Dotorado Pro: afro-house com Macumba do bruxo melódico

[TEXTO] Pedro João Santos [FOTO] Direitos Reservados

Numa solarenga hora de almoço, falhámos na missão de apanhar um autocarro-fantasma e seguimos de Uber até Alcântara, onde nos esperava Dotorado Pro. Natural de Luanda, o jovem produtor lança hoje um novo disco: o delírio polirrítmico de Macumba continua o seu legado e assegura-nos da vida que ainda há no Rei das Marimbas

No prático e modesto contentor da Enchufada, a casa de Branko e Kalaf no Village Underground — rodeados de caixas de vinil e posters de Nosso — que escancarou as portas para receber a toada do “African Scream”, o Rimas e Batidas conversou com o autor de Macumba. 15 minutos bastaram para aferir novos projectos e colaborações, levantar mistérios inconclusivos, e descobrir se há mais coisas a fazer para um Dotorado.



Vamos voltar ao início: temos de passar pelo “African Scream”, antes de teres ingressado na Enchufada; apelidaram-te de “miúdo prodígio”, proclamaste-te o “Rei das Marimbas”. Ausentaste-te durante algum tempo como nome a solo e tiveste tempo para continuar a crescer. 

Foi aquela pausa para esfriar um bocadinho a mente, para ter novas ideias, conhecer novos produtores; entretanto também viajei. Também nesse tempo esteve em construção o [Macumba], já tenho as faixas há algum tempo, tenho estado a coordená-las para [as] poder juntar e poder realizar este EP, ‘tás a ver? O EP é à base de vários estilos, daqui e dali; finalmente vai sair, já temos planos, já estamos preparados para dia 26 pô-lo cá fora.

No que toca à tua produção, ou à tua perspectiva sobre música, mudou alguma coisa neste período? 

Não. Quero continuar a fazer música, é esse o meu objectivo, continuar a conhecer novos artistas, continuar na Enchufada [risos]. Aqui é a family… tenho planos de vida mesmo bons, mas tudo a seu tempo. 

A última vez que falámos contigo já foi em 2016 — lançaste o Rei das Marimbas e afirmavas que querias levá-lo “muito mais longe”, a públicos e palcos diversos; foste até convidado pela Jamz Supernova para o teu primeiro concerto em Londres, assinaste uma mix para a Clash, foste destaque na Thump… A missão foi bem sucedida? 

Foi bem sucedida, e até hoje continuo a levar o Rei das Marimbas longe — saiu em 2016 mas quando o toco ainda parece novo, ‘tás a ver? O people abraçou aquilo com muito carinho e era isso que eu queria. E pronto é isso, levar a nossa música até outras fronteiras para que o afro-house, o estilo que eu quero levar daqui frente, tenha mais conhecimento, mais base.

A designação afro-house pode ser um pouco ambígua; qual achas ser o teu contributo para a cena? 

O meu [afro-house] é diferente, não comparo [ao dos] outros. Eu quero levá-lo a outras fronteiras, vejo que há sítios que ainda não conhecem o nosso estilo, ou então há pessoas que não o aceitam, porque, sei lá, acham muito barulhento ou uma coisa assim… Nós estamos aqui — eu, pelo menos, estou aqui para mostrar que é totalmente diferente, o afro é um estilo de música alegre que dá para levar a todo o tipo de gente — crianças, mais velhos. É por isso que eu tenho essa ânsia de levar a nossa música mais longe, ‘tás a ver? Com o Macumba cá fora, pá, vamos lá ver o que vai acontecer daqui para a frente.

Quão decisiva foi a ajuda da Enchufada? Qual o impacto das ferramentas que te deram, as portas que se abriram? 

Foram muitas, não estava à espera. Eu por acaso pensava que a minha entrada aqui fosse só “ya, entrei”, mas não, eu entrei [e percebi que] nós somos mesmo uma família. Sabes, eu sou o mais novo, então eles ‘tão aqui para me cuidar, levar-me a mil sítios que nunca esperei. Como te disse, tudo a seu tempo, eu ainda estou à espera de mais — quero mais, é só esperar pelo que vai acontecer. Estou a gostar de estar aqui, sou feliz aqui.

Não previa termos-te aqui, João [aka Rastronaut], mas será interessante recolher o teu ponto-de-vista sobre acolher o Dotorado. 

