Electrónica pioneira dos canadianos Syrinx inspira novo documentário


[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] Bart Schoales / RVNG Intl.

O álbum Tumblers From The Vault dos canadianos Syrinx editado na recta final de 2016 pela norte-americana RVNG Intl. inclui-se entre as melhores edições de arquivo do ano passado. De facto, nos ultimos tempos, a febre editorial em torno da memória electrónica tem rendido inúmeras edições absolutamente incontornáveis e este lançamento em triplo LP e duplo CD que reuniu a totalidade da produção do trio criado por John Mills-Cockell (sintetizadores) juntamente com Doug Pringle (saxofone) e Alan Wells (percussões) merece certamente essa distinção.

Mills-Cockell esteve ligado aos Intersystems em finais dos anos 60, importante colectivo experimental multidisciplinar de Toronto que foi igualmente alvo de uma importante reedição pela Alga Marghen em 2015. O background deste compositor estava na academia, tendo estudado na Universidade de Toronto onde aliás criou um laboratório dedicado ao estudo da música electrónica. Foi essa a bagagem que carregou para os Syrinx, criados já em 1970 e reflexo de uma vibrante cena experimental que fazia daquela cidade canadiana um importante polo criativo no lado mais subterrãneo e experimental da América do Norte. O produtor Felix Pappalardi que trabalhou por exemplo com os Cream foi o responsável por conseguir um contrato de edição para os Syrinx com a indie canadiana True North.

Os Syrinx editaram o álbum homónimo em 1970 e Long Lost Relatives no ano seguinte, registos que viviam de uma cumplicidade profundamente orgânica entre o moog de Mills-Cockell, o saxofone processado de Pringle e as bases rítmicas conjuradas por um subtil Wells. “Hollywood Dream Trip”, do primeiro álbum, combina – tal como sublinha o press release oficial da RVNG Intl. – pistas apreendidas nos trabalhos de Erik Satie, John Cage e na era dourada da composição para cinema, certamente um reflexo dos sérios estudos do líder do trio.

 



Com o loft de Doug Pringle a servir de base para apresentações ao vivo e para cruzamentos com elementos exteriores ao trio, os Syrinx não demoraram a criar uma rede de contactos que lhes permitiu trabalharem com orquestras ou aceitarem trabalho para artes performativas e até para televisão, caso de “Tillicum”, uma encomenda para o genérico do popular programa de televisão Here Come the Seventies.

O crescimento da atenção em torno da electrónica pioneira das décadas de 60 e 70 do século passado tem neste “regresso” ao presente dos Syrinx um claro ponto alto: o grupo que nunca se fez ouvir para lá das apertadas margens dos círculos experimentais de Toronto há quase cinco décadas, merece agora uma nova oportunidade de ser escutado e na sua música adivinha-se uma intemporalidade que é o mais claro sinal do estado avançado em que a música foi originalmente criada.

O documentário da autoria de Zoe Kirk-Gushowaty, um artista visual natural de Vancouver, chega em vésperas dos Syrinx fazerem o seu primeiro concerto em mais de 45 anos: o trio está incluído no ambicioso programa do incrível Moogfest que acontece em Durham, na Carolina do Norte, Estados Unidos, entre 18 e 21 de Maio próximos. Os Syrinx actuarão no dia 20 como parte de um cartaz que inclui ainda performances de gente como Suzanne Ciani, Animal Collective, S U R V I V E ou Peanut Butter Wolf. O documentário sobre os Syrinx será exibido no dia 18 e John Mills-Cockell integrará uma conversa no dia 19 em que participarão também membros dos Animal Collective do “lisboeta” Noah Lennox.

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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