DJing and Format

[Autor]: João Silva Pires* | [Foto]: Direitos Reservados

 

O debate do vinil contra o digital. Uma sobre-simplificação de um tema muito amplo e profundo, que coloca a epistemologia e a ciência do DJing e o uso simbólico de certas ferramentas no seu aspecto artístico no centro de uma discussão acalorada e muitas vezes ilógica. Parece-me que está na altura de fazer uma análise sã, de forma a trazer algum equilíbrio a esta discussão de extremos.

Nunca houve um livro de regras que dissesse qual o formato com que se devesse ser DJ. É, contudo, inegável que um formato em particular foi mais resiliente e sobreviveu a muitas purgas e mudanças tecnológicas: o eterno disco de vinil. E seria muito interessante para esta conversa perceber o porquê.

Não diria que é por ser um formato sem falhas (porque um tema que soe mal num mp3, soa mal num disco da mesma forma), mas porque é um formato que está embebido de investimento pessoal, tanto da parte do artista que faz a música chegar a um ponto de qualidade tal que merece ser cortada neste formato com o investimento da editora, como da parte do comprador que desembolsa em média 10 euros para ter esse disco na sua colecção. Existe, portanto, a percepção de uma correlação (talvez até quase tangível) entre uma peça de música chegar a ser cortada a vinil e o seu mérito artístico inerente.

Por outro lado, é inegável que as cabines de DJ modernas estão habilitadas de algumas opções digitais, e ainda bem. Os meios digitais promovem a reprodução de música nova, itens promocionais, produções pessoais, edits de amigos, e que todas aquelas faixas clássicas que escaparam à compra em vinil possam ser finalmente tocadas. É, evidentemente, uma solução que fará parte do futuro da reprodução da música, da sua selecção e da performance dessa selecção.

A conclusão óbvia é que não há nenhuma razão para haver uma incompatibilidade à priori entre ambos os universos, nem sequer devia haver. Mas uma vez que um dos formatos requer muito maior investimento que o outro, é natural também que o seu conteúdo tenha um processo de maior escrutínio, dado o risco que nele está implícito.

Cortar um disco que não sucede nas vendas custa à editora mais de um milhar de euros, enquanto lançar um EP digital custa perto de nada, assumindo que o trabalho de mastering e artwork é feito internamente sem custos (o que costuma ser a norma).

O disco de vinil é ainda um símbolo que confere um sentimento de realização muito procurado, e tanto assim é que até os próprios utilizadores de tecnologia digital querem ver os seus discos cortados mesmo que não usem esse formato no fim.

Eu já ajudei a montar e a gerir algumas editoras, e quando se passa tempo que chegue a fazê-lo, testemunha-se um fenómeno muito curioso: DJs que juram pela qualidade das ferramentas digitais, e publicitam o seu uso, enviam frequentemente demos de temas de sua produção nos quais exigem o corte de um disco de vinil como parte de um acordo editorial. Algo deveras interessante. Esta dicotomia prova que o disco de vinil é ainda, e principalmente, um símbolo que confere um sentimento de realização muito procurado, e tanto assim é que até os próprios utilizadores de tecnologia digital querem ver os seus discos cortados mesmo que não usem esse formato no fim.

É impossível não reparar aqui numa dualidade de princípios e valores, numa situação de dois pesos e duas medidas para a mesma coisa, e nessa contrariedade revela-se a verdade final sobre este assunto: por um lado descreve-se um objecto analógico como datado e cheio de limitações (como o peso, o preço, etc.); e por outro lado todos os artistas querem ver a sua música cortada para vinil à custa de outro.

É nesta aparente contradição que jaz o cerne deste tópico controverso: não se está, efectivamente, a discutir o meio que se usa, mas sim à procura de uma forma de reconhecimento e distinção num mercado inundado de opções, de artistas e de pessoas que fazem a mesma coisa da mesma maneira. Não há como negar as vantagens de uma realidade digital e dizer que discos de vinil têm melhor aspecto na cabine ou que a sensação de pegar no vinil é outra não basta para contra-argumentar que é muito fácil trazer pens USB no bolso ou um computador em vez de uma mala pesada e grande. Nem sequer para negar que se pode agora editar e escolher as partes dos temas que se pretende tocar com grande facilidade, colocando-as numa mix com o uso de ecos e filtros.

