DJ Glue: o “mãozinhas” colado aos pratos

[Fotos]: Direitos Reservados

 

Não é uma altura do ano em que consigamos encontrar, com facilidade, DJ Glue, porque é neste período que o músico começa a meter o pé na estrada: este ano, a juntar às festas estudantis, queimas das fitas e enterros das gatas que já costumava fazer, Glue voltou ao trabalho em grupo. Era uma experiência que não repetia desde Dezembro de 2010, quando os Da Weasel decidiram pôr um ponto final na carreira. A boa notícia – e as coincidências a vir ao de cima – é que esse regresso do DJ aos palcos com colegas músicos dá-se, precisamente, com o ex-vocalista dos Da Weasel, Pacman, a quem hoje chamamos Carlão. Glue foi um dos produtores convidados por Carlão para o seu mais recente disco, Quarenta, que serve também para nos apresentar a estreia do DJ como produtor.

Depois de um fim-de-semana cheio de concertos e actuações – e na manhã da partida para mais uma actuação, em Aveiro – encontro Miguel Negretti (o nome de baptismo) em Alcântara, Lisboa. Convida-me para o acompanharmos num galão e num croissant com queijo enquanto conversamos à sombra numa esplanada sobre tudo isto: a sua música, os seus discos, as suas histórias e a nova experiência de produção.

Aos 33 anos, Miguel é um dos DJs portugueses que mais tem sabido fazer a ponte entre o hip hop e a música electrónica. Nessa tarefa juntam-se a ele, com igual importância, DJ Ride ou Stereossauro, por exemplo – ambos com a particularidade de, em dupla, transformarem-se em Beatbombers e terem um título mundial de DJ e Turntablism. “Isso [da competição] nunca foi coisa que me interessou, mas adoro ver”, afirma Glue. Não quer competições, nem títulos, nem campeonatos. Respeita quem compete, mas o seu objectivo é mostrar discos e músicas. “A minha interpretação de um DJ não é só o skill ou o scratch: o DJ completo é o gajo que consegue incorporar um turntablism numa noite, num clube.”

Convido o Glue a dar mais uma dentada no croissant enquanto lhe peço para recuar até às memórias do ano de 1994. Chama-lhe o ano de “boom criativo”. Tinha uns 13 anos quando se enturmou com a malta do graffiti e começou a pintar (n)as ruas de Almada. “Além de pintar também tinha uma banda de hardcore.” Naquela altura e naquele local, quem é que não tinha? “Almada sempre foi muito fixe nisso. Mas acho que a cena perdeu-se um bocado. Pelo menos nesse lado do hardcore”, lamenta. Miguel não se lembra muito bem do momento em que passou do hardcore para o hip hop. “Acho que sempre fui bué ecléctico. Tinha a banda de hardcore, mas também ouvia rap. Acho que se foi tudo misturando. Já foi mais tarde, mas lembras-te, por exemplo, da cena que os Limp Bizkit fizeram com o Method Man [“N 2Gether Now“]?”

[O PONTO DE ENCONTRO COM OS DA WEASEL]

Aquela vontade de ser DJ apareceu uns tempos mais tarde e muito por culpa do DJ Mr. Cheeks, numa altura em que a Baixa de Lisboa tinha uma loja de roupa muito especial, a Godzilla. “Aquilo era de um gajo alemão que, a certa altura, quis alargar mais a cena para a música. Para isso, contratou o Chico [Mr. Cheeks] e eu comecei a frequentar a loja. Já tinha um prato e uma mesa em casa e pedia-lhe ajuda para aprender coisas novas, porque sabia que ele era um megamaster. Ia para lá todas as tardes para mostrar-me discos dar-me dicas. E ele ajudou-me durante muito, muito tempo”, recorda.

O interesse pela música e pelos discos não parou nunca de crescer e Miguel – ainda Miguel, na altura, antes de ser Glue – iria encontrar no bar Ponto de Encontro, em Almada, o trampolim para os palcos ao lado dos Da Weasel. “Eu ia para lá tocar uns discos em dias de concerto. Um dia, o [Pedro] Quaresma [guitarrista], que já me conhecia lá da rua, viu-me a meter som e veio ter comigo a dizer que estavam a precisar de um DJ.” E assim foi. Simples. No dia seguinte, Miguel, que “tinha um trabalho que nada tinha a ver – era apontador nas obras, andava nas construções de capacete e a tratar de coisas no escritório” – foi a um ensaio-casting para os Da Weasel. “Quando acabou, apresentam-me uma folha com umas 30 datas de concertos e dizem-me: ‘Vens connosco’. E eu respondi que sim! No dia seguinte, cheguei ao trabalho e despedi-me”, sorri.


