Dotorado Pro: “Começar a trabalhar com a Enchufada foi uma coisa extraordinária”

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTOS] Hélder White

 

African Scream“. O nome da música tem ressoado entre a crítica internacional e o público interessado pelo som que emana dos guetos de Lisboa. Dotorado Pro, um “miúdo” à procura do seu som, foi quem criou esse hit da Batida de Lisboa, o que levou a um convite da Enchufada – editora de Buraka Som Sistema, Dengue Dengue, Rastronaut, entre outros – para se juntar aos seus quadros.

O Rimas e Batidas aproveitou o lançamento do seu novo EP, Rei das Marimbas, para conversar com o artista no quartel-general da editora e tentar perceber o que mudou desde que “African Scream” começou a aparecer no radar de imprensa internacional como a BBC, The Fader, Okayafrica ou FACT, que o chamou de prodígio.

 


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Há um ano saía uma entrevista contigo pelo Rimas e Batidas, isto numa altura em que o público começava a ouvir o teu nome. O que é que mudou neste ano que passou?

Muita coisa. Começando pelas oportunidades de tocar e mostrar o meu trabalho a vários tipos de públicos. Começar a trabalhar com a Enchufada foi uma coisa extraordinária e tenho tido a oportunidade de mostrar a minha música e o meu estilo. O Rei das Marimbas está aí fora e eu quero mesmo que essa cena vá muito mais longe.

Lançaste, no dia 8 de Julho, o Rei das Marimbas pela Enchufada e já tinhas lançado Maluku Vol.2 no final de 2015. A tua ideia é estar sempre a partilhar música?

Na altura do African Scream comecei a mostrar trabalho para não ficar naquela base do “African Scream”. Fiz o Maluku Vol.2, um EP free que o people aderiu. O Rei das Marimbas vem mesmo do “African Scream”. O som das marimbas no “African Scream” ficou mesmo na cabeça.

No Maluku Vol.2, a tua música vai do trap ao funk brasileiro, mas sempre a partir de ritmos africanos. O teu objectivo é conseguir pegar nesses géneros todos e transformá-lo numa coisa tua?

Sim, eu inspiro-me mesmo em vários sons. Tenho uma música no EP chamada “Mister Kalimba” que foi inspirada num som do Branko. Tem aquela vibe de zouk, que também é meio kizomba. Peguei nessa vibe e fiz o meu estilo como todos gostam.

Quais são as tuas maiores influências nacionais ou internacionais em termos musicais?

A nível nacional são Maboku, Firmeza, Lilocox, Zona Crew e os meus irmãos mais velhos. A nível internacional, Gaia Beatz e Diplo. Eu oiço vários estilos e depois crio uma cena nova só minha.

 


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Este ano produziste a meias com o Branko a música “Na Batalha” do Carlão. Qual foi a tua função na produção da faixa? Trabalhaste directamente com o Carlão?

Eu já tinha o instrumental feito, cheguei ao estúdio e mostrei o beat ao Branko. Ele disse-me: “Vou pegar neste beat e vou mostrar ao Carlão”. O Carlão andava aí à procura de uma cena fixe. O Branko pegou na cena, enviou para ele e saiu.

Qual é a tua ligação com o hip hop?

Ouço, não muito, mas ouço. O rap e o trap têm vários instrumentos e, como já não ouço música daquela maneira só por ouvir, agora tomo atenção ao pormenor e adapto ao meu som.

Há um ano, na entrevista ao ReB dizias que não costumavas dar beats para cantar. Mudaste a tua maneira de olhar para isso? Andas a produzir para mais artistas?

Continua a ser igual. Eu não digo que Carlão foi excepção, eu digo que o Carlão é aquela pessoa que não me vai fazer perder tempo. Eu já dei alguns (instrumentais), mas vi que essas pessoas a quem dei ou vendia instrumentais não me faziam andar para a frente. Só faz sentido se eu e o outro interveniente sentirmos força de vontade em trabalhar juntos. Não quero que seja só mais um a cantar em cima de um beat que já “bateu”.

Neste momento, o African Scream conta com quase 900 mil plays no SoundCloud. Como é que olhas para esse número gigante de pessoas a ouvir-te?

Se queres que te diga, o som explodiu mesmo. Ainda não tenho palavras. Os números não param de subir. O “African Scream” já passou à história, agora quero ser reconhecido como Dotorado Pro, “O Rei das Marimbas”.

 


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O que é que andas a ouvir?

Ando a ouvir muito jazz agora…

Como é que surge o jazz? 

Estava num carro do amigo, que por acaso é fanático por jazz, e ele estava a pôr uns sons do género. O jazz tem aquela cena tipo melodia. Se tu reparares no Rei das Marimbas, eu trabalho mais na melodia e só depois é que “estrondo” o meu beat.

Vais estar presente no Festival Bons Sons incluído na celebração dos 10 anos da Enchufada. Vais apresentar-te de forma semelhante ao Globaile ou terás alguma surpresa especial no set?

Vai ter cenas novas. O Rei das Marimbas já saiu, mas o Dotorado não pára.

E já pensaste numa tour europeia? Nomes como DJ Marfox, Buraka Som Sim Sistema ou Nigga Fox têm conseguido dar bastantes concertos lá fora. 

Já pensei nisso, claro. Eu ainda não quis porque ainda não me sinto preparado. Eu sinto que é muita responsabilidade. Ia estar a dar-me a um público diferente, que não é daqui.

Continuas a ser tratado como prodígio pela imprensa internacional. É uma coisa que te incomoda ou é uma motivação extra?

Não me incomoda. Só me faz sentir que o people gosta de mim, ‘tás a ver. O people está a aderir àquilo que eu faço. Por mim, podiam continuar a chamar isso o ano inteiro!