Drake na O2 Arena: a força devastadora do maior ícone musical dos nossos tempos

[TEXTO] Manuel Rodrigues [FOTO] Direitos Reservados

A visita ao site Setlist.fm, nas semanas que antecederam a chegada da Assassination Vacation Tour à O2 Arena, em Londres, deixou no ar uma interessante incógnita: como seria Drake capaz de encaixar cerca de 40 músicas em apenas duas horas de espectáculo? Qual seria o modus operandi da sua máquina assassina que montou um verdadeiro acampamento militar na sala nas margens do Tamisa? A resposta é simples e de fácil alcance. Mas já lá vamos.

O que Drake está a fazer na Europa é digno de louvar. São várias datas espalhadas por Manchester (10 e 11 de Março), Paris (13, 15 e 16 de Março), Dublin (19, 21 e 22 de Março), Birmingham (22, 26 e 27 de Março), Antuérpia (19 e 20 de Abril) e Amesterdão (23, 25 e 26 de Abril). Contudo, é em Londres que se dá a grande proeza desta digressão, com um total de sete datas na O2 Arena (1,2,4,5,8,9 e 11 de Abril). Uma rápida consulta ao Google diz-nos que a O2 Arena consegue albergar cerca de 20 mil almas. Contas feitas, estamos a falar de um total de 140 mil pessoas. Tivemos a honra e o privilégio de marcar presença na segunda etapa da longa maratona.

Londres vestiu-se a preceito para receber Drake, de tal forma que a O2 Arena trocou o gigantesco painel de entrada para The O3, como alusão a “God’s Plan”, êxito onde se pode ouvir a célebre rima “and you know me / turn the O2 into the O3” – o que Drizzy quer dizer com isto é que a suas passagens pela mítica sala britânica foram tão intensas ao ponto de a transformar em algo superior, somando um átomo à já existente molécula de oxigénio. O espaço não esqueceu a menção e rebaptizou-se para a ocasião.



O concerto inicia-se com a passagem do trailer de Top Boy, série britânica que vê a sua segunda temporada chegar à Netflix e que tem como produtor-executivo Drake. A euforia cresce à medida que as imagens se sucedem e é no final, quando surge nos gigantescos ecrãs suspensos sobre o palco o logótipo da empresa norte-americana, que atinge o seu ponto máximo, coincidindo com o momento em que o anfitrião surge em palco, envolto numas cortinas brancas onde são projectados conteúdos vídeo. “8 Out of 10” é a primeira a visitar os nossos ouvidos.

Segue-se “Mob Ties”, servida ainda a partir do interior do cubo de tecido quase transparente onde apenas se destaca um vulto de microfone na mão ladeado de intensa trovoada. É nesta altura que se evidencia uma das principais características da actuação: há um conjunto de backvocals pré-gravadas que acompanha Drake na sua missão, para que este, sozinho em cena (os que o acompanham na maquinaria estão escondidos algures entre o backstage e a plataforma principal), consiga ter o fôlego suficiente para se dividir entre rima e canto.

Visto de cima, o cenário traz à memória o de um jogo da NBA. O chão de LEDs onde Drake se passeia em muito se assemelha a um campo de basquetebol, onde só faltam mesmo as linhas e as respectivas tabelas (algo que se se virá a materializar a meio do tempo regulamentar do espectáculo – lá chegaremos). Por cima da sua cabeça ergue-se um arsenal de equipamento audiovisual, dividido entre ecrãs de LED (os tais que mostraram o já referenciado trailer) e várias colmeias de um robusto PA. Se de uma disputa de basquetebol se tratasse, este teria sido o cenário ideal para ver a lendária Dream Team em acção.

Não se trata de um jogo mas sim de uma prestação musical. Mas Drake faz da imponente plataforma mágica que pisa uma verdadeira pista de atletismo. Em “Started From the Bottom”, um dos maiores marcos da sua carreira, altura em que a moldura de tecido sobe em direcção ao céu, corre desenfreadamente de uma ponta à outra, aproveitando a ideia de proximidade para levar o público ao êxtase – sem barreira de separação, o artista canadiano parece agora estar ao alcance de qualquer um. Ele salta, rodopia e trava quase em cima da audiência, que, por sua vez, retribui de todas as formas possíveis e imaginárias – em “Hotline Bling” chegam a voar soutiens para o palco (as peças de roupa interior são imediatamente devolvidas à plateia pelo próprio e há, inclusive, um elemento da equipa com uma vara que tem como única função retirar tais objectos de cena).

Regressemos ao gigantesco rectângulo de LEDs colocado no centro da Arena, pois é sobre ele que assenta grande parte do espectáculo. É graças a tal plataforma mutante que Drake consegue evocar o seu estatuto de divindade na esfera pop – ao lado de nomes como Kanye West, Lady Gaga, Bruno Mars, Beyoncé e Jay-Z, entre muitos outros. Caminha sobre águas turbulentas em “Know Yourself”, flutua sobre antimatéria em “Look Alive” e pisa chão magmático em “Jumpman”, momento em que divide o público em duas metades (lado esquerdo e direito) para ver quem tem melhor desempenho no acompanhamento à letra.

