Emily King // Scenery

[TEXTO] Pedro João Santos 

E se para fazer cinema bastassem uma voz e uma linha de baixo? Isolar a imagem do som, fazer dos limites da arte um borrão — música que também é cinema, cinema que tem de ser a sua própria música. Talvez assim o nome de Emily King, emergente e experiente artista de Nova Iorque, se pudesse opor ao de Alfonso Cuarón no “combate” por um Óscar.

É um agradável disparate pôr as maviosas notas da cantora de Nova Iorque na mesma corrida que os cristalinos planos de Roma (que Cuarón realizou). Mas como comparar um filme quietamente destruidor, de gratificação sensorial em cruz com a crueldade da vida, com o que é, na essência, música suave, que dissolve as suas pequenas amarguras em generosidade? Suavidade — esse é o mote comum; suavidade ao serviço da tensão. Na longa-metragem, esta força conjunta é uma arma de mira no coração do espectador, cujos disparos vão sendo mais regulares, na fronteira da fatalidade, ainda suaves; matando-nos suavemente Cuarón com a sua câmara. A tentação é dizer que King faz o mesmo com a sua canção, mas seria injustificado.

Em Scenery, o terceiro álbum de King — que começa com a sua saída da cidade para uma zona montanhosa a norte de Nova Iorque, almejando não o isolamento, mas o sentido de comunidade da natureza  —, a suavidade é uma fragrância, uma brisa estival. É um instrumento construído por todos os sopros, cordas, teclas, corporizado pela voz desdobrada em declaração, suspiro, sussurro ao ouvido. Converte em frequência só o intervalo entre alvorada e crepúsculo, solidão e toque, cais e comboio. Nada disto se filmou e não está nas mãos de King, que se ocupa recuperando amores terminais e louvando aqueles que nascem, fazê-lo.

Não é que isso consiga minimizar o seu poder visual. Caso haja dúvidas, basta deixar cair a agulha e esperar pelo desabrochar das maravilhas de “Remind Me”. A base de voz — aveludada, flutuante — e baixo — sensual, económico — é cumprimentada pelo piano, recebe pequenos incrementos de emoção, aumenta a pedalada. Em projecção, um êxtase sôfrego, de pé hesitante no acelerador, de olhos na noite e expectativa de algo maior. Antes que nos possamos beliscar, tão real é aquele baixo mascarado de xilofone no ouvido, quanto a estrada panorâmica diante dos nossos olhos.

O facto de continuar em movimento nessa estrada, em vez de parar a meio, diferencia Scenery do anterior The Switch — superfície polida, composições espertas, um todo sensaborão, em que só os momentos mais fortes (“Out of the Clouds”, “Believer”) se evadiam da energia frequentemente estagnante. Desta vez, King já sabe delimitar um bom ou até excepcional groove, temperá-lo e manipular a sua gravitação como se tratasse de um elegante autómato.

Acredita no seu objecto, escolhe criteriosamente a lente, aplica-lhe os planos e as luzes que por bem entende. E algo de correto está a fazer, porque se a libertação (de ou para o amor) é um lugar-comum, as suas manifestações musicais costumam perder-se para o bombástico, não o cinemático. É por isso que sabe tão bem ouvir a execução imaculada de “Marigolds”, que causa inevitáveis arrepios. A gravação é bafejada do perfume e do amarelo dos malmequeres: a voz vai discorrendo, vulnerável e sobrelevada pela paixão, até que um riff galáctico de teclado implode sobre o pano de fundo minimalista.

Predomina o jogo entre saturação e contraluz, especialmente na glória primaveril de calipso que tinge “Can’t Hold Me”, trunfo absoluto do disco. A faixa emoldura a abordagem da canção como ecossistema ouvido ao microscópio: a flauta conhece a batida jocosa e rapidamente abraçam os dois clássicos ingredientes de King, enquanto toda a ambiência é completada por sintetizadores e estalidos. Tudo cresce de forma doseada e consistente até à explosão controlada dos refrões: dar e retirar, luxuriar e tantalizar em sucessão, adágios replicados em outros momentos de ouro como “Look at Me Now” ou “Caliche”. E o último toque de mestre: em vez de uma erupção de despedida, a crescer em desmesura, King subverte a previsão e estabiliza o ritmo, num fade-out inteligente — a celebração instrumental a tender para infinito, mas afastada pela edição como uma miragem, um Mustang que se lança no horizonte e que acompanhamos de longe, na esperança de mais.

As octanas descem quando King aposta num slow burn (“Forgiveness”, ainda assim interessante por aproveitar o espaço negativo do rock de estádio), ou quando começa a aninhar-se numa zona de conforto cujos rendimentos, para o final da obra — que não merece acabar com a tépida “Go Back” —, começam a ser marginais. Também as melodias principais podiam diferenciar-se mais, mas não deixam de ser prodigiosas. A verdade é que uma aura mágica oferece muita resistência.

A arquitectura de Scenery comprova, além de uma exímia vocalista e instrumentista, a estratega que há em King. É uma experiência sensorial, para estudar, ouvir ou ver. Porque, sim, a música pode ser cinema; o cinema pode ser música. Roma não tem score, à excepção de vozes, passos, fauna e ruído da rua, e ainda assim parece uma sinfonia compassada, de tom pianíssimo num segundo, de arpejo ríspido no outro, os movimentos em gradação devastadora. Arrisquem levar-se numa pequena abstracção e é quase audível, como aquela canção especial que tentamos reproduzir num silêncio interior. No caso deste belíssimo longa-duração, visualizar a música não é um esforço, é a resposta imediata a um convite que tem tanto de magia como de intenção. Ou não fosse Scenery o seu título.

É um lugar-comum equiparar estas duas artes, mas esta mostra de talento para uma artista que tudo faz com ampla propriedade injecta-lhe uma dose letal de originalidade. E quando King desmonta a sua própria máquina, não é para nos mostrar as engrenagens. Temos espaço para imaginá-la, mas a única coisa que interessa é chegar à paisagem — seja de que forma a queiramos receber.


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