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Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 25/03/2026

Ainda no Pique, mas a pensar no que vem a seguir.

Dora Morelenbaum: “O show vem se transformando e a gente vem agregando a ele novas ideias e referências”

Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 25/03/2026

Dora Morelenbaum regressa a Portugal para finalizar a pequena tournée europeia que volta a apresentar o seu álbum de estreia, Pique. Indicado ao Grammy Latino 2025 na categoria de Melhor Álbum de Música Popular Brasileira/Música Afro-Portuguesa-Brasileira, o disco parte das raízes da MPB e projeta-se naturalmente para o jazz, a soul, o hip hop e a pop, falando, sobretudo, de amor. 

Depois da fragmentação dos vários “eus” de Bala Desejo em projetos a solo, a artista brasileira convidou Ana Frango Elétrico para a produção em estúdio do seu primeiro capítulo discográfico em nome próprio. Ambas partilham a nova estética da música brasileira contemporânea enquanto procuram, mundo fora, novas texturas e paisagens sonoras que multiplicam pelas harmonias e melodias da canção tradicional. A música de Dora Morelenbaum parece sempre fugir da terra onde a queremos plantar. Move-se entre a tradição e a novidade, costurando linguagens distintas com as linhas fortes de uma identidade própria.

Ainda com a memória presente de Paredes de Coura, no último Verão, e depois de Berna, Madrid e Barcelona, desagua em Lisboa e Braga antes de voltar ao Rio de Janeiro. Atua na Casa Capitão esta sexta-feira (27 de Março), e no Theatro Circo no sábado (28 de Março). Pelo caminho, entre concertos, respondeu a algumas perguntas do Rimas e Batidas sobre o processo criativo, as influências que atravessam Pique e o que podemos esperar destes concertos.



Conta-nos como vês este trabalho e o que representa para ti enquanto primeiro álbum a solo? 

Tenho sentido cada vez mais Pique como um compilado do que venho pensando e fazendo na música nos últimos anos, desde os parceiros das canções até a forma de produzi-las. Um início de uma pesquisa acerca dos diferentes parâmetros musicais, em torno da canção, a beleza e o ruído que existe nisso. 

A maioria do público reconhece-te pelo trabalho nos Bala Desejo. Este teu primeiro álbum parece desviar-se do tipo de música que fazias com a banda. É mesmo assim? 

Sinto que o álbum do Bala Desejo foi algo muito circunstancial, no sentido de refletir o que estávamos vivendo num momento muito específico, juntos por acaso, e unindo individualidades muito diferentes. Se você ouvir o meu álbum, depois o da Julia, as produções do Lucas e o álbum do Zé, jogar tudo isso numa panela, dá o Bala Desejo. Agora conseguimos ouvir separadamente cada parte disso, cada vontade ganhando seu espaço. 

Ouvi-te sublinhar que desenvolveste um interesse especial pelo processo de produção, e que entretanto se tornou o teu ponto de foco. Como foi produzir este álbum e como foi fazê-lo em pareceria com a Ana Frango Elétrico?   

Ana é de uma generosidade enorme, dentro e fora do estúdio. E como produtora, é incrível também. Tudo isso foi de suma importância para decidir convidá-la pra produzir Pique. Eu não tinha domínio e conhecimento de produção até trabalhar com Ana, e ela fez questão de compartilhar tudo isso comigo, o que aumentou meu interesse em olhar pra isso com o protagonismo devido dentro do disco. 

Percebi também que o teu foco estava mais na produção do que na composição, e que a busca por um ambiente sonoro, a procura de texturas, sonoridades, do timbre e do discurso sonoro, precederam, de certo modo, as melodias, as harmonias e até as letras. Queres explicar melhor o processo?

Justamente, eu — que até então vinha olhando mais para a matéria prima das canções — quis me aproximar mais do que veste elas, desses outros parâmetros que envolvem o som, que constroem essa paisagem sonora, e que entregam mais profundamente a subjetividade das músicas. Não acho que a canção se esgotou, mas critérios como melodia e harmonia dentro do universo da canção já foram muito explorados, enquanto sinto que outros parâmetros como espacialidade, textura e cor ainda tem muito a ser esmiuçado. 

Nascida no berço da MPB, quais foram as referências passadas e contemporâneas que mais te influenciaram no Pique? Ouvi-te mencionar, por exemplo, alguns nomes mais óbvios como Donato, ou Erykah Badu, e outros mais improváveis como Tyler the Creator. Podes enquadrar e contextualizar?

Donato é um mestre em misturar canções e vanguarda de produção, além das composições serem geniais pela sua simplicidade. Tyler me apresentou novas texturas e colagens com a música, além de ser uma super referência estética em tudo o que faz. Erykah Badu é um gênio das sonoridades e beats, também foi grande referência pra o clima que queríamos criar. 

Em que medida o jazz, a soul, a MPB, a disco, a pop e até o hip hop influenciam e cruzam o Pique?

