emmy Curl no Artística Festival: o discreto charme da perfeição

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTOS] Pedro Vilhena

Com uma guitarra, computador, controlador midi, pedais de loops e efeitos e ainda um par de microfones, emmy Curl encheu sozinha o belíssimo Teatro Garcia de Resende, em Évora, na segunda jornada de um festival que pretende focar-se na produção artística feminina.

Ao longo de uma hora, a artista de Vila Real (que actualmente reside em Copenhaga) espalhou pelas centenárias paredes deste nobre espaço eborense um tipo muito particular de encantamento. emmy canta de forma quase angelical, com total domínio da afinação, mas não se limita a deixar a voz soltar-se de forma natural. A gestão de dois microfones processados com diferentes efeitos permite-lhe quase criar diálogos consigo mesma, oferecendo ao som que as suas cordas vocais produzem diferentes nuances que só lhe reforçam o tal poder encantatório. É muito difícil, para não dizer impossível, não nos rendermos incondicionalmente aos pequenos universos que constrói em cada tema, esculpindo harmonias através dos loops que nos arrebatam sem pedir licença.



O alinhamento do concerto fez-se de uma viagem pelo já vasto reportório que emmy Curl construiu ao longo da última década e culminou com “Para Sorrir Eu Não Preciso de Nada”, a canção de Júlio Resende a que deu voz na edição de 2018 do Festival da Canção. Houve espaço ainda para levantar o véu sobre o material de um novo álbum a editar em 2019 e para um revelador conjunto de versões. emmy Curl cantou “Maio Maduro Maio”, tema, explicou, evocativo do período que passou em Aveiro, e que lhe permitiu assinar uma lição de luz e simplicidade, com a voz a brilhar numa das mais belas melodias do cancioneiro nacional. Outro momento alto foi a sua versão de “Tiger Mountain Peasant Song” dos Fleet Foxes: abordar em modo solitário um momento tão especial do álbum de estreia da banda de Robin Pecknold, que vive de arranjos cheios e de harmonias desenhadas a muitas vozes, já diz muito das capacidades técnicas de emmy Curl. O seu perfeito domínio da guitarra, que executa com uma muito evoluída técnica (adquirida com estudos clássicos no conservatório), casa-se na perfeição com um entendimento profundo das possibilidades oferecidas pela electrónica. emmy extrai do seu computador subtis arranjos de cordas, mas também tranquilas bases rítmicas e até gravações de campo que envolvem alguns dos momentos do concerto nos sons da natureza, com o canto das aves a confundir-se com o seu próprio chilrear.

A canção que gravou com Vicente Palma, “Dança do Sol e da Lua”, ou uma versão dos Cordel, “uma banda de amigos que está a começar e de que hão-de ouvir falar”, garantiu-nos, foram outros dos argumentos que desfilou, alternando entre o inglês e o português de forma absolutamente natural, com o domínio da dicção a roçar sempre a perfeição.



Uma contribuição importante e até mesmo decisiva para a qualidade do concerto de emmy Curl pode atribuir-se a Quico Serrano: o técnico de som de frente que nos fez pensar que por vezes parecíamos estar a escutar um CD perfeitamente gravado num refinado sistema de alta fidelidade é um veterano da cena musical portuguesa e ele mesmo um pioneiro na aplicação das possibilidades electrónicas no campo da pop com os lendários Poke, grupo que em 1984 editou o maxi Digitalmente Afectivo.

E um concerto assim obriga a questionar qual o desígnio que dita que emmy Curl não se posicione num mais elevado patamar de popularidade no nosso país. É que ela é uma artista completa, que se expressa em mais do que uma língua, com recursos técnicos vocais e instrumentais muito sofisticados e com material que merece muitos mais ouvidos do que os que lhe têm dedicado atenção.



E isso, enfim, faz-nos pensar no papel de uma proposta como a que esta primeira edição do Artística Festival faz a uma pequena cidade de 50 mil habitantes. A ambição parece ser a de vincar a diferença e proporcionar palco e público a artistas que ofereçam muito mais do que meras garantias de bilheteira ou dividendos mediáticos. Na primeira noite subiram ao palco Mercedes Péon e Mynda’Guevara — que horas antes do concerto de emmy Curl prometia novidades para breve ao Rimas e Batidas… — e hoje mesmo caberá ao projecto Segue-me À Capela fechar um cartaz que também incluiu cinema, uma exposição com arte de nove ilustradoras, debates e até um workshop sobre a construção de um festival, oportunidade para pensar colectivamente o futuro desta iniciativa.

Prova-se aqui que as verbas públicas para a cultura não servem apenas para financiar estratégias de angariação de votos, mas sobretudo para a criação de oportunidades diferenciadoras, capazes de fazerem nascer novos públicos e novas vozes artísticas nas mais variadas áreas. O aplauso impõe-se pois claro: para emmy Curl, para o Artística Festival, para as mulheres, para Évora. Venha 2020.


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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