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Fotografia: Direitos Reservados

Para conhecer melhor o incrível Brasil electrónico através de nomes como Arthur Joly, Boss in Drama ou Tetine.

Eletronica:Mentes, “um olhar sobre um lado pouco explorado no universo da música electrónica” no Brasil

Fotografia: Direitos Reservados

Vivemos numa época perfeita para o resgate da esquecida história da música moderna mundial, não só a nível de registo tecnológico como pela urgência em estarmos a perder as principais figuras que a música como a conhecemos nos deu em meados do século passado.

No trailer que acompanha o documentário Eletronica:Mentes — o mais recente filme dedicado à cronologia da música electrónica no Brasil –, o duelo “criatividade vs. tecnologia” é lançado por uma das figuras de proa da experimentação sinusoidal, o compositor Jorge Antunes.

Para perceber entender melhor esta época de ouro no Brasil em que a criatividade superou a tecnologia, conversámos com o trio de realizadores (Denis Giacobelis, Dácio Pinheiro e Paulo Beto) deste pioneiro documentário, que tem exibição marcada para o próximo dia 27, no festival IndieLisboa.



Sem spoilers mas para aguçar o apetite de quem nos lê, como apareceu a música electrónica no Brasil?

Pensamos que o aparecimento da música electrónica no Brasil teve a ver com a visão sobre o futuro e o desenvolvimento tecnológico ao redor do globo terrestre. Essa “novidade” circulava o mundo no início dos anos 60. Alguns países investiram pesado em laboratórios de criação e outros, como o Brasil, ficaram apenas como espectadores em concertos. Os primeiros brasileiros a estudar e até a criar música com recursos electrónicos fizeram isso enquanto estudavam na França.

Oficialmente, partindo do apoio governamental, o Brasil sempre foi mais direccionado às manifestações folclóricas, mas isso não significou que não houvessem pessoas com o espírito desbravador dessa linguagem musical futurista e de vanguarda.

Um dos marcos dessas experiências aconteceu nos anos 40, quando o imigrante alemão H.J. Koellreutter realizou um workshop no Brasil, para incentivar músicos brasileiros a experimentarem e extrapolarem o uso pretendido para instrumentos convencionais.

Passaram-se mais de 20 anos até que o músico uruguaio, naturalizado brasileiro, Conrado Silva, trouxesse um dos primeiros sintetizadores para o Brasil. Em 1961, o maestro Eleazar de Carvalho nos trouxe o primeiro evento musical que utilizava recursos electrónicos, a “1a Semana de Música de Vanguarda”, com a participação de compositores como Luciano Berio, Henri Pousseur, David Tudor, a pianista brasileira Jocy de Oliveira, entre outros.

Essas experimentações abriram a mente dos jovens músicos da época, que começaram a perceber infinitas possibilidades criativas.

No Brasil, demorou muito para que houvesse algum estúdio dedicado a criação de música electrónica. Jorge Antunes foi um pioneiro, enquanto jovem e estudante de música fez um curso de electrónica e a partir desses conhecimentos foi capaz de construir seus primeiros osciladores, filtros e até mesmo um theremin, já no início dos anos 60.

A criação desses sons despertou o interesse de vários músicos brasileiros. Bandas como Os Mutantes incorporaram elementos electrónicos em seu rock psicadélico e foram os primeiros a levar a nova tecnologia ao topo das paradas nacionais e internacionais.

No nosso documentário não foi possível abranger todos os experimentos no país, mas ele aborda a evolução tecnológica e o desenvolvimento de máquinas electrónicas. Hoje vemos que a evolução da música comercial, o uso do computador, dos softwares e o aparecimento dos aplicativos para smartphones e tablets despertaram novos questionamentos e facilitaram a forma de se produzir música com sons electrónicos. Porém não foi só a música electrónica que evoluiu: o Brasil se transformou e algumas cidades cresceram de forma muito acelerada. Sons sequenciados não existem na natureza, mas eles dominam as cidades grandes, em semáforos, máquinas de construção e linhas de montagem. Por estar exposto à esses componentes da vida moderna, o público está, inconscientemente, abrindo uma nova percepção para a música electrónica.

Que diferenças se encontram entre a música electrónica no país durante e no pós-ditadura?

A ditadura no Brasil reforçava muito essas ideias ufanistas, e um pensamento de arte progressista não era coisa de facto muito compatível. E o pós-ditadura também não foi fácil. A música electrónica ainda estava relegada a um universo muito elitista e encontrava muitas barreiras. Nesta época havia uma enorme restrição a importação de equipamentos e sintetizadores, o que dificultava muito a vida dos músicos que se interessavam por este universo musical. Mas como estamos falando de Brasil, para tudo se dava um jeitinho, e nos anos 80 a música electrónica começou a ganhar mais espaço. Várias bandas apareceram nessa época, ajudando a estabelecer um novo estilo de se fazer música no Brasil. No final dos anos 80, foi criado o primeiro selo dedicado totalmente a música electrónica, a Cri Du Chat.