A discussão, no fim de toda esta contemplação, é sobre o resultado final – e aqui é preciso ser-se imparcial: há situações em que o uso destas ferramentas adicionais podem produzir grandes resultados, mas também é verdade que uma boa selecção muitas vezes torna a utilização de todas estas ferramentas adicionais redundante. Se a matéria-prima é boa, para que será preciso interferir nela? Será a mesma situação com a cozinha, a fotografia ou qualquer outro espectro de actividade humana: não há substituto para talento, experiência nem conhecimento e quando tudo o resto falha é aqui que um pode sempre encontrar aquilo que define uma boa performance.

Resumindo: o excesso de acessibilidade e o acesso aberto a ferramentas criativas com muitos atalhos não é sinónimo de melhores resultados nas performances, e na maioria da vezes promove uma realidade formatada onde a mesma coisa é usada pela maioria das pessoa da mesma forma porque a maioria não passou pela experiência de trabalhar de outras maneiras. Ao invés de se progredir na qualidade da performance e do espectáculo, promove-se inadvertidamente a sua desvalorização.

Tenho de conviver com acusações de ser um digital hater ou de defender um velho código anacrónico, muitas vezes pelas mesmas pessoas que dizem que não compram vinil porque não têm dinheiro ou que querem que eu lhes arranje um record deal quando diariamente questionam o uso de vinil.

É, assim, um corolário para este raciocínio, que uma perspectiva equilibrada é a posição mais sã, em que se procura usar diferentes formatos por razões diferentes em situações distintas porque é mais lógico. Também é verdade que o uso exclusivo de uma só opção acarreta consigo o peso de uma responsabilidade acrescida e maior ambição: ao usar apenas (ou principalmente) vinil, um dj deveria, pelo menos ter uma grande colecção (e quem sabe, misturar muito bem), e ao usar ferramentas digitais, um DJ deveria fazer uso das opções vantajosas que isso traz (seja a portabilidade ser mais fácil – e permitir trazer mais e melhor música – ou o uso de outras ferramentas), da flexibilidade adicional e o espaço criativo adicional que encontra.

É importante manter a música no centro desta discussão, a sua selecção, a sua mistura e a sua profundidade. Como um performer que usa vinil tanto quanto pode, eu não me impeço de usar tecnologia digital quando é preferível ou quando é a única opção. Tenho, não obstante, de conviver com acusações de ser um digital hater ou de defender um velho código anacrónico, muitas vezes pelas mesmas pessoas que dizem que não compram vinil porque não têm dinheiro ou que querem que eu lhes arranje um record deal quando diariamente questionam o uso de vinil.

Nesta conversa não há preto e branco e não há uma forma responsável de debater este tópico se alguém cai nos extremos das argumentações e nega a realidade. A realidade é simples, não se pode negar a facilidade ou a flexibilidade das ferramentas digitais, tal como não se pode negar que os artistas que têm a sua música à venda em vinil são mais visíveis e respeitados. E não se pode negar a simplicidade ou a virtude de uma performance que brilha pela utilização das mais humildes e simples ferramentas, como a selecção e a mistura de discos de vinil.

Acabo esta intervenção como uma ideia que esteve sempre translúcida na discografia daquela que é a banda de sonho de quase todos os amantes de música electrónica, os Kraftwerk. Jack Thurston diz: “para os Kraftwerk, o ciclismo encarna o tema central do homem-máquina. O homem controla a bicicleta, e no entanto a bicicleta habilita o homem a viajar mais depressa e mais longe do que de outra forma ele seria capaz – e de melhorar o seu físico. Tanto o homem como a bicicleta concretizam o seu potencial juntos, trabalhando em harmonia. Para um grupo que se preocupa com modernidade e progresso, uma característica da bicicleta é criticamente importante: ela não anda para trás”.

O procurar de uma relação simples e física entre o artista e a ferramenta é um processo natural. Algumas situações requerem diferentes situações, mas todas deviam ser harmoniosamente integradas para promover a melhoria da performance em qualquer situação. Não há espaço nesta ideia para se tomarem partidos, numa discussão responsável e adulta.

 

* João Silva Pires aka DJ Ka§par actua regularmente nas noites TINK! at the Box do Musicbox, Lisboa.

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