Do luto à luta: a jornada de Amber Mark

[TEXTO] Miguel Alexandre [FOTO] Direitos Reservados

A inconstância não é um terreno impalpável para Amber Mark. Durante grande parte da sua infância e adolescência, a jovem viajou por países dos 5 continentes, tendo vivido em alturas esporádicas na Alemanha, na Índia e nos Estados Unidos da América. Contudo, com apenas 19 anos, esta realidade foi subitamente demudada com a morte da sua mãe, Mia Mark, poetisa e pintora devota da tradição budista tibetana, uma figura fulcral no crescimento emocional e profissional de Mark. Agora, o plano mudou – o que é compreensível. Tudo resulta, de maneira ou de outra, como uma forma de perseverança. Quem já entrevistou Mark sabe que a artista não tem problemas em falar dos tormentos do seu passado, mas agora a sua dor transcende um mero diálogo e comanda a sua directriz artística.

O seu isolamento foi justificável, mas penoso. Esta nova e crescente dor serviu de inspiração para o trabalho que iria colocá-la no centro de um género musical renovado e vigorante. 3:33 am é o EP de estreia, lançado em Maio do ano passado, que tenta colmatar o peso da morte da sua mãe e, ao mesmo tempo, expandir o universo sónico do r&b alternativo: “não queria que catalogassem a minha música como ‘deprimente’ ou ‘tenebrosa’, mas simplesmente não podia ignorar tudo o que aconteceu na minha vida nos últimos anos. O meu grande objectivo para este EP era encontrar um equilíbrio entre os dois”, contou à Pitchfork.

3:33am é necessariamente melancólico, reflectivo sem chafurdar na auto-comiseração. A morte da mãe é irrefutavelmente o mote para cada uma das sete faixas, que, entre a frustração, a negação e o luto da cantora, se esforçam para encontrar um final esperançoso ou pelo menos apaziguador. Amber Mark apega-se às memórias para tentar rememorar a imagem da sua mãe — o que se verifica em faixas como “Monsoon”, uma ode aos momentos partilhados entre as duas: “Take us back to times so happy, with good health/Traveling galore, just the two of us in store/And the plans we had for more…and why you?”.

 



A sensibilidade de Mark, especialmente neste disco, remete-nos para uma soul com tenuidades mais tropicais que se aliam à sua leve e quase etérea voz, oscilando entre a Anita Baker de Rapture ou até mesmo Patti LaBelle (circa anos 80, no auge de I’m In Love Again). No entanto, é a produção, resumida ao essencial, mas certeira na sua execução, que nos lembra nomes mais contemporâneos como Lion Babe, Janelle Monáe ou uma Tinashe de Aquarius. Independentemente da era, há um elemento de ligação fundamental na mestria da cantora: Sade. “Foi o que eu sempre ouvi. A minha mãe e a minha avó adoravam-na e era um elemento sempre constante quando estava em casa”, revelou ao site Stereogum. Na verdade, a habilidade de Amber em criar canções poderosas, mas ao mesmo tempo gentis sobre amor e luto pode também ser encarada como uma homenagem ao legado de Sade.

Em Conexão, o segundo EP lançado a Maio deste ano, há espaço para a reinterpretação do tema “Love Is Stronger Than Pride”, que Sade ofereceu ao mundo em 1998. Este segundo trabalho é a mudança quase orgânica dos temas mais umbrosos do passado para paisagens sónicas mais cristalinas e formosas. “All The Work”, a música que fecha este álbum, é o perfeito exemplo: uma fusão cálida de ritmos de Ibiza que favorecem indiscutivelmente os vocais doces, mas assertivos de Mark: há dancehall, há samba, há uma atitude nunca antes escutada.

Conexão vai buscar influências ao smooth jazz, ao r&b, dando um foco especial à música tradicional brasileira. Todos os movimentos são meticulosamente estudados: o uso de bossa nova, por exemplo, não se limita a imitar quem no presente faz uso desses modos ou sequer a adoptar uma atitude revisionista e nostálgica – em vez disso, Mark usa o género de forma matizada e cuidadosa. É sintomático que só agora Amber se permita regressar por completo à sua linguagem inicial, sem procurar carregar no excesso com que pontuou 3:33am. O cenário é precisamente o oposto: este conjunto de quatro canções não pretende crescer fora de si; pelo contrário, pede uma atenção para ser, no final, compreendido na sua forma mais simples.

“Sempre fui contra a ideia de escrever sobre amor. Quer dizer, nunca exclui essa ideia por completo, apenas queria concretizá-la de uma maneira que não soasse cliché ou simplesmente lamechas. Quero ser, primeiro que tudo, honesta comigo mesma”, explicou na mesma entrevista ao site Stereogum.

 



As suas prioridades enquanto compositora mudaram – o que é óbvio. Agora com 24 anos, Mark vive por cima do restaurante da família com os seus avós, em Nova Iorque, em apartamentos separados. Esta distância não a incomoda, até porque lhe dá mais espaço para trabalhar na sua música, algo que gosta de fazer completamente sozinha, no chão do quarto. Em vez de se juntar a grandes compositores ou produtores, Amber prefere trabalhar isolada como forma de estimular o seu processo criativo.

Esta é então a natureza da sua música: uma sonoridade caleidoscópica, assente primordialmente no soul, que se alia a uma carga emocional tão frenética e inquietante, que, em vez de afastar o ouvinte, faz com que este se agarre a cada momento. Mark disse que estes últimos EPs foram terapêuticos a vários níveis: “fizeram-me levantar da cama e mantiveram a minha cabeça ocupada. Tive de conseguir expulsar alguns demónios cá para fora. E se não é essa a função da música, então falhamos enquanto artistas”.

 


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