Ed Motta: “A canção caiu em desuso”

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] Direitos Reservados

O artista brasileiro Ed Motta sobe esta noite ao palco do Capitólio, no Parque Mayer, em Lisboa, para apresentar Criterion of the Senses, a sua mais recente investida pelos terrenos do soft rock e do jazz de fusão, marcando assim o seu regresso à estética que já tinha sido explirada no seu álbum AOR.

O músico, que começou por pegar na tocha erguida pelo seu mítico tio Tim Maia lançando no início da carreira discos mais próximos do funk e do boogie, deu início a uma subtil transformação no seu som no início deste século com a edição do hoje clássico Dwitza, trabalho mais próximo do jazz e refinado pelos seus atentos estudos da música americana que colecciona fervorosamente há décadas.

Perpetual Gateways, de 2016, voltou a aproximá-lo do jazz, mas os álbuns AOR de 2013 e o mais recente e já citado Criterion of the Senses encontram Ed Motta a explorar a luxuriante sonoridade da costa oeste dos Estados Unidos, mas que também conheceu ponto alto na discografia de uma banda como Steely Dan, sobretudo no período que se estendeu entre finais dos anos 70 e inícios dos anos 80. Essa sonoridade tem no presente marcado também a obra de músicos como Thundercat, por exemplo. Ed, no entanto, não se revê no presente nem se alinha com alguma mais ampla vaga, deixando claro que tem uma visão muito pessimista da música contemporânea e do hip hop, corrente que desvaloriza como campo de criação válida.

Antes da sua subida ao palco do Capitólio, mais logo, Ed Motta trocou algumas palavras com o Rimas e Batidas deixando mais clara a sua visão da música, do cinema, do mundo e até dos vinhos portugueses.



Para onde e para que época viajaria se tivesse uma máquina do tempo?

Eu viajaria para os anos 70 pela minha paixão pela estética sonora dessa época, mas por outro lado também sou um obcecado pelo cinema dos anos 40 e 50. Então em termos de cinema eu viajaria para os anos 50, mas na música eu viajaria para os anos 70. 

E para que cidade?

Nos anos 70 eu iria para Nova Iorque. Nos 50 Nova Iorque também [risos]. 

Neste recente Criterion of the Senses você explora de novo o som que alguns classificam como yacht rock. O que é que mais o inspira nas gravações que geraram essa corrente nos anos 70 e 80?

A coisa que mais me fascina é a acuracidade de estúdio, é o cuidado máximo com a gravação, um cuidado que foi perdido ao longo dos anos, essa obsessão pela qualidade do áudio depois do período punk, na verdade, né, mas que isso ainda tinha no início dos anos 80, onde ainda se vivia o momento do pós-punk. Então acho que principalmente o cuidado com a gravação, um cuidado artesanal, assim no sentido da mistura, da gravação, da escolha dos microfones certos, da escolha dos equipamentos correctos, tudo o que possa ficar o mais próximo de uma realização sónica perfeita.

Ok, e pode indicar-me dois ou três estúdios de referência, dois ou três produtores dessa era?

Os estúdios de referência seriam o A&R Studio, em Nova Iorque, e o Ocean Way, em Los Angeles. Produtores nem tanto, eu não sou tão ligado nos produtores, acho que a função do produtor um pouco estranha. Eu acredito mais nos artistas que se produzem. Nesse caso, a importância seria do técnico de som, do engenheiro de gravação. Os dois que eu citaria como os meus favoritos de todos os tempos e que são referência técnica para a música que eu faço seriam o Roger Nichols, que chegou a trabalhar até na NASA e no projecto da Colômbia (aquela nave que explodiu) — no estúdio ele é muito bom, mas na NASA ele fez lá explodir um negócio [risos] –, e o outro é o Elliot Scheiner. Eles dois são os técnicos que trabalharam nos discos mais perfeitos dos Steely Dan, minha grande referência estética.

Eu tinha uma pergunta planeada um pouco mais para a frente relacionada com os Steely Dan, que lhe vou colocar agora: descobri a banda através de um sample no primeiro álbum dos De La Soul. A minha pergunta é: a sua música, sobretudo a que tem produzido nos últimos tempos, tem conhecimento se tem sido samplada por artistas de hip hop no Brasil?

Não, eu tive alguma coisa “sampleada” do meu primeiro disco, mas que eu tenha conhecimento o meu material, graças a Deus, não é “sampleado”, e digo graças a Deus porque eu acho isso uma coisa extremamente desonesta, a cultura do sampler. Eu acho culturalmente e intelectualmente desonesto.

Quer elaborar um pouco mais sobre essa ideia?

Acho que é isso mesmo. Acho desonesto por ser uma coisa que não é necessário nenhum talento para você roubar quatro compassos de uma música de alguém, colocar uma batidinha electrónica… acho que isso não é uma criação, é uma deturpação. É colocar um bigode na Mona Lisa, pegar um quadro de Van Gogh e colocar óculos ou qualquer coisa do género. É uma piada iconoclasta.

