Emicida sobre “Eminência Parda”: “Eu quis muito montar um time que mostrasse uma música preta e grandiosa”

[TEXTO] Alexandre Ribeiro e Núria Rito Pinto [FOTO] Direitos Reservados

O racismo e a vivência negra são dois tópicos quentes no mais recente single de Emicida. “Eminência Parda” coloca o MC paulistano lado a lado com a paraense Dona Onete, o paulista Jé Santiago e o português Papillon, que, depois da participação em “Língua dos Campeões“, volta a estabelecer uma ponte entre Portugal e Brasil através do rap.

Este é o tema que antecipa a edição de Permita Que Eu Fale, disco que sucederá a Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa, de 2015. Ainda sem data de lançamento, já se sabe que o álbum sairá com o selo da Laboratório Fantasma e terá distribuição da Sony Music.

Em 2019, Leandro Roque de Oliveira tem duas actuações marcadas em território nacional: os concertos acontecem a 11 de Julho, no NOS Alive, e a 12 de Julho, no AgitÁgueda.



Juntas quatro artistas de registos e gerações diferentes numa só faixa: que mensagens ou significados quiseste colocar em evidência com esta escolha?

Eu acredito que o facto de cada uma dessas pessoas que estão na faixa terem nascido em momentos e lugares diferentes é um detalhe. A questão principal para mim é a essência do que cada um deles produz e como isso emana para o planeta, saca? Então nesse sentido a gente não é obrigado a respeitar nem o tempo, nem o espaço. A gente transcende tudo isso e entra dentro do estúdio na intenção de construir uma única voz que volta para esses quatro pontos de nascença de todas as pessoas envolvidas e fortalece a raiz de cada uma, mostrando que cada uma delas é múltipla e criativa e que consegue coabitar com qualquer outra manifestação musical. Eu vejo, tanto na Dona Onete, quanto no Papillon, quanto no Jé, quanto em mim mesmo, uma grande capacidade de diálogo, independente do lugar por onde passa. Para mim era muito importante traçar essa linha que conecta de alguma maneira o sample do canto dos escravos que estava na voz da Clementina de Jesus e hoje ele vem através da Dona Onete, que é uma voz ancestral ainda viva, junto com o Jé, que é a voz de uma nova geração do rap de São Paulo que tem ensinado muita coisa para a minha geração, que já não é a geração mais actual, mas que continua com a capacidade de aprender com os novos nomes, que inclui, [como é] lógico, o Papillon.

Como chegaste até esta equipa e de que forma é que cada um deles foi ao encontro do que pretendias para este primeiro single?

Eu quis muito montar um time que mostrasse uma música preta, uma música grandiosa. Um time orgulhoso. Um time de jovens que reverenciam a Dona Onete, que abre e encerra a canção. Um time de brasileiros que convida um irmão lá de Portugal, que é o Papi, demonstrando um grande respeito por ele. E é um mano de Portugal que sente vida na mesma energia que os irmãos do Brasil. Essa era a intenção: sincronizar toda essa emoção. Como os Iorubás diziam, “tudo o que acontece agora já aconteceu em outro tempo”. Então acredito que em outro momento da história a gente já teve junto. Nesse momento, nessa faixa, a gente conseguiu se reunir mais uma vez. É uma parada muito espiritual para mim, ouvir essa música com uma força espiritual muito grande.

“Eminência Parda” talvez seja a faixa mais trap que nos mostraste até agora: era importante para ti passeares-te por esta sonoridade?

Muita gente tem me falado sobre a influência do trap. Se a gente for fazer uma análise sobre as várias vertentes do rap que já existiram, várias delas eram mais lentas, várias delas abusavam do grave, várias delas eram lentas com caras cantando com auto-tune, sacou? Inclusive no rap brasileiro. Então, o que eu acredito é: o trap nesse momento de popularidade é uma vertente com a qual os jovens se têm divertido mais, assim como em outro momento foi o dirty south, assim como em outro momento foi o boom bap. Acho que o signo cristalizado no coração do planeta inteiro que representa a essência do que é o verdadeiro rap continua sendo o boom bap, mas isso não significa que o trap seja uma forma menor de se fazer rap. Para mim são só vertentes de um mesmo género, são galhos de uma mesma árvore, tentáculos de um mesmo monstro, entende? E acho que a gente pode passear por todos porque no final do dia nós somos uma única coisa: a música rap de verdade.

Como olhas para esta cada vez maior aproximação do rap BR/PT, principalmente no último ano?

Eu acho que isso é bacana, mas eu não gostaria de limitar isso simplesmente a uma relação Portugal-Brasil, muito pelo contrário, eu acho que a lusofonia como um todo tem-se conectado. Angola, Cabo Verde, Moçambique, São Tomé… Portugal entra nessa brincadeira, obviamente. Mas o que eu acho incrível é que a gente está conseguindo construir uma ponte que conecta visões, sentimentos, positividade, uma vez que a música rap é a principal ferramenta de comunicação da diáspora africana pelo planeta. Então eu acredito que a gente está fazendo um óptimo exemplo do que é essa ferramenta de comunicação sendo usada para conectar as pessoas que nascem nesses lugares que eu citei antes, sacou? Acho que assim a gente constrói um panorama muito bacana a respeito da diversidade e das visões, trocando informações sobre cada um desses lugares e transformando tudo num lugar só dentro do imaginário das pessoas. O passado foi sangrento, foi triste muitas vezes, mas eu acredito que o rap está conseguindo criar pontes que constroem um panorama muito interessante a respeito de conhecer a nós mesmos e aos nossos irmãos, que falam um idioma muito parecido connosco.


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