[Rastronaut] Eu acho que é parte da missão de uma editora como a Encafuada, que tem uma visão local da música, levantar o som de Lisboa. É super importante identificar não só talentos emergentes, mas com uma voz capaz de dar coisas a esta cena musical, não é? De levar a cena musical numa nova direcção; a música do Doutorado Pro, mais especificamente a “African Stream” — porque foi a partir daí que começámos a nossa relação — acho que é uma daquelas músicas que meio que define um som, neste caso, do afro-house. Basicamente, se não sabes nada de afro-house, eu toco-te esta música e ficas a saber o que é; ponto final, parágrafo. Músicas dessas acho que são super importantes para construir uma história, portanto trabalhar com o Dotorado começa muito nesse ponto, construir a história da cena musical com influências africanas em Lisboa, pela via do afro-house que tem de se ir construindo. O som do Dotorado, para mim, continua a ser isso: um som que, para além de muito particular, é também global, e define o que é o afro-house de Lisboa.

Tem havido mais diálogos com fora do país? 

Sim, surgiram alguns contactos. 

Vai haver Macumba fora de Portugal? 

Ah, claro. Espera só. 

Estava agora vidrado no poster do Nosso, vamos às questões que interessam mesmo: quando é que o Dotorado vai ter um outdoor no Cais do Sodré? 

[Rastronaut] [Risos] Quando vier aí um álbum,  quem sabe?

Agora estamos no ciclo promocional de um EP, mas  estás já a antever um longa-duração? 

Eu estou sempre a trabalhar, sempre a fazer música nova; já ‘tou a ver aí um próximo álbum com muitos artistas, não só de beats como os discos instrumentais que já tenho. Não sei quando o vou pôr cá fora, mas já estou a trabalhar nisso com artistas. Para levar a nossa música mais longe.

Queres revelar algo mais desse projeto? 

Eu lancei o single [“Fla La Nos É Kenha”] com o Loony Johnson, artista cabo-verdiano, com um instrumental meu e daí surgiu a ideia de pegar em artistas diferentes; se calhar vou fazer um álbum — ainda quero desenvolver mais — com vários artistas, já ‘tive na Holanda, também estou a pensar em convidar artistas de lá. É uma ideia assim vasta, mas com o tempo vai-se limando. 

Antigamente, dizias-te não ser o tipo de artista que envia beats para artistas. 

Porque, na altura, as pessoas com quem eu gravava me levavam… não levavam esse trabalho muito a sério e eu já pensava de outra forma, já tinha outra forma de pensar acerca da música; não é só “vamos gravar e lançar e olhar para o YouTube e ver só os números a subir”, ‘tas a ver? Não, eu quero lançar um trabalho e sentir que vai ter frutos. Lancei um single com o Carlão, lancei com o Johnson e mais alguns daqui para a frente, mas já com outros métodos, já não é só “vamos pôr um beat na net”, reconhecendo como um trabalho. Uma pessoa tem de dar passos.

Este Macumba parece uma obra mais sofisticada, produto de mais anos de experiência: um projecto conciso e um groove definido. O título é muito evocativo, mas o que é que significa para ti apropriares-te dessa palavra? 

Macumba.. [risos] Essa palavra é feitiço. Peguei nesse nome porque, pá, vem mesmo das músicas. Já desde o “African Stream” me chamavam bruxo melódico, feiticeiro, com esses beats malucos, essas cenas assim, então peguei nessas ideias. Esses beats [do EP] como tu já ouviste, é meio tu não sabes onde eu fui buscar essas coisas, das melodias às vozes — a junção disso tudo — daí eu ter posto o nome de Macumba, ‘tás a ver? Mesmo das melodias, eu vou buscar umas mesmo malucas, só eu sei fazer; a ideia é ser único, Macumba vem para mostrar isso, é isso que eu quero. 

A faixa que mais me chamou a atenção foi a “Say Daddy” — queres falar um pouco sobre essa música? 

“Say Daddy”… [Risos] É uma faixa engraçada, muito engraçada mesmo, porque é… como é que eu te hei-de explicar essa faixa? [risos] Peguei nuns acapellas, juntei tudo, e depois soou-me bem essa parte do “say daddy”, e fiquei a pensar, “será o destino?” [Risos] Comecei a juntar melodias — para mim, não é nada de novo, é praticamente um “African Scream 2”, é esse conceito que eu quero levar para a frente: as marimbas com a voz e tudo mais. Essa é uma faixa engraçada que só mais tarde, de coração, vou poder explicar por que a fiz e demorei para acabar. Mais tarde, eu vou poder explicar; se calhar vais ver nas redes o porquê de “Say Daddy”.


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