HOOD MIX by Dj Glue on Mixcloud


Estávamos em 2001. Os Da Weasel já tinham editado quatro discos e um EP: More Than 30 Motherf*****s EP (1994), Dou-lhe Com A Alma (1995), 3º Capítulo (1997), Iniciação A Uma Vida Banal – O Manual (1999) e Podes Fugir Mas Não Te Podes Esconder (2001). Eram uma banda de topo em Portugal, com dezenas de concertos de Norte a Sul e, numa altura em que ainda se vendiam discos, a juntar galardões atrás de galardões. Miguel, que se tornou DJ Glue, metia música no bar Ponto de Encontro em Almada. “O meu primeiro concerto foi em Leiria, numa Queima das Fitas… e foi uma semana depois do meu primeiro ensaio”, ri-se, concordando que foi uma loucura. “Eles só me pediam para fazer o me apetecia. Claro que depois, com o tempo e com os ensaios, as coisas foram ganhando outra forma e fui ganhando a experiência e a confiança para conseguir estar à frente das pessoas. Em casa podes estar a conseguir fazer tudo – as passagens, os scratches… – mas tudo muda quando tens um público à frente. E comigo os movimentos ficam mais lentos.”

DJ Glue ganhou o seu papel de relevo nos Da Weasel, tornando-se no primeiro DJ, na essência da palavra, da banda: Yen Sung foi mais MC ao lado de Pacman do que propriamente uma DJ – desde a primeira formação até à saída em meados de 1996-97 – e Armando Teixeira trabalhou sobretudo como homem das máquinas e das programações. “Sempre senti a responsabilidade”, diz Glue. “Como a banda já era tão grande, a inspiração tinha sempre que aparecer.” O grupo tinha um grande espírito de partilha e unidade em palco, todos eram importantes e todos tinham os seus momentos a solo. “Não foi nada que eu tenha pedido. Eles é que me pediam para eu fazer o solo. Éramos todos mega-fãs dos The Roots, até íamos ver concertos deles à Suíça, e víamos que eles dão muita importância àquilo que cada um faz individualmente. Cada um deles tem o seu momento para brilhar.”

O fim dos Da Weasel, depois de dois álbuns – Re-Definições (2004), que arranca logo com um scratch violento; e Amor, Escárnio e Maldizer (2007) – e duas digressões para Glue, foi doloroso. “Fiquei triste, claro. Tínhamos uma relação muito saudável, toda a gente se dava bem. E ir para a estrada era uma maravilha. Eu era amigo de toda a gente e estava todos os dias com eles por causa de ensaios e concertos… De repente, deixei de estar com os meus amigos por causa de uma cena profissional…” Ainda assim, como DJ, “era o que tinha o trabalho mais facilitado”, porque continuou “a fazer música e a tocar”.

Em 2010, com 27 anos, Miguel era, finalmente, aquilo que teve sempre vontade de ser: um DJ, em festas, discotecas, durante a noite. “Foi bué fixe! Aí já sabia o que estava a fazer e podia mostrar o meu trabalho!”

[QUEIMAS, RÁDIO E UMA CURADORIA NO LUX]

O tempo também passou para Miguel Negretti. Aquele que foi o caçula dos Da Weasel tem hoje 33 anos e está quase a ser pai, motivo pelo qual teve de mudar a disposição da casa onde vive, perto de Alcântara. “Os meus discos ficaram em casa dos meus pais, em Almada. Nunca me considerei um grande coleccionador de vinil, porque ao pé daqueles a quem chamo de verdadeiros coleccionadores eu fui sempre um menino, mas claro que comprei muitos discos.” Só que, por uma questão prática, também DJ Glue dá mais uso ao digital. “A não ser em noites muito específicas!”



O estúdio é também hoje fora de casa, algo que o obriga a sair do conforto para ir para o trabalho. Hoje já não são só as festas nas discotecas: sobretudo nesta altura do ano, Glue faz milhares de quilómetros para tocar nas tais queimas das fitas e outros espectáculos para vastas plateias. Ele foi um dos primeiros DJ em Portugal a saber misturar o universo do hip hop com influências mais electrónicas contemporâneas. “Houve uns gajos que me influenciaram por completo: os Beat Junkies. Ouvia tudo deles. Na altura, quando comecei, ainda quando ia à Godzilla, conseguia ter acesso a todas as mixtapes que eles iam lançando. Escutava-os bem, prestava atenção aos detalhes e tentava reproduzir o que conseguia”, recorda. “Mas fiz questão de estar sempre a par do que estava a dar, de acompanhar toda a cena. Acho que cresci apenas numa altura em que tudo ficou mais electrónico.”

