#EnchufadaNaZona: O Porto mascarou-se de Lisboa para dançar

[TEXTO] Gonçalo Tavares [FOTOS] Pedro Mkk

A proposta para o último sábado era tentadora: mais de 10 horas de música (contando com a mudança da hora) unidas pela electrónica global da Enchufada. Branko queria “apresentar este conceito de evento no Porto”, dividindo a selecção de 8 músicos pelo Hard Club e Maus Hábitos. O sucesso viu-se nas duas salas cheias — mil pessoas couberam na primeira — e na agitação ininterrupta dos corpos, que em crescendo atordoaram a noite fria.

A festa começou com Progressivu, que declarou sacanagem logo às 20h30. Synths r’n’b, sopros e cordas por cima da dose rítmica pesada da editora. Foi impressionante vê-lo a dançar tanto, enquanto a sala ainda estava a acordar — haveria de voltar às 3h45, com um volume de público típico da hora tardia. E quando o vimos a detonar o Maus tivemos a certeza da verdadeira essência desta #EnchufadaNaZona: não é uma série de sets, é uma festa segmentada.

Passamos directamente para I-Zem. Ouvimos uma maior circulação entre estilos, entre batidas presas a linhas de baixo sampladas, vislumbres de dancehall e metais jamaicanos, todos colados por chops de voz, uma aparente assinatura da Enchufada. Pandeiretas e outras percussões nítidas irrompem nas colunas enquanto o produtor testa baixos sintetizados e ambiências club, ritmos brasileiros e africanos. Há um domínio na forma como manipula estes diferentes sabores, retardando e acelarando o mix, e como gera expectativa, deixa uma voz ou instrumento melodioso a estender-se qb. Cabe meio mundo nesta música e surge de forma espontânea, como os visuais da Enchufada, de cidades e apartamentos, que lentamente passavam atrás.

Pela altura em que Rastronaut subiu ao palco, a Sala 1 já estava preenchida, a abandonar o aparente formato de showcase. Os seus subs a ranger e os kicks constantes foram aplaudidos, mas menos intensamente vividos do que quando os voltámos a ouvir no Maus Hábitos. Esta dictomia Hard Club – Maus Hábitos fez também o evento: o primeiro ofereceu espectáculo, o segundo imediatez. E não há melhor exemplo disso do que o concerto de Dino D’Santiago.

 



Assobios acompanharam a entrada do cantor. Havia fãs do músico a par do último trabalho Mundu Nôbu lançado no passado dia 19. Mas mesmo não havendo, percebemos o entusiasmo que o concerto gerou. Em cima de beats cheios de corpo e do ataque das guitarras, há esta voz de cor e contornos conhecidos. Esta música tem sodade, tem o chamamento de Cesária Évora. A morna está no palco numa versão modernizada — produção nova, o balanço de sempre. Suportado por duas cantoras de vozes angelicais, esta música apresenta-se na forma de baladas doces, através das quais o falsete de Dino (em “Sô Bô”, por exemplo) cria um ambiente sedutor na plateia, inédito na noite. “Como Seria”, com o coro harmonioso entre o solista e as cantoras, teve uma beleza igualmente rara. A meio de “Nova Lisboa” o luso-cabo-verdiano canta o refrão de “Eu Não Sei”, dos Expensive Soul, revelador do seu trabalho com a banda do Porto e que redobra o interesse de uma plateia já conquistada. É evidente que ganhou destaque pelo contraste — sendo o primeiro concerto da noite e o único no Hard Club —, mas o charme do cantor, a mistura das vozes e as guitarras também a dançar foram os ingredientes de um grande concerto.

Rastronaut fez de ponte para Dino e, mais tarde, para Pedro Mafama. No Maus Hábitos, os subs ganharam um corpo imenso, as passagens entre beats foram bafejadas por uma maior frescura, a experiência foi mais directa. Foram estas as tónicas dos restantes DJs que por ali passaram — PEDRO também aí deixou a sua marca.

O público, que também encheu aos poucos o 4º andar, saturou-o pelas 2h00 com Buruntuma. O set abre com música drone, num tom mais sombrio. Por entre cordas virtuais, lança uma África sonora bem compassada. Synths pesados dão à batida uma violência inédita até então. A partir dali, quase toda a Enchufada e parte do público estão a dançar no palco. É de assinalar o sucesso com que a editora transpôs para esta zona as dimensões do Hard Club, mas aqui ela acontece confortavelmente. O mesmo impacto mas sem o palco, na consumação da mesma música por entre todos os presentes. Tambores metálicos fazem a plateia reagir efusivamente. Bastava-lhe pausar a música para obter uivos. Com uns baixos aterradores, deu uma música “para as meninas”. Com samples de guitarra, scratches e loops vocais rapidíssimos, termina após uma hora de alvoroço.

Foi com esta familiaridade, reminescente da história da Enchufada no Maus Hábitos com as festas Enchufada no Maus e Hard Ass Sessions, que Pedro Mafama sobiu ao palco para “cantar novos fados”, naquela que foi a segunda e última performance vocal do evento. A voz vestiu um vocoder para insistir em frases e refrões, um recurso revelador deste projecto tragicómico. Contudo, a sua postura neste rap congelado é enérgica e segura. Os detalhes instrumentais perdem-se ao vivo, o seu flow é unidimensional mas o intuito é claro: fazer festa e excitar o público. E nesse registo, as pessoas abraçam-no. A energia estava sintonizada com o ambiente, independentemente dos instrumentais e da performance serem de uma natureza diferente do que se ouviu no resto da noite. Em “4×4” pediu para que o público subisse ao palco e teve aderência. O concerto acabou com Pedro aos saltos. Nesta borga, leva-se a sério e levam-no a sério.

Branko fechou as duas partes desta #EnchufadaNaZona: no Maus Hábitos com Dino d’Santiago, no Hard Club em nome próprio. Com ele vieram outros visuais, pedaços do seu documentário Club Atlas, sincronizados com a música. É sintomático do trabalho do produtor, da Enchufada e do evento: sons, imagens, sabores do mundo unidos pela linguagem comum da dança. Com o lisboeta, os movimentos são tratados com excelência, por alguém que sabe exactamente o que quer provocar no público e como fazê-lo suar. As diferentes percussões que compõem os beats são autênticos balázios no nosso organismo, lançados contra uma audiência transformada num corpo de dança único. É uma imagem poderosa ver o Hard Club cheio a dançar assim. Também na sua postura há um à-vontade diferente: toca em pads os mesmos tambores que vemos nos vídeos e dança libertamente na frente do palco. Branko deu mais destaque aos chops vocais. Através deles, mais do que o uso do groove inerente das vozes, evoca certas pessoas e cidades. Para resultados menos contemplativos, reproduz “Reserva pra Dois”, temas de Buraka, entre outros, despertando reacções imediatas.

No meio dos planos de paisagens, músicos e práticas, vemos outras discotecas, com outras pessoas a dançar. Não conseguimos não pensar que isto é tudo um ciclo. Estamos a ouvir o que foi gravado, quiçá estão a nos gravar para futuras Zonas. Esta dança nunca pára, movida pelas batidas quentes e viscerais da Enchufada.

 


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