Como vos surgiu a ideia de traçar esta cronologia num filme? E como foi produzir todo este filme e compactar 60 anos de história em 80 minutos?

No começo do projecto nossa ambição era exactamente essa mesmo, mas logo percebemos a enorme dificuldade em contar 60 anos de história em 80 minutos. Essa intenção cronológica foi deixada de lado e decidimos mostrar um recorte, introduzindo os mestres e pioneiros, criando um diálogo entre diferentes gerações. Mais do que contar a história da música electrónica, nossa intenção foi explorar as influências, os processos criativos e também um pouco sobre as experiências pessoais dos entrevistados.

Lê-se na sinopse do vosso documentário a dissociação da exclusividade na música electrónica para a pista de dança, o que é comum aos poucos documentários sobre o género.

Hoje em dia, quando se fala em música electrónica, a grande maioria das pessoas visualizam o ambiente das pistas de dança. No entanto, a linguagem musical desenvolvida a partir de equipamentos tecnológicos faz parte da cultura popular desde o começo do século passado.

O nosso objectivo foi lançar um olhar sobre um lado pouco explorado no universo da música electrónica. Por exemplo, no documentário abordamos figuras importantes como o Arthur Joly e a construção caseira de equipamentos electrónicos. Temos ainda a participação de bandas como Anvil FX, que utiliza equipamentos analógicos; o Boss in Drama, que produz com computadores, e o duo Tetine, que explora a música electrónica aliada a performance.

Principalmente para os entrevistados da geração do Jorge Antunes, como foi a abertura para falar sobre aqueles tempos e como foi a sua reacção ao depois ver o filme terminado?

Não poderia ter sido melhor, tivemos muito apoio de alguns pioneiros brasileiros, destacando Jocy de Oliveira, Jorge Antunes, Luiz Roberto de Oliveira e Rodolfo Caesar. Foram muitas conversas, histórias e factos curiosos, que todas estas pessoas incríveis compartilharam connosco.

Inclusive tivemos uma grande dificuldade em deixar algumas histórias de fora, mas como a receptividade do filme foi muito boa, isto nos levou a pensar em um projecto de série para o Eletronica:Mentes, com novas histórias e artistas que não entraram no filme. Ai sim, focando mais na história da música electrónica.

Foi fácil o acesso a todo o arquivo presente no documentário?

Esse processo foi muito desafiador, fizemos um trabalho minucioso de pesquisa. No geral é muito difícil ter acesso a materiais de arquivo e muitas das coisas se perdem com o tempo. Basicamente, não existe uma preocupação em preservar a memória, mas mesmo assim conseguimos um bom material de arquivo directamente com alguns entrevistados. Outros materiais conseguimos acessando acervos de canais de televisão.

A pesquisa foi uma das partes mais instigantes na criação do documentário, encontramos alguns materiais raros e importantes para a história. Recentemente uma nova descoberta de arquivos nos incentivou a fazer uma nova finalização do filme, e é esta nova versão que iremos exibir no IndieLisboa.

Como é actualmente o cenário da electrónica mais diferenciada no Brasil?

Igualmente como no resto do mundo, existe uma produção bastante ampla de muitas vertentes do género. Certamente é algo que está acontecendo no planeta inteiro e o Brasil não fica de fora. Temos grandes festas, shows patrocinados por entidades culturais e governamentais. Hoje temos até uma fábrica de vinil funcionando bem.

A facilidade de hoje em dia na compra de equipamentos, a Internet e a utilização de programas para a criação de música ajudam muito essa produção.

A criação da música electrónica não está mais fadada a uma elite, como antigamente, ela já rompeu essa barreira e é um estilo que está presente em toda a sociedade brasileira. Nunca se fez tanta música deste género no Brasil, desde as grandes capitais como São Paulo e Rio de Janeiro chegando até o Amazonas e Pará, onde temos a cena forte do tecnobrega. Por exemplo, no Rio de Janeiro temos o funk, com grande destaque na mídia. Nossa intenção no documentário foi mostrar um universo pouco explorado e mais focado na música electrónica experimental.

Como vocês vêem a atenção dada fora-fronteiras a alguma da música mais obscura do Brasil, não só no campo da electrónica como pelas compilações disco/boogie ou nas reedições de discos da psicadelia esquecida?

Houve um momento, há 10 anos, que o Brasil estava mais em foco. Foi uma oportunidade até para o próprio brasileiro se informar melhor sobre as pérolas produzidas no país. No documentário contamos com a participação de uma figura representativa do cenário do rock progressivo, Amyr Cantusio, mais conhecido como ALPHA III. Procurámos dentro da música mais experimental, explorar diversas vertentes e gerações. Não conseguimos abordar todos os estilos, mas pelo menos conseguimos alguns representantes de diferentes fases e vertentes.


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