Meu objetivo inicial de produção era construir uma narrativa estética que amarrasse todas as músicas, e isso incluiu todos os gêneros que atravessaram o álbum, e que as músicas pediam. Nossas referências viajavam muito entre esses gêneros e talvez se encontrassem no que tem e pode ter em comum entre eles. 

Disseste que não procuravas apenas um álbum de amor e balada previsível, mas também alguma comicidade. Como chegaste a ela e quais as faixas em que a consideras mais visível?

A maioria das letras do álbum é de parceiros musicais, enquanto eu fiquei mais encarregada das músicas. Quando vi, tinha em mãos um compilado de canções de amor, mas muito variadas entre si, porque continham as ideias dos diferentes letristas — uma mais fantasiosa, outra mais leve, outra romântica — o que já trouxe outro ritmo pro álbum. Na produção, também quis abrir espaço pra vestir algumas dessas músicas de amor de um jeito que elas normalmente não eram vestidas, com ironia e alguma imprevisibilidade.

Este trabalho, pelo caminho, já amadureceu com inúmeros concertos ao vivo no Brasil e na Europa. Quão diferente está hoje desde o ponto de partida? 

Temos rodado com Pique em vários formatos diferentes: com a banda, sozinha, em duo, banda completa, etc. Cada formato cria por si só ideias que caminham entre eles. No início, tinha uma preocupação em ser o mais fiel possível das gravações, hoje ainda somos fiéis, mas com mais liberdade para criar novos arranjos, novas ideias e músicas.

Como foi receber a indicação para o Grammy Latino? Trouxe alguma novidade à tua vida?

Foi inacreditável. Foi uma indicação num ano em que vi vários amigos da música independente também serem indicados. Me deu uma esperança que o mercado possa se abrir pra ouvir o que não tem milhares de dólares investidos e nenhuma inteligência artificial envolvida. 

Já estiveste várias vezes em Portugal. Mais recentemente, passaste pelo Vodafone Paredes de Coura, como foi esse concerto?

Fiquei apaixonada pelo festival. Tocamos de frente pras pessoas dentro do rio, na grama, pegando um sol. Foi uma experiência totalmente nova e especial. Já quero voltar. 

Aproveitaste para desfrutar do resto do Festival? Alguma coisa que se tenha destacado aos teus olhos?

Curti muito o show da Ana Frango Elétrico! 

Qual é a tua relação com Portugal? 

Criei uma relação com Portugal muito a partir dos shows e da troca com o público, que sempre foi muito caloroso e receptivo. Conheci o fado através de Mariza e me emociono muito com a sua intensa profundidade.

E com a música portuguesa? Alguma referência? 

Sou apaixonada pelas vozes de Mariza e Carminho. Salvador Sobral também me encanta. 

O que esperas destes dois concertos em Lisboa e em Braga? 

Tô muito feliz em reencontrar o público de Portugal, que sempre me recebeu muito bem, agora com muitas pessoas já conhecendo mais as músicas, já tendo uma conexão maior com elas, embora no primeiro show do álbum já tivesse uma galera cantando todas as letras! Então dessa vez vai ferver. 

O público deve esperar apenas os temas do Pique ou vem aí algo mais? 

Como disse, o show vem se transformando e a gente vem agregando a ele todas as novas ideias e referências. Quem sabe até tocamos músicas novas. 

Quem estará contigo em palco? 

Dessa vez estarei com Guilherme Lirio na guitarra e teclado, Pedro Dantas no baixo e Daniel Conceição na bateria.

A sala do Teatro Circo em Braga é das mais lindas e emblemáticas de Portugal, já a conheces? 

Não! Vi fotos lindíssimas, quero muito conhecer ao vivo. 

Entretanto, colaboraste no álbum do Louis Matute, num registo mais próximo do jazz. Como te sentes nesse registo? 

Acho que Louis trouxe muito uma essência própria com a intenção clara de se misturar com o que é feito no Brasil hoje. Adoro o tema que fizemos juntos e acho que acabou ficando muito nosso!

O que vem por aí agora? Novo álbum? Já tens novas composições? 

Tenho algumas ideias brotando: um álbum ao vivo desse meu show em duo; algumas gravações que fiz nesse meio tempo; um novo álbum solo com novas composições e parcerias; um álbum de estrada com Guilherme Lirio. Tudo no seu tempo.

Prevês uma continuidade, um interesse pela produção, pelos ambientes sonoros e um certo “desinteresse” pela canção, ou sentes que se aproxima algo novo e disruptivo em relação ao Pique?

Acho que Pique foi também um ensaio pros próximos projetos. Não me desinteressei pela canção, mas me interesso muito por novas coisas. E sinto que estou no início dessa pesquisa. 

Algum apelo ou mensagem particular para público destes concertos?

Não vejo a hora de estar de volta a Portugal, reencontrar quem eu já vi nos outros shows e me conectar com mais pessoas nesses agora.


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