pub

Fotografia: Lais Pereira / Theatro Circo
Publicado a: 01/04/2026

Braga aplaudiu de pé uma das vozes que certamente vão marcar o futuro da música brasileira.

Dora Morelenbaum no Theatro Circo: subida a Pique na consolidação do repertório

Fotografia: Lais Pereira / Theatro Circo
Publicado a: 01/04/2026

No Theatro Circo, em Braga, no último sábado, Dora Morelenbaum confirmou o crescimento e amadurecimento do seu Pique em palco. Com mais rodagem, mas fiel à gravação original, os temas abrem-se a novas incursões de talento e ao diálogo entre os músicos. A sala é, por si só, uma experiência memorável que desperta uma sensibilidade que conduz a atenção para o detalhe. Cada gesto ganha peso. Mas é a leveza da voz única de Dora que arrebata e disciplina a escuta. 

Dora antecipa, com a sabedoria de um lavrador, o esgotamento dos campos outrora férteis da música popular brasileira. Reconhece que entre o pousio e as sementes novas há-de estar o que aduba e revitaliza um legado, mesmo quando a intenção é também celebrar e homenageá-lo. Com um Theatro a poucas cadeiras de estar esgotado e perante uma plateia que sabia exatamente ao que vinha, Dora e a sua banda conquistaram até o silêncio mais improvável, logo que se desligaram as luzes e entraram em palco.

O concerto começou como começa uma manhã de maré vaza, sem vento, e que traz a promessa de uma revelação qualquer. E cumpriu. Revelou, logo ali, um timbre que é absolutamente raro e precioso, que merece a atenção de todos os ouvidos do mundo. “Não Te Vou Esquecer”, primeiro tema do álbum, abriu o concerto como quem adivinha os pensamentos do público. É de facto uma voz inesquecível. Ao fim do segundo tema, a artista carioca falou ao público para agradecer e assinalar: “Acho que é o teatro mais lindo onde já toquei”. 

Dora costuma convidar amigos e parceiros para escrever as letras — entre eles Tom Veloso que escreveu “Talvez”.  A propósito desta canção, Dora contou uma história que revelou alguma da sua vulnerabilidade e sentido de humor. “Recentemente recebi uma mensagem de alguém dizendo que a letra estava errada nas plataformas. Então eu fui ver e não estava errada — ‘há um alento nas canções que me fez ouvir’. Mas depois, por via das dúvidas, fui ouvir a minha gravação e percebi que tinha cantado: ‘há um lamento nas canções que me fez ouvir’. Aí eu percebi que tinha gravado errado. Fiquei morrendo de vergonha, super culpada. Peço a letra e canto errado. Sou uma farsa. Mais tarde, encontrei o Tom e fui falar com ele, pisando em ovos. Preciso te falar que eu gravei a letra errado: ‘há um lamento’. Então ele parou para pensar e falou: ‘Acho que é melhor assim como você gravou.’ [risos] É o extremo oposto do que queria dizer e funcionou.”  O público adorou a história. Riu e aplaudiu. 

Pique é feito de onze canções, com perspetivas diferentes sobre o amor, que resultam desses convites a outros compositores para escreverem as letras. Um pouco como resposta ao horror que está a tomar conta dos nossos dias, Dora contou que, antes de começar esta viagem pela Europa, pediu à sua amiga, Sofia Chablau, uma letra que olhasse e tocasse essa realidade. “Ela compôs da noite para o dia e chama-se ‘Jogados no Chão'”, disse-nos. Este é um tema novo e que não está gravado ainda. Dora foi-se dividindo entre o teclado e a guitarra. Do seu timbre extraordinário já falamos, mas é preciso sublinhar a sua capacidade vocal. Um controlo absoluto em todos os momentos e uma afinação celestial. Arrisco dizer que Dora não falhou uma única nota durante todo o concerto, mesmo quando visitava a escala mais inalcançável. 

Mas não só Dora convocava atenções. Guilherme Lírio que, com a sua Gibson escarlate, salpicava de blues, jazz e soul as canções por onde passavam, mostrou momentos de tal brilhantismo e talento que impunham a divisão do protagonismo. Mesmo quando apenas os dois ficaram em palco para cantar numa língua indígena — nheengatu — que já foi a mais falada do Brasil, mostraram uma cumplicidade harmónica que é claramente a estrutura melódica e criativa que originou o álbum. Nesse duo, em que misturavam as suas vozes e guitarras, revisitaram o tema de 1972 de Bobby Charles, “I Must Be in a Good Place Now”, nos únicos momentos fora da língua portuguesa. 

A linha rítmica do grupo com Pedro Dantas no baixo e Daniel Conceição na bateria é sólida e versátil. A bateria, com a tarola mais solta, comum na música brasileira e que remete para o samba, viajava entre o mundo subtil do jazz, tocada com as mãos como em “Petricor”, até a uma intensidade rítmica veloz e explosiva como em “Sim, Não” ou “Nem Te Procurar”. 

“VW Blue”, música sem letra e dedicada ao seu carro, expôs a vertente jazzística em que se destacou um soberbo solo de guitarra de Lírio. O alinhamento passou por todas as canções de Pique, homenageando, pelo meio, Cassiano, com “Onda” — que apareceu revestida com um groove poderoso — e João Donato com o tema “Chorou, Chorou”. Incluiu ainda os dois primeiros singles de Dora: “Japão”, dedicado a Ryuichi Sakamoto, encheu a sala com uma sonoridade oriental, e “Dó a Dó”, com novo arranjo, foi a primeira música do encore. O concerto fechou como fecha o disco com “Nem Te Procurar”, numa versão dançável e com um r&b mais ousado que rearranja a primeira faixa do disco e que fez o público explodir num longo aplauso em pé. 

Dora Morelenbaum fita as ruínas do passado como o Anjo de Klee, enquanto um vento forte a empurra para o futuro para reorganizar e reinventar a música contemporânea e independente do Brasil. Eis que Pique é um pouco de tudo o que se fez, com um pouco de tudo o que promete o futuro. Bebe nas fontes mais puras de Milton e Cassiano para misturar com o jazz, o soul e o r&b as sonoridades e fórmulas do presente. A voz é a sua maior riqueza e o seu timbre poderá marcar a música brasileira nas próximas décadas.


pub

Últimos da categoria: Reportagem

RBTV

Últimos artigos