E.A.R.L.: “ERRRTANG SATURN tornou-se um aglomerado de explorações em diferentes universos”

[TEXTO] Rui Correia [FOTO] Pedro Lopes

Manuel Delgado é E.A.R.L., produtor e DJ que é um dos mais recentes membros da Monster Jinx — em Março de 2017, ele e Maria juntavam-se a nomes como DarkSunn, Ghost Wavvves, Roger Plexico ou pretochines, expandindo o séquito do Monstro Roxo. E se o último se estreou nas edições pelo colectivo no ano passado com o EP Cor e Forma, o primeiro seguiu-lhe os passos e apresenta-se agora com o exploratório e introspectivo ERRRTANG SATURN, disponível em formato digital no Bandcamp e em vinil, com os temas “FEEDMEx” e “TeaseMe”.

Como é habitual em muitos artistas, as primeiras influências vieram dos seus progenitores. E.A.R.L. conta-nos: “quando era puto, o meu pai mostrava-me A Tribe Called Quest, Sun Ra ou The Cure. Foi através dele também que nutri o amor pelo jazz e o Kind of Blue do Miles Davis foi um disco que mudou a minha vida. O meu pai era arquitecto e tinha um atelier, esse foi um álbum que rodou lá vezes sem conta e ficou em mim”. Se do seu pai veio o rock, rap e jazz, já da sua mãe “tinha os ABBA”, revela entre risos, tendo surgido daí o seu gosto pela música disco e a vontade de descobrir mais dentro do estilo. Com o tempo e ainda enquanto adolescente, Manuel Delgado foi à descoberta, “ouvindo coisas mais conhecidas, investigando os créditos nos álbuns, perceber com que produtor um determinado autor trabalhou, onde trabalhou…”, assumindo que “o hip hop foi o primeiro amor”.

Foi por volta de 2013, quando estudava na Escola Artística Soares dos Reis, que conheceu o Ivo Diodato, também conhecido como NO FUTURE, que se revelou fundamental para a iniciação de E.A.R.L. na arte da produção. Entre vários temas soltos que iam saindo pela sua página de SoundCloud surgiu, em 2016, o seu primeiro EP, Nite Visions. Na capa desse disco ficamos a saber, curiosamente, o significado do seu nome artístico: earning all the respect & love (E.A.R.L.). “Dos tempos do graffiti o meu nome era AIRE até que descobri que alguém já tinha a mesma tag. Mudei para E.A.R.L. como homenagem a um basquetebolista da NBA e é um nome que sempre adorei. Surgiu antes sequer de saber quem era o [Earl] Sweatshirt [risos]”, confidencia-nos. Esse registo inicial era “descomprometido e experimental” e saiu quando “tinha muito pouco tempo de produção. Foi algo espontâneo”. Nesse mesmo ano, no entanto, apareceu o loop que viria a encaminhá-lo para “uma redescoberta”, como o próprio indica.

Para percebermos melhor como este novo EP nasce, é importante entender a ligação que se firmou com a Monster Jinx. Em 2016 foi convidado para actuar numa festa organizada pelo colectivo no Maus Hábitos e “uns meses depois” abriu a apresentação do álbum de Roger Plexico com o Ace. “Só mais tarde é que me falaram por parte da Jinx para me juntar e para me preparar enquanto DJ, para além da base como produtor”. Desde esse convite que E.A.R.L. tem tido uma actividade regular, principalmente nos eventos Purple Hazin, que têm acontecido em Porto e Lisboa. O processo de selecção e investigação como DJ foi preponderante para a elaboração do EP ERRRTANG SATURN. Em todas as suas escolhas, Manuel segue o conselho da família Monster Jinx de fazer aquilo que realmente quer porque “a essência é essa: fazer um projecto que seja singular”.



Se a confiança depositada pelo Monstro Roxo foi essencial para a chegada deste novo EP, outros ingredientes, doces e amargos, explicam o resultado obtido. “O processo não foi fácil. Isto começou por descontentamento. Naquela altura [por volta de 2016/2017] estava a tirar um curso que não queria fazer, mas tinha de ser, para acabar o 12º ano, e aquilo acabou por me ajudar. Serviu para exorcizar uns demónios”. Por outro lado a ausência da essência do Porto, relacionado com o crescimento do turismo nos dias que correm, foram motivo para alienar-se da realidade e focar-se na criação. “Esse boom [turístico] tem tornado as coisas complicadas. É bom que a cidade esteja a crescer, mas, ao mesmo tempo, para fazer mais hambúrgueres aqui e pizzas ali…; [para] gastar-se cinco euros por um pequeno-almoço; já nem ouves falar português (portuense!) nas ruas…”, desabafa.

Também a tal redescoberta musical causada por um loop foi um desses ingredientes fundamentais para a composição de ERRRTANG SATURN. “Houve uma fase em que me desliguei um pouco do hip hop e hoje em dia não estou tão dentro do que tem surgido. Este EP tornou-se um aglomerado de explorações em diferentes universos: comecei a entrar mais no house, no techno, também no punk, no electro, que é aquela faixa mais dançável [‘DONLEAVEDAFREAK’]”. Outros universos como o da library music ou o experimentalismo, evocado por Flying Lotus, também são mencionados: “acabei por achar piada a conseguir juntar todas essas influências num elemento só”. E acrescenta: “devo ter feito 12 a 14 faixas para este EP”. Isso mostra que, a dado momento, existia uma noção clara do que pretendia para este trabalho que resultou de faixas criadas no programa Fruity Loops.

A primeira que o despertou para o projecto foi o loop da “LUCY’S DIAMONDS”: “Essa faixa foi pura experimentação. Peguei num drum break e aquilo ficou. Queria ir na onda da bateria, mais pesada, tentando ser mais progressivo. Acabei por pegar mais tarde nessa faixa e alterei-a, desconstruí-a e dei-lhe uma outra intenção”. A concretização dos temas é cada vez mais pensado e foi o que aconteceu neste novo trabalho. “Era mais inocente quando comecei. [Agora penso] na mistura do instrumental, da faixa e como posso chegar àquilo que imaginei. Mesmo que surja uma melodia — hoje em dia penso muito mais em batidas ou em linhas de baixo –, sinto que se torna mais complicado [ser espontâneo] por ter mais conhecimento do que estou a fazer”. As referências para as músicas podem vir do mais comum e do mais inusitado: “às vezes estás a imaginar, enquanto trabalhas e ouves barulhos de fundo: pratos a cair, pessoas a falar. Às vezes até gravo e consigo seguir essa linha, outras vezes torna-se um adversário. Estou sempre a absorver, é algo que está sempre comigo já desde puto”.

Enquanto ouvinte e comprador de música, E.A.R.L. confessa-se em êxtase por lançar um disco de vinil com o seu trabalho gravado nele, e está “muito feliz pelo resultado” obtido no EP. O jovem produtor portuense pensa já em novos projectos e revelou algumas das suas intenções para o futuro com base no que tem andado a ouvir: “quero ver o que posso fazer com o footwork e com o electro. Acho que é algo que não é muito comum em Portugal e gostava de trazer essas vertentes”.

Para já, ERRRTANG SATURN merecerá uma festa de apresentação, que ainda está a ser arquitectada pela Monster Jinx. Entretanto, E.A.R.L. será um dos convidados de Slimcutz na estreia da sua nova curadoria no Pérola Negra, no Porto.


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