Tanto a rádio Mega Hits, onde tem o seu programa no terceiro sábado de cada mês; como a discoteca Lux, em Lisboa, reconheceram a importância de Glue na formação de público ligado ao hip hop. No caso particular do convite da discoteca, veio fazer com que o DJ cumprisse outro sonho enquanto artista: ter uma noite com o seu selo. “Sempre quis ter a minha noite, a minha própria residência, porque era a única maneira de mostrar o meu trabalho a quem me quer mesmo ouvir. Quando me convidam a ir tocar a qualquer lado, as pessoas podem não ir ver-me por causa da música, mas só para ir sair, beber um copo, conhecer miúdas… Mas aqui é diferente: educar o público está no ADN do Lux e ali sei que as pessoas vão para me ouvir a mim e as coisas que eu quero mostrar.”

Foi assim que nasceram as noites C.R.E.A.M., que de dois em dois meses ficam à responsabilidade de Glue e dos seus convidados: “Basicamente são os sons que eu gosto e os DJ que eu sempre quis ver por cá”, explica. “O Lux sempre teve uma noite hip hop: a da Yen [Sung], a Chocolate City, que depois passou a chamar-se Back In Black. Só que as noites da Yen eram garantidamente fáceis: acontecem ao Sábado, em que a casa enche, automaticamente. A ideia das C.R.E.A.M. é ser uma coisa completamente fresca, com as novas tendências do hip hop, que tem, naturalmente, uma componente mais electrónica – mais beats, com uma sonoridade mais futurista.” Ainda assim, com um nome clássico do hip hop, “emprestado” pelos Wu-Tang Clan. “Além dos convidados, também aproveito para mostrar coisas novas, saídas há pouco tempo. Nesta altura interessa-me muito a cena de L.A. Beat – malta como Gaslamp Killer, por exemplo.”


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[DE VOLTA AOS PALCOS COM CARLÃO]

Glue tornou-se mesmo num DJ e nunca mais largou a música. E nem a música o larga a ele. É um universo criativo que gira à sua volta a toda a hora, sempre a representar a escola do hip hop – seja na música, seja no graffiti (continua a ser gestor da Montana, no Bairro Alto, em Lisboa). E cinco anos depois do fim dos Da Weasel está então de volta aos palcos para acompanhar o amigo Carlão na digressão de Quarenta – um disco do qual Miguel também faz parte. “Ele desafiou-me a fazer uma coisa que nunca tinha feito: produzir um tema. Obrigou-me a concentrar-me nisso. Mas foi tudo de forma muito simples: ligou-me a pedir um beat e eu disse que sim. Só que ao contrário de outros produtores, que podem mostrar uma biblioteca de beats, eu não tinha nada para lhe mostrar! Lá fiz, mandei e ele gostou. Na semana seguinte tinha a música feita e já estava a pedir-me outro beat!”

Em Quarenta escutamos a produção de Glue nas faixas de “Nuvens” e “Topo do Mundo” – e, se ouvirmos bem, com atenção, não vai ser difícil identificar o estilo do DJ: logo o prato de choque que arranca a faixa “Nuvens” faz-nos recuar até “Cowboys”, de Amor, Escárnio e Maldizer (2007). “Desde que comecei a pensar em produzir, ouço a música de outra maneira. Estou mesmo a pensar, a desconstruir e a tentar perceber a forma como foi construído o beat.” O próximo? Talvez para Sara Tavares, que já lhe “encomendou” trabalho para o seu disco.

O sorridente e tímido Miguel Negretti sente-se hoje no topo do seu mundo. Família, amigos, música e ímpeto criativo. Está de volta aos concertos e à vida na estrada, onde encontra uma das suas maiores influências: as pessoas. “Gosto mesmo de andar a fazer estrada. É muito fixe. Também saio muito à noite. A minha namorada mete-se comigo, mas eu respondo-lhe que saio para trabalhar. Não vou beber copos: gosto de ir ver as pessoas a reagir à música, a ver como é que este ou aquele DJ trabalha, que técnicas usa. No outro dia o [DJ] Ride foi tocar às C.R.E.A.M. para fazer um back-2-back. Só que é nessas alturas que tenho a oportunidade de ver que softwares usam os outros DJs, dicas para melhorar a performance. É algo de que gosto muito.”

Miguel confessa-se, a rir, como “permanentemente insatisfeito”, por sentir que há sempre algo que consegue fazer melhor, que consegue corrigir, “mesmo nas noites em que tudo corre melhor”. Nos Da Wesasel chamavam-lhe o “mãozinhas”, mas ele achou por bem escolher algo com mais estilo. “O nome ‘Glue’? Surgiu da mesma forma que surgiu o meu tag no graffiti: são as minhas letras favoritas e arranjei maneira de as combinar.” A verdade é que num DJ é um nome que “cola” muito bem. “[Risos] Ya! Foi uma combinação feliz. Acaba por fazer sentido.”

Bruno Martins

Sou jornalista desde 2003. O hobbie da música vem de garoto e há um bom par de anos que cruzo tudo em papéis. Tudo se mistura nesta mixtape cheia de scratches que é a vida.