Drake interpreta grande parte do seu alinhamento em formato medley, daí encaixar quase quarenta músicas nas duas horas propostas. Os temas que resultam de participações especiais, como “Walk It Talk It” (Migos), “The Motto” (Lil Wayne, Tyga), “For Free” (DJ Khaled) e “My Way” (Fetty Wap), citando apenas alguns exemplos, são servidos de uma só assentada, encavalitados uns nos outros, com o intuito de manter os níveis de energia no máximo.

Nos entretantos da performance, em jeito de interlúdio, há convidados especiais. Tory Lanez e Tiffany Calver, já sabidos de antemão, são dois deles, que, além de garantirem a primeira parte da noite, ainda têm direito ao seu momento mais ou menos a meio do percurso de Drizzy. O outro é Future, especialmente pensado para estas noites em Londres. O rapper de Atlanta dá voz a “Mask Off”, um dos seus maiores êxitos, numa actuação que, por mais incrível que pareça, consegue superar a servida em Portugal, por altura do Super Bock Super Rock.



Nesse interlúdio há ainda espaço para ver um concorrente tentar a sua sorte a encestar (altura em que o chão mágico se transforma em campo de basquete) a partir de três zonas previamente definidas, que, consoante a distância da tabela, lhe aumentarão a conta bancária em £250, £500 e £20,000. Não há fome que não dê em fartura, contudo, a sorte não está do lado do concorrente, que, para mal dos seus pecados, acaba por falhar as hipóteses todas que lhe foram atribuídas. Fica para a próxima. 

Presenciar um concerto de Drake é sinónimo de ouvir alguns dos maiores hinos radiofónicos dos últimos anos. E é na fase do alinhamento dedicada aos movimentos de anca – o rectângulo camaleónico transforma-se em plateau de dança e endereça o convite a uma mão cheia de bailarinas – que tomamos consciência disso, com “Controlla”, “Work”, “One Dance” e “Hotline Bling” a tomarem conta da situação. Já antes “Passionfruit”, numa fase mais calma onde se ouviram “That’s How You Feel” e “Peak”, havia emanado algumas vibrações dançantes, com Drizzy a assumir o centro do palco, de microfone pousado no tripé e coração nas mãos.

Não são poucas as vezes, no desenrolar da trama, que Drake trava os motores da sua máquina assassina para se dirigir à plateia, com juras de amor eterno a Londres e aos londrinos. “Esta é a cidade onde eu mais gosto de tocar”, sublinha ao microfone. “Não há no mundo cidade como a vossa”, acrescenta. Não fossem as sete datas que tem agendadas no O2 Arena e esta soaria a mais uma lengalenga tirada dos livros de conduta para artistas que visitam outros países. Neste caso, as palavras de Drake reflectem-se nos actos, e isso vale-lhe uma tremenda ovação por parte dos presentes.

Como tantos outros artistas que habitam este patamar mais alto do showbiz, também Drake tem os seus momentos em que deixa escapar um fiozinho de azeite, como em “Yes Indeed”, que faz um Ferrari amarelo sobrevoar o público, ou “God’s Plan”, última canção do alinhamento que encerra sob uma chuva de confettis. Faz parte, infelizmente.

Voemos precisamente para o sprint final. Não deixa de ser impressionante a forma como o anfitrião, passadas mais de trinta músicas, ainda consegue ter a plateia na mão. Assim que soa a introdução de “Nice For What”, o público vai novamente ao delírio e a entrada “everybody get your mothafuckin’ roll on” é entoada a uma só voz. Drake não canta a canção até ao fim e salta directamente para “In My Feelings”, com o chão mágico a assumir a forma de um ecrã de telemóvel, onde se sucedem vídeos de mulheres a embarcarem no famoso Kiki Challenge.

De ténis e calças pretas e colete da Louis Vuitton (só as siglas “LV” escritas nas costas da dispendiosa peça de vestuário dariam para pagar umas boas férias em Miami a qualquer um de nós), Drake passeia-se livremente em cena, sem a preocupação de ter que ocupar um determinado sítio em determinada altura para coincidir com uma explosão ou subida de plataforma. Por onde quer que passa vai deixando pequenos estragos: pessoas a lutar pelo metro quadrado onde se encontram e trocas de encontrões próximas do mosh pit. Ele é rei neste palco e sente-se isso na constante adoração vinda da multidão.

“Sicko Mode”, “Nonstop” e “I’m Upset” instalam novamente a loucura na audiência. As luzes robotizadas varrem o espaço de baixo para cima em vários momentos para que a ebulição se sinta de forma localizada. Porém, é em “God’s Plan” que os níveis de energia atingem o ponto mais alto da noite, em dois momentos distintos. Primeiro, com a passagem “she say ‘do you love me?’ I tell her ‘only partly’/ I only love my bed and my momma, I’m sorry”, cantada em uníssono. Depois, claro, com a entrega do verso “and you know me/ turn the O2 into the O3”, causando um sismo de alta magnitude no espaço ribeirinho.

E foi assim, qual ciclone devastador, que Drake de despediu da segunda de sete noites no O2 Arena. A próxima acontece já hoje, quando os nossos relógios baterem as 21 horas. Dá para repetir tudo de novo?


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