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Fotografia: Adriano Ferreira Borges
Publicado a: 29/01/2026

Duas exploradoras dividem o palco para uma apresentação inédita.

Ece Canli e Rojin Sharafi antes do concerto no gnration: “A experimentação é uma parte crucial do nosso trabalho”

Fotografia: Adriano Ferreira Borges
Publicado a: 29/01/2026

No Ciclo de Música Discreta do gnration, o encontro entre Ece Canlı e Rojin Sharafi materializa-se num espetáculo que nasce de uma residência artística e se afirma como território de escuta, risco e descoberta. Mais do que uma colaboração pontual, esta apresentação é o resultado de um processo onde dois percursos sonoros muito distintos se colocam em confronto directo, à procura de pontos de contacto, fricções produtivas e novas formas de habitar o som em palco. Para ver e escutar este sábado, 31 de Janeiro.

Ece Canlı, artista turca radicada em Portugal, tem vindo a desenvolver um trabalho singular em torno da voz enquanto matéria física, tecnológica e performativa, explorando os seus limites para lá do canto e da linguagem. Já Rojin Sharafi, compositora iraniana sediada em Viena, constrói paisagens onde electrónica, gesto acústico e dramaturgia sonora convivem com uma intensidade quase táctil. Ambas operam num espaço onde composição e improvisação se contaminam mutua e naturalmente, e em que a dimensão física e corporal do som é central.

Ao longo desta conversa, as artistas revisitam o início da parceria, a forma como os seus processos criativos se encontraram durante a residência e as afinidades inesperadas que reconheceram nos seus universos estéticos. Falam da necessidade de estrutura num contexto performativo, mas também da importância de deixar espaço para o imprevisto, para que o erro e a surpresa funcionem como motores do gesto artístico. A entrevista atravessa ainda temas como a relação entre tecnologia e voz, o peso dos contextos culturais nas suas práticas e o risco como condição essencial do crescimento criativo. Mais do que descrever o espectáculo, este diálogo ajuda a perceber as camadas invisíveis que o sustentam e convida o público a uma escuta aberta, curiosa e permeável ao inesperado.


 
 
 
 
 
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Como começou esta colaboração e o que mais vos animou em desenvolver um trabalho conjunto para o Ciclo de Música Discreta na gnration?

[Ece] A colaboração começou com o convite da Lovers & Lollypops, que também é a minha editora. Conhecendo os nossos trabalhos individuais, eles devem ter visto algo em comum entre o meu trabalho e o da Rojin; e, dado que colaborar com alguém que vem de fora do seu mundo sonoro sempre tem os seus riscos e surpresas, é sempre emocionante embarcar em tais processos, fundindo o mundo de alguém com o seu.

Podem descrever como os vossos respectivos processos criativos se fundiram durante a residência? Houve momentos de conflito ou sinergia inesperada?

[Rojin] Como o resultado da residência era claro — um espetáculo —, abordámo-la de forma prática. Tentámos trazer ideias e peças, moldar uma dramaturgia a partir delas e dar espaço à outra pessoa para contribuir e encontrar um papel ou uma forma de trazer elementos do seu próprio mundo para o trabalho.

Como descreveriam o vosso mundo sonoro individual e quais os elementos artísticos fundamentais do vosso trabalho a solo que trazem para esta performance colaborativa?

[Ece] É difícil descrever o próprio mundo sonoro individual, mas a semelhança que vejo entre o meu e o da Rojin é que, posso dizer, há uma certa escuridão, mas também vitalidade, nos trabalhos de ambas. Tendo isso em conta e, como a Rojin mencionou, devido ao objetivo da residência em termos de resultados e restrições de tempo, fizemos uma selecção dos nossos trabalhos individuais que comunicariam melhor entre si no clima que queríamos transmitir. Então, colocámos as nossas composições individuais, peças sonoras e ideias na mesa e começámos a improvisar nos trabalhos uma da outra e, em seguida, a seleccionar partes significativas deles.

Que tipo de experiência auditiva esperam que o público tenha neste concerto e como as pessoas devem abordá-lo?

[Rojin] Espero que a música que tocamos seja aberta à interpretação. Espero que o público sinta as emoções que estamos a tentar expressar, mas a forma como essas emoções são intelectualizadas ou não intelectualizadas, associadas ou não, categorizadas, lembradas e transmitidas pelo público fica ao seu critério. Quero que o público ouça algo que pareça uma experiência, porque a experimentação é uma parte crucial do nosso trabalho.

As vossas práticas envolvem improvisação e composição: como equilibram a estrutura planeada com elementos espontâneos na performance?

[Ece] No meu trabalho, compor e improvisar são dois atos inseparáveis; no entanto, a forma como funcionam e até que ponto o material improvisado se solidifica e a composição permite espaço aberto para experimentar são bastante específicos do contexto. Quando se está condicionada por certas restrições de tempo ou estruturas conceptuais (por exemplo, um álbum, uma banda sonora, uma peça performativa), a estrutura planeada é imprescindível, embora a essência do material em si possa vir de improvisações repetitivas e trabalhadas. Penso que, além do aspecto sonoro, a parte performativa e corporal de fazer música, pelo menos para mim, necessita necessariamente de espaço para improvisações no palco, para que surjam surpresas, coisas espontâneas ou inesperadas, tanto quanto o material planeado para me sentir segura o suficiente para navegar por uma experiência dramatúrgica significativa.

Ece, o seu trabalho desafia frequentemente os limites convencionais da voz; Rojin, as suas texturas abrangem o analógico e o digital. Como é que a tecnologia e a voz humana interagem nesta performance?

[Ece] No meu trabalho, trato a voz humana como uma tecnologia em si, não externa ao domínio mecânico ou digital, embora muitas vezes mantenha a tensão e a ludicidade entre essa integração e o seu lado orgânico e psicoacústico. Nesta performance, da mesma forma, a voz aparece como uma tecnologia incorporada como parte da paisagem sonora.

[Rojin] Acho que elas interagem e influenciam-se organicamente, pois muitas vezes me interesso por sons electrónicos que se assemelham aos acústicos ou que têm atributos orgânicos e dinâmicos.

Como as vossas origens culturais (Turquia/Portugal para Ece; Irão/Áustria para Rojin) moldaram os vossos pontos de vista artísticos e a música que criam? No vosso trabalho criativo, que riscos assumem que consideram essenciais para o crescimento artístico? Esses riscos mudaram durante a vossa colaboração?

[Rojin] Assumir riscos — durante a composição, durante a fase de produção e também ao improvisar e estar no palco — é realmente importante. Cada vez que se assume um risco, há uma experiência de aprendizagem que resulta disso, o que, idealmente, não torna as suas decisões mais conservadoras, mas, em vez disso, incentiva-o a continuar a assumir riscos. Nesta colaboração, como em quase todas as peças, uma pessoa está a liderar, torna-se mais fácil para a outra pessoa assumir riscos e experimentar ideias diferentes.

Após este projeto, quais são os horizontes que pretendem explorar a seguir — individualmente ou, possivelmente, juntas novamente?

[Ece] Continuar a explorar o que está escondido por trás do invisível e do inaudível.


 
 
 
 
 
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