O Ed acabou de descartar boa parte da produção contemporânea de arte, mas tudo bem… Fale-me um pouco do espectáculo: quem vai estar com você em palco?

São músicos que trabalham comigo já há um bom tempo aqui na Europa. É o Matti Klein no piano, o Yoran Vroom, baterista holandês, o Laurent Salzard, que é um baixista francês, e o guitarrista é o Arto Mäkelä, finlandês de Helsínquia. 

A sua banda é uma espécie de Europa unida, não é?

É verdade [risos]. 

Sabe, vários músicos têm explorado uma vibe semelhante à que tem no álbum Criterion of the Senses ou no AOR, como é o caso do baixista norte-americano Thundercat. Pergunto-lhe se tem ouvido alguma música que é produzida no presente com que sinta algum tipo de afinidade?

Não, não tenho. A música que me interessa parou em 1982. Não tenho nenhuma afinidade com a música produzida depois desse período porque quando aparece algum perfume da cultura hip hop ou de algum instrumento electrónico ou de alguma coisa de bateria electrónica ou de edições de estúdio, alguma coisa próxima dessa cultura, já não me interessa nem um bocadinho assim.

Como é que diria se encontra a cena musical do Brasil actualmente, tendo em conta o cenário político e social?

Eu acho que a cena do Brasil é igual à cena mundial: é uma cena bem ruim. É uma cena pobre de música, mas isso não é uma exclusividade do Brasil. A América do Norte, que sempre fez a música popular mais brilhante do mundo, vive nos últimos 30/40 anos um período de hiato criativo total. É um hiato criativo imenso desde que a cultura hip hop foi considerada uma cultura, o hiato já começou aí. Não existe mais melodia, não existe mais canção. A canção caiu em desuso. Não tem um compositor como o Burt Bacharach ou qualquer coisa assim. A canção como se conhecia, nos anos 60 ou 70, quando um cidadão vai para uma faculdade de música estudar composição… Essa composição está perdida no mundo de hoje. Num mundo onde qualquer pessoa que saiba copiar uma máquina e fazer um copy paste de um loop de bateria, né?, e de um acorde de teclado… hoje em dia existem programas que a pessoa aperta um botão e coloca dó menor, ré menor, os acordes estão prontos já. Então isso não tem absolutamente nenhum mérito intelectual nisso, nem de escolha. É um período de escuridão intelectual, penso eu. Isso não é uma exclusividade só da música, eu acho isso no cinema também, eu acho que o cinema produzido nos últimos sei lá quantos anos bastante ruim. Eu acho que talvez o cinema seja até pior do que a música.

Mudando de conversa, como anda seu hábito de comprar discos? Planeia visitar algumas lojas em Lisboa?

Infelizmente eu não vou ter tempo porque vai ser muito rápido. Eu vou tocar no Algarve domingo e chego em Lisboa de tarde, porque vou de carro, então infelizmente não vou ter tempo, mas eu não tenho comprado muito disco porque eu já tenho uma colecção muito grande. É uma colecção de quase 30 mil discos e eu tenho procurado absorver mais esses discos que eu já tenho. É claro que sempre que sai alguma reedição, alguma coisa que eu preciso ter… por exemplo, uma reedição que eu comprei recente foi da dupla inglesa de jazz Don Rendell e Ian Carr (NR: The Complete Lansdowne Recordings).

Uma das melhores reedições do ano passado, sem dúvida. Também comprei a caixa, sim, e os individuais!

Eu tenho os originais de dois deles, que até quero vendê-los porque valem muito dinheiro, e eu não faço tanta questão de ter o original já que a reedição da Jazzman está muito bem feita. Esse é um disco que eu comprei recente. Também comprei aquela gravação que saiu o ano passado do John Coltrane com as coisas que tinham sido achadas dele (NR: Both Directions at Once). Eu compro algumas coisas. Comprei a caixa dos The Zombies (NR: The Complete Studio Recordings), que eu adoro rock também. Enfim, eu compro uma coisa aqui e lá, mas eu não tenho comprado muito disco porque tenho demais em casa.

Uma última pergunta, Ed. Não vai ter tempo de ir a loja de discos, mas certamente há-de ter tempo para jantar em Lisboa. Algum vinho português com que se gostasse de reencontrar nesse jantar?

Na verdade vou jantar na casa do meu amigo Joaquim Paulo, ele vai fazer um arroz de tamboril para mim, que é o meu prato favorito português, junto com arroz de pato. Eu sou muito fã dos vinhos de Colares. 

Aqui da minha zona! 

Os vinhos da Viúva Gomes são os meus favoritos de Portugal. São os vinhos de mais característica realmente portuguesa, são vinhos que não ficaram internacionalizados como os vinhos do Alentejo e do Douro, que sofrem uma influência da cultura americana e inglesa. São vinhos mais autênticos, diria eu, os vinhos de Colares. São vinhos menos comprometidos com um mercado tecnológico. São vinhos menos industriais.


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu