#EnchufadaNaZona no Capitólio: em casa de ferreiro, espeto de aço

[TEXTO] Alexandre Ribeiro e Manuel Rodrigues [FOTOS] Aidan Kless

Mal entrámos no Capitólio para primeiro dia do festival organizado pela Enchufada, o quadro que se pintava à nossa frente garantia uma primeira interpretação óbvia: a audiência construída desde que os Buraka Som Sistema invadiram o panorama nacional não é mais do que um reflexo harmonioso de uma Lisboa (e a sua respectiva periferia) que vive de diferentes culturas, sons e cores. E, em 2019, já não acontece exclusivamente em caves ou clubes pequenos: é um evento de dois dias com lotação esgotada numa sala de referência.

Encostados ao lado direito do local habitualmente disponível para o público, Rastronaut, Tash LC e PEDRO ficaram encarregues de intercalar os live acts, distribuindo balanços de algumas linguagens que compõem a tal “música electrónica global”: deu para ir de “Con Altura” de Rosalía & J Balvin a “Bela (Não Faz Isso)” d’Os Detroia. Vivemos, realmente, uma era de abertura e compreensão com géneros musicais que, muitas vezes, foram vistos como menores.

Com diferentes argumentos, Dengue Dengue Dengue e Dino D’Santiago fizeram valer a sua presença no palco principal: os primeiros, vindos do Peru, celebravam o lançamento do seu novo álbum (Zenit & Nadir foi editado nesse mesmo dia) e expuseram um cruzamento entre passado e presente que nos permitiu ver, ao vivo, algo inusitado: os irmãos Ballumbrosios a acrescentarem mais camadas aos riquíssimos ritmos afro-peruanos com mandíbulas de burro, as quijadas, é algo que não se vê todos os dias em Portugal; o segundo, de Quarteira para o mundo, continua a provar que o sucesso alcançado depois de Mundu Nôbu “não é sonho nenhum”. Um espectáculo bem oleado (com pequenas pontes feitas com músicas de Kaytranada ou The Carters) e Sol Lopes, Sofia Grácio e Nayela Simões a garantirem o suporte necessário para Dino fazer o que sabe melhor, cantar e encantar uma sala que se presta a cantar todas as canções do seu mais recente álbum e recebe com entusiasmo os novos temas (que farão parte de um projecto que vem aí).

Dança-se com rapidez ou lentidão, sensualidade ou contenção; só não dá para ficar apático perante tanta agitação rítmica, aliás, parece quase contranatura ficar impávido ao ouvir diferentes expressões musicais com tanta vida lá dentro. Mensagem para todos os pés-de-chumbo por esse mundo fora: se calhar ainda não encontraram foi a festa certa…



O segundo dia de festival foi também de enchente e celebração, sendo Branko, como seria de esperar, o artista mais aguardado. De frente para a sua bancada de DJ, recheada com uma parafernália de equipamento que nos confirma que este não é um simples exercício de play e stop, o produtor trouxe a cena algumas das músicas do muito aplaudido Nosso, editado em Março deste ano, coadjuvado por um mastodôntico ecrã que tratou de ilustrar a actuação: alguns frames mostram ambientes de clubbing e vários corpos embrenhados no ritmo da música, outros parecem aterrar em pleno coração de África, trazendo até nós temperaturas quentes (a dada altura o Capitólio alcançou o estatuto de sauna) e estabelecendo uma ligação directa com o código genético da obra do anfitrião.

Nosso é um documento fantástico, plural, coerente e, mais importante que tudo, agradável ao ouvido. Sem dúvida um dos melhores álbuns nacionais do ano – talvez o melhor, na verdade. São canções que soam bem em qualquer ambiente: no carro, a caminho do trabalho; em casa, enquanto se executam as lides domésticas, e na praia, em contexto estival. Mas são sobretudo músicas que se funcionam bem em ambiente de clube ou, neste caso em específico, de sala de espectáculos. O equilíbrio entre agudos e graves é notório; a missão a que se propõem é prontamente alcançada. “Movimento”, por exemplo, faz jus ao seu nome: assim que as primeiras notas irrompem dos altifalantes, são muitas as ancas que se manifestam. “Reserva para Dois”, outra das escolhas para a noite, num regresso a Atlas Expanded, saca os coros pretendidos, enquanto “Amours d’Été”, uma das mais sensuais de Nosso, serve de rastilho para danças de máxima proximidade.

A noite prometia convidados e não faltou com a palavra. Mallu Magalhães, recebida sob ovação, foi chamada a interpretar “Sempre”, com a ponte “eu vou-me refazer por ti, eu vou dizer que sim por nós / nas contas que o amor não faz, eu deixo tudo para depois” a ser fidedignamente replicada pelo público. Pouco depois, foi a vez de Dino D’Santiago levar o público ao rubro com a contagiante “Tudo Certo”. Permita-se uns curtos parênteses em torno desta canção. Quando assinei a crítica ao disco para o Rimas e Batidas, por altura da edição do disco, disse que “Tudo Certo” usufruía de uma “estrutura musical magnetizante e focada na missão de fazer tremer salas de espectáculo” e que era “uma boa faixa para ser explorada ao vivo”. Ver Dino D’Santiago em palco, secundado por Branko – que nesta canção pega em duas baquetas para tocar um pad montado à sua direita – e um público em alvoroço a acompanhar o refrão leva-me a crer que acertei no palpite. “Isto é tudo nosso”, exclama Dino no final do tema, de olhos fixos no ecrã (que por esta altura exibia em grande a capa do disco), antes de se atirar a “Nôs Funaná”. A avaliar pelo cenário de festa que nos rodeia, é caso para dizer que sim, é tudo deles.

“Agua Com Sal”, “Hear From You” e “Stand By” são outras das fracções de Nosso presentes no alinhamento. Há também tempo para uma viagem ao acervo dos Buraka Som Sistema com “Cadonga”, imediatamente reconhecida e celebrada pelos presentes. O ecrã, por sua vez, vai exibindo vídeos de Pigalle, em Paris, morada do famoso Moulin Rouge; imagens de mesas de mistura, com especial foco nos faders e knobs, e manobras de skate na baixa pombalina. Actividades e locais tão amplos quanto o próprio imaginário de Branko.

O arranque do segundo dia foi entregue a Progressivu, DJ Lag e Sansai, três actuações que se dividiram entre palco principal e um espaço secundário perpendicular à direcção da plateia (o mesmo espaço que, na noite anterior, acolheu Rastronaut, Tash LC e PEDRO). Com um objectivo em comum – o de colocar o público a dançar e, de certa forma, fazer uma boa cama para Branko –, os artistas injectaram a energia necessária através de temas como “Ree’s Vibe”, “Rich Drop” e remisturas a “SexyBack”, de Justin Timberlake, e “Bodak Yellow”, de Cardi B. Para rematar a noite, depois de Branko, Dotorado Pro trouxe consigo o músculo de “Rei das Marimbas”, “Sweet Afrika” e “African Scream (Marimbas)”, entre outras, casando na perfeição com os bonecos luminosos de constituição física desenvolvida presentes no cenário de fundo do espaço secundário. Crossfit? CrossBeat.


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