Há discos que o tempo não fará desaparecer. Nem no leitor óptico, nem sob a passagem da agulha. O pó, mesmo que se acumule, vai ceder à razão e ao sabor do que cada faixa guarda e se presta a dar de novo. E se a tal propósito ainda houver o imperdível momento de tudo ver acontecer em palco, tanto melhor. Assim como certas dramaturgias podem perdurar anos à boca de cena (e lembramos pela infeliz pertinência “Catarina e a Beleza de Matar Fascistas” de Tiago Rodrigues), álbuns há que podiam nunca deixar de ter palco. Um deles é, seguramente, o que o contrabaixista Carlos Bica fez inscrever na sua já vasta discografia em 2024: 11:11, que junta o histórico músico ao guitarrista Gonçalo Neto, ao saxofonista José Soares e ao vibrafonista Eduardo Cardinho. Duas distintas gerações do jazz português num trabalho que conjuga o elixir da juventude e a maturação da veterania. Um concerto — já esgotado — que irá marcar o programa do Ovar em Jazz na sua edição de 2026.
Com “Roots” abrem-se, perante uma bruma sónica da guitarra de Neto, os primeiros rasgos da lírica que virá por diante, onde se escutam os ímpetos do alto de Soares intricados pelo cintilante vibrafone de Cardinho. Um enraizamento sustentado do que esta música comporta, em riqueza e nos frutos que dará “Lucky” inscreve, talvez, a par de um outro tema de sempre de Bica (“Believer”), uma das mais belas melodias que se conhecem do longo trajecto deste mestre compositor, como retrato da sorte que tem de tocar com músicos assim. É invariavelmente um nome que se associa ao personagem de Samuel Beckett em À Espera de Godot, sendo sortudo porque não tem expectativas, como que na pureza da existência.
“Blue in Grey” traz melancolia a rodos, numa navegação tranquilíssima entre vibrafone e contrabaixo, mais adiante passada a guitarra e saxofone. A tingir nos tons certos — da música e das cores —, ou não fosse “azul” um espectro da luz que Bica tanto gosta. Além do mais, tons de azul é alma e sensação maior nesta música — para cinzenta já bem basta a vida. Como nas telas onde à pintura que se vê há outras camadas inferiores, em “Pentimenti” existe uma melodia que paira no ar; que deixa olhar em profundidade na “tela” da composição, para essas outras expressões onde, e sobretudo, encontramos vindo das cordas da guitarra de Neto um puro deleite sonoro.
“Paris” traz aos ouvidos uma toada coolness que em muito é espelho da musicalidade de Bica. Uma progressão luminosa — e talvez daí o nome do tema — feita a quatro. As frases sucedem-se como raios solares por entre o espaço. De olhos fechados esse lugar só pode ser o bom e o belo. Mas neste corolário de emoções que é 11:11, há também o lugar da nostalgia e da perda. “Não Estás Aqui por Acaso” serve esse chão comum onde se aponta para quem possa também estar, ainda que de uma outra forma. Uma presença espectral, aliás como nos tons concretamente desenhados melodia adiante, quer sejam as emanações do vibrafone, quer os laivos das cordas da guitarra ou o sopro em sussurros da palheta, sob a toada das notas graves de Bica. Um claro exemplo de como neste quarteto o ritmo prescinde primorosamente do instrumento que lhe é naturalmente associado.
“Half Step” é, quiçá, o degrau de maior abstracção num conjunto de temas bem vincados com o concreto. Um respiro, portanto. Poderia servir um interlúdio de um filme noir. Um biombo no alinhamento de 11:11 em disco. A caminho de um desfecho que se avizinha esclarecedor e inolvidável. E eis que “A Place You Will Never See” é um desses lugares que só a música — esta mesmo — pode revelar. Um lugar que não se vê mas que se escuta até melhor em definição. Um respirar a par de José Soares, acompanhado da vibração vinda das lâminas em que embatem as baquetas de Cardinho. E esse lugar parece ficar logo ali à frente…
O tema-título “11:11” e a sua razão. Talvez nem nunca seja revelada a real razão. Certo é que para o escriba deste lado, a passagem das horas do dia por esse preciso momento ficaram ligadas a esta música, desde que ouvi pela primeira vez este tema. Quem marca mais o tempo: a inclemência dos ponteiros ou uma ideia que lhe pode estar irremediavelmente ligada? Lá está o motivo das coisas, e nisso surge “Motiv”. Boas doses de experimentação, como que surgidas de e para uma animação. Um tal Norman McLaren haveria de fazer um bom uso deste tema. Já não está por cá, mas estamos nós a tempo de, na cabeça de cada um(a), fazer o estimulante exercício das imagens emparelhadas com os sons, mesmo que em fitas interiores de cada um(a) de nós.
11:11 foi editado à passagem dos 50 anos da Revolução de Abril de ’74. E a “noite” aqui surgida retoma “A Noite” do poeta, activista e músico José Mario Branco. Essa noite de negrume tornada dia luminoso e solar, onde “Tudo o que já fomos / está o que seremos”, e nisso reside boa parte da lisura que alguns tentam fazer esquecer para tentar outro novo velho poder ser. Um tema-chave, e é por isso que os músicos como que parafraseiam as palavras, cada um na voz do seu instrumento, para que não haja lugar ao esquecimento. “A caso estamos vivos?” cabe perguntar e voltar a perguntar… para que o hoje e o amanhã possa conter a melhor resposta que já Zé Mário deixava (e o tema assim o retoma) em aberto. “Andamos a fugir à frente desta vida / Mas cabe perguntar / ‘Existe uma saída?’”. Fica a coda, deixada entre uma baqueta, um sopro e uma carda desprendida…
O embalo final dá-se ao ritmo da balada. “Love Boat” encerra com primazia uma dúzia de temas, como que para a eternidade. Trazem arrepios dos bons os rasgos da guitarra de Neto, servidos a acompanhar o esgar do sopro de Soares até desaguarem numa redenção que aponta para a esperança no amor, para um embarque que nos leve até esse lugar de salvação.
Dizer (ou escrever) que 11:11 é um disco para continuar a tirar da prateleira daqui a muitos e bons anos (outros mais volvida a revolução) é um vaticínio arriscado. Algo cujo o tempo, melhor que alguém, terá por missão confirmar. Mas neste presente retomar, em disco ou ainda em palco, o mandamento jazzístico torna-se um dos maiores exercícios comunais no acto de afirmar o estarmos aqui e agora. E parafraseando o poeta n’”A Noite”, temos que descasar a culpa e o prazer… a caso estamos vivos?