.

A iniciativa Femme It Forward tem levado cartazes de luxo a arenas norte-americanas: uma das noites suspensas à conta da pandemia contava com Missy Elliott, Rapsody, Trina e Lil Kim, no esquadrão das barras, com o suplemento da seda vocal de Tweet e do quarteto Xscape. Restando-lhe as reuniões virtuais, patrocina as batalhas organizadas por Timbaland e Swizz Beatz, em que não há nada de bélico. No máximo, um instinto para subir uma fasquia indomável. A 9 de maio, o ringue abriu-se para Erykah “She Ill” Badu e Jill “Jilly from Philly” Scott.

Um confronto entre as duas, claro, nunca seria uma batalha. As suas linguagens do amor não valiam só em obras-primas da música: também tinham uma palavra de apreço para todas as mulheres nesta luta. Ajudou o facto de nunca terem sido concorrentes à partida: quando Scott lançou o seu Words and Sounds: Vol. 1, Baduizm completava três anos. A única ameaça a esta paz foi o caso The Roots, quando o grupo de Questlove gravou o êxito “You Got Me”, em 1999, e foi forçado a substituir a majestosa voz de Scott – que a tinha composto. A decisão confundiu até quem a substituiu, Badu, que era a escolha mais viável por se tratar de um nome já fixado na indústria. Ambas ganharam um Grammy pelo tema. Cinco anos depois, haveriam de o cantar juntas, numa festa de Dave Chapelle; um ano depois, juntaram-se com Queen Latifah para criar o Sugar Water Festival (uma noite, quando calhou a Badu ser a primeira a actuar, teve que lutar pela atenção de quem estava a chegar. “What a bitch gotta do?’, recorda Scott o desabafo da amiga. “Pull out her kidney?”

Em 2020, um pico de 730 mil pessoas – a maior audiência de sempre para uma batalha Verzuz – puderam ver “You Got Me” desdobrar-se numa chuva de amor. Foi um encontro da comunidade negra que cresceu com a neo-soul e, anos depois, conjurou o tipo de amor comunal que estaria reservado a uma sala de concertos. Nunca houve hostilidade, apenas gratidão mútua – e não foi numa batalha, a primeira de muitas, que o sentimento se iria reverter. A versão de Badu rodou primeiro, cujo refrão motivou um brinde emocionado; Scott reviveu as inseguranças do momento em que o feitiço se virou, tendo de substituir Badu num concerto dos Roots, em 1999, no nova-iorquino Bowery Ballroom: “Foi aí que tudo começou”.

Naturalmente, seguiu-se um duelo de singles debutantes: a sua “Gettin’ in the Way”, a tal missiva a uma ex demasiado persistente, versus o manifesto espiritual de “On ’n’ On” com que Badu lançou o seu -ismo. Continuou com “Didn’t Cha Know”, “The Other Side of the Game”, “Time’s a Wastin”, “Love of My Life (An Ode to Hip-Hop)”, “Next Lifetime”, “Appletree”, “Cleva” – um panteão próprio do r&b mais personalizado, que diz muito ao mundo. Badu tem razão para crer no seu próprio mito, de tal forma que raramente sabe as letras de Scott, mas o que conta é a energia.

Pelas redes sociais, os ouvintes confinados foram deixando recordações poeirentas: manhãs passadas a limpar a casa ou noites a apaixonarem-se ao som de Who Is Jill Scott?. Outra história curiosa entre Scott e Badu revela-se aqui: quando Scott teve que faltar aos American Music Awards, a organização terá decidido trocar o seu nome com o de Badu na categoria do “Álbum r&b do Ano”. O que significa que Mama’s Gun recebeu o prémio que pertencia verdadeiramente a Scott – e o que, nestes termos, é um dilema injusto. Who Is Jill Scott? soava ainda a Brown Sugar, quando Badu já ia no seu Voodoo. Mas enquanto Badu prima pelo eterno desafio do som, Scott tem uma gravidade maior, uma forma quase subreptícia de se meter debaixo da pele.

É nessa rodela que a recordamos melhor. As oferendas da sua discografia mais tardia não têm o mesmo poder de fixação – embora faixas como a tórrida “Can’t Wait” de Woman (2015), ou colaborações com Robert Glasper ou SiR, convidem a uma reapreciação. “Crown Royal on Ice” vira-se contra “The Healer” de Badu: a primeira delas vidrada em sexo; a segunda um tributo ao hip hop – dois curativos diferentes, e não lhes tirem nenhum.

Alicia Keys (dizia estar a cantar em casa a plenos pulmões, o que se desencoraja fortemente), LeToya Luckett, Adele, Estelle, Swizz Beatz ou Snoop Dogg: alguns dos nomes que, volta e meia, urravam na caixa de mensagens. Precisam-se de mais representações de sororidade assim. Destas em que uma sugere que toquem um último par de músicas, a outra anui, e de repente já passou mais uma hora; destas em que uma transforma a sua equipa num coro para cantar a música da “oponente” (“The Way” de Scott).

E quando uma falha na ligação corta Badu, já com uma canção em curso, Scott retoma-a sem medos. “O Tyrone fartou-se”, dizia alguém, no meio do histerismo cómico que se segue à paragem abrupta do vídeo de Badu, que se preparava para tocar “Tyrone”, a música que praticamente inventou o termo “pachorra” só para a negar a um namorado pedante. Enquanto se tenta recuperar a ligação, Scott toma a iniciativa: “I’m gettin’ tired of yo’ shit … I think you better call Tyrone (call him!)”. As amigas estão cá para voltar